Arranca hoje, 29 de maio de 2026, a 8.ª edição do Samora Equestre na Zona Ribeirinha de Samora Correia, em Santarém. Até 31 de maio, o programa junta o VII Lusitano Summit e presta homenagem aos 190 anos da Companhia das Lezírias, com dezenas de cavalos lusitanos em pista. Mas, por trás do espetáculo, veterinários equinos alertam: as lesões mais graves não são as visíveis na pista — são as que aparecem 24 a 72 horas depois da competição.
O que acontece em Samora este fim de semana
A organização — a Junta de Freguesia de Samora Correia em parceria com a Câmara Municipal de Benavente — confirmou três dias de provas de equitação clássica, apresentações de criadores e o tradicional ferreiro ao vivo. A Companhia das Lezírias, fundada em 1836, mantém uma das maiores manadas de cavalos lusitanos do mundo, com cerca de 600 cabeças a viver no Ribatejo.
Nuno Ribeiro, médico veterinário equino com 18 anos de prática no Ribatejo, resume assim o calendário deste fim de semana: "Cada cavalo que entra na pista do Samora Equestre faz, em média, entre 40 a 60 minutos de esforço acumulado por dia. É equivalente a uma maratona para um atleta humano."
As 3 lesões silenciosas que os donos não vêem
1. Tendinite do flexor digital superficial
É a lesão mais frequente em cavalos de competição. O cavalo termina a prova aparentemente normal — só na manhã seguinte é que aparece a claudicação. A tendinite afeta tipicamente o membro anterior e, sem diagnóstico ecográfico nas primeiras 48 horas, pode evoluir para rotura parcial.
"Quando o proprietário liga já com o cavalo a apoiar mal, perdemos a janela das 24 a 72 horas em que a anti-inflamação faz a diferença real", explica o veterinário Ribeiro. "A regra de ouro é palpar o tendão flexor logo após o desencilhar, ainda quente. Se houver assimetria entre os dois membros, mesmo que mínima, é motivo para chamar o veterinário."
2. Cólica pós-esforço
A cólica é a principal causa de morte em cavalos adultos em Portugal e o risco multiplica-se por três nos dias seguintes a um esforço intenso, segundo dados da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Equinos (APMVEEq). O tema do bem-estar animal em provas equestres tem ganho atenção desde a morte de um toureiro em Lisboa em 2026, que reabriu o debate público sobre veterinários de prova. O calor de maio no Ribatejo — com previsões de 28 °C para sábado segundo o IPMA — agrava o quadro.
Sintomas a vigiar nas 12 horas após a prova:
- Recusa em comer ou beber
- Olhar para o flanco
- Suor frio e respiração rápida
- Ausência de fezes durante mais de 6 horas
A regra clínica é simples: cavalo que não bebe nas duas horas seguintes à prova é cavalo que precisa de avaliação imediata.
3. Desidratação e rabdomiólise
A rabdomiólise de esforço — vulgarmente conhecida como "doença das segundas-feiras" — manifesta-se quando o cavalo perde mais de 4% do peso corporal em fluidos durante a competição. Os músculos ficam rígidos, a urina escurece e, em casos graves, há lesão renal. Um cavalo de 500 kg pode perder até 25 litros de água em três horas de esforço com calor.
A prevenção passa por oferecer água a cada paragem, electrólitos antes e depois da prova e nunca dar grão imediatamente após o esforço. O feno deve ser sempre a primeira refeição pós-competição.
A responsabilidade do organizador e do dono
O Regulamento de Bem-Estar Animal aplicável a eventos equestres em Portugal, fiscalizado pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, obriga a presença de veterinário em prova durante competições oficiais. Mas em apresentações de criadores e demonstrações — formato dominante no Samora Equestre — a obrigatoriedade não é absoluta e a responsabilidade clínica recai sobre o proprietário.
Para os ginetes amadores que trazem o seu cavalo a Samora pela primeira vez, três passos práticos antes de entrar em pista:
- Aviso de presença: confirmar quem é o veterinário de serviço e o seu contacto direto.
- Plano de emergência: ter o número da clínica equina mais próxima — em Samora Correia, a referência é a clínica do Cartaxo, a 18 km.
- Seguro de responsabilidade civil: o seguro do cavaleiro federado cobre danos a terceiros, mas não cobre o tratamento veterinário do próprio animal. Um seguro de cavalo de desporto custa entre 350 e 900 € por ano em Portugal e cobre claudicação, cirurgia e mortalidade.
Quando consultar um veterinário equino?
A consulta veterinária equina urgente em Portugal custa em média entre 80 e 150 €, deslocação incluída até 30 km. É uma fração do custo de uma rotura tendinosa não tratada, que pode atingir 3.000 a 5.000 € entre ecografias, internamento e reabilitação de seis meses. Os seis mitos mais persistentes sobre a clínica veterinária atrasam, em média, três dias o pedido de consulta — tempo crítico em lesões equinas.
Os sinais que justificam chamada imediata, mesmo de madrugada:
- Claudicação súbita após a prova
- Cólica com mais de 30 minutos sem alívio
- Sangramento nasal abundante após esforço
- Cavalo deitado e a recusar levantar-se
Para os visitantes que querem ver Lusitano em ação este fim de semana — sem responsabilidade clínica direta — basta levar cantil de água, chapéu e respeitar a distância de segurança de quatro metros do gradeamento. Os cavalos em apresentação estão em estado de alerta máximo e o coice é mais rápido do que o reflexo humano.
A 8.ª edição do Samora Equestre arranca hoje pelas 14h00 e encerra domingo, dia 31 de maio, com o Grande Prémio Lusitano. A entrada é livre e o programa completo está disponível no portal da Junta de Freguesia de Samora Correia.

Maria Silva