Rod Stewart vai atuar no Rock in Rio Lisboa a 27 de junho de 2026. Com 81 anos e uma voz que atravessou seis décadas de carreira, o músico britânico confirma o que poucos conseguem: manter uma voz profissionalmente funcional depois dos 80. Mas o que é que a ciência médica diz sobre a longevidade vocal — e quando é que deve consultar um médico ORL?
Rod Stewart e o regresso a Portugal: os factos
O cantor de "Maggie May" e "Sailing" foi confirmado como cabeça de cartaz do Rock in Rio Lisboa 2026, regressando ao festival duas décadas depois da sua última presença em 2008. A sua atual digressão norte-americana, "One Last Time Tour", prolongou-se até abril de 2026, com datas confirmadas nos dias 15, 17 e 19 desse mês, antes de atravessar o Atlântico para a temporada europeia.
O que torna este regresso ainda mais notável é o historial clínico de Stewart. Em 2000, foi diagnosticado com cancro da tiróide — uma condição que afeta diretamente a voz, dado que a glândula tiroideia está anatomicamente próxima das cordas vocais. A cirurgia e o tratamento subsequente colocaram a carreira vocal do músico em risco durante vários meses.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, os nódulos vocais, o cancro da tiróide e a laringite crónica estão entre as condições que mais afetam a qualidade vocal em adultos com mais de 60 anos. A capacidade de Rod Stewart de manter uma voz reconhecível décadas depois de uma cirurgia oncológica é clinicamente significativa.
Como envelhece a voz humana — e o que pode ser feito
A voz humana começa a sofrer alterações percetíveis a partir dos 60 anos. As pregas vocais perdem elasticidade e massa muscular, a capacidade pulmonar diminui, e a produção de muco que lubrifica a laringe reduz-se. O resultado é frequentemente uma voz mais rouca, com menos amplitude e maior fadiga vocal.
Mas o envelhecimento vocal não é inevitavelmente incapacitante. A investigação clínica identifica três fatores que determinam a longevidade da função vocal:
Hidratação sistemática. As pregas vocais necessitam de hidratação para vibrar com eficiência. Cantores e oradores profissionais são aconselhados a ingerir pelo menos dois litros de água por dia, aumentando para 2,5 litros em dias de performance. A cafeína e o álcool são diuréticos que reduzem a hidratação das mucosas laríngeas.
Aquecimento e arrefecimento vocal. Tal como um atleta, um cantor que inicia uma performance sem aquecimento expõe as pregas vocais a microlesões. O protocolo de aquecimento padrão inclui escalas suaves, exercícios de ressonância e vocalizações a meio volume durante 15 a 20 minutos antes de qualquer exigência vocal intensa.
Repouso vocal ativo. Após uma performance prolongada, o repouso vocal não significa silêncio absoluto, mas sim limitação a conversas a volume normal, sem sussurrar — o sussurro força as pregas vocais mais do que a fala normal.
Quando consultar um médico ORL?
Muitos problemas vocais são tratáveis se detetados precocemente. Os sinais de alerta que justificam uma consulta com um otorrinolaringologista incluem:
- Rouquidão persistente por mais de duas semanas, especialmente em não-fumadores
- Perda de notas agudas que anteriormente eram acessíveis sem esforço
- Dor ao engolir associada a alterações vocais
- Sensação de corpo estranho na garganta (globus faríngeo) recorrente
- Cansaço vocal após períodos de utilização que anteriormente não causavam fadiga
De acordo com o Serviço Nacional de Saúde de Portugal, os cancros da cabeça e pescoço — incluindo o cancro laríngeo — têm uma taxa de cura superior a 80% quando detetados na fase inicial. A rouquidão persistente é o sintoma mais comum e mais frequentemente ignorado do cancro da laringe.
Professores, advogados, comerciais, cantores amadores e qualquer pessoa que utilize a voz profissionalmente beneficia de uma avaliação vocal periódica — idealmente uma vez por ano — mesmo na ausência de sintomas.
A voz como instrumento de trabalho
Rod Stewart demonstra que com os cuidados certos, a voz pode manter-se funcional durante décadas. Para quem utiliza a voz profissionalmente, ou simplesmente quer preservá-la com o passar dos anos, uma consulta com um otorrinolaringologista é o primeiro passo concreto.
Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas vocais persistentes, consulte o seu médico de família ou um especialista em otorrinolaringologia.
Cancro da tiróide e voz: o que Rod Stewart ensina
O diagnóstico de cancro da tiróide de Rod Stewart em 2000 é clinicamente relevante porque a glândula tiroideia está intimamente relacionada com as estruturas laríngeas. A cirurgia de tiroidectomia — remoção total ou parcial da tiróide — apresenta como risco principal a lesão do nervo laríngeo recorrente, que controla o movimento das pregas vocais. Uma lesão deste nervo pode causar rouquidão permanente ou, em casos graves, disfagia (dificuldade a engolir).
O facto de Rod Stewart ter recuperado plenamente a sua voz após cirurgia e tratamento oncológico é atribuído, segundo os seus próprios relatos, a um trabalho intensivo com fonoaudiólogos (terapeutas da fala) durante a reabilitação. Esta é uma lição directa para qualquer pessoa que tenha sido submetida a cirurgia cervical: a reabilitação vocal especializada reduz significativamente o risco de sequelas permanentes.
Mitos sobre a voz que um ORL desfaz
Muitos portugueses aguardam semanas ou meses antes de consultar um especialista quando surgem alterações vocais. Entre as crenças mais comuns que atrasam o diagnóstico:
"É só uma gripe que passou." A rouquidão associada a infeção respiratória dura geralmente entre 7 e 14 dias. Se persistir além deste período, deve ser investigada.
"O mel e o limão resolvem." Estes remédios caseiros têm efeito calmante momentâneo na mucosa, mas não tratam causas estruturais como nódulos, pólipos ou lesões malignas.
"Só os cantores profissionais têm problemas vocais sérios." Os grupos de risco incluem professores, advogados, vendedores, call center e qualquer pessoa que fale continuamente durante horas. A prevalência de patologia vocal em professores portugueses supera os 25%, segundo estudos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
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