Rayan Cherki no Manchester City: a teia jurídica por trás de um contrato internacional

Advogado analisa um contrato de trabalho internacional com um jovem atleta profissional
Sofia Sofia CostaJurídico
4 min de leitura 17 de junho de 2026

Rayan Cherki voltou a estar no centro das atenções em junho de 2026, com o internacional francês a afirmar-se no Manchester City após a transferência que o tirou do Lyon. O médio de 21 anos assinou um contrato de cinco anos, válido até junho de 2030, num negócio que rondou os 36,5 milhões de euros mais variáveis. Por trás do glamour do futebol inglês esconde-se um universo jurídico complexo — e que serve de lição a qualquer profissional que aceite um contrato no estrangeiro.

A anatomia de um contrato internacional

Quando Cherki trocou a França por Inglaterra, não assinou apenas um vínculo desportivo. Um contrato de jogador de elite envolve, na prática, várias camadas jurídicas que se sobrepõem: o contrato de trabalho propriamente dito, os direitos de imagem, as cláusulas de rendimento, as comissões de agentes e as obrigações fiscais em duas jurisdições diferentes.

O fluxo financeiro, que ronda os 46,8 milhões de libras ao longo de cinco anos, está sujeito a regras de dois países e, no caso do Reino Unido pós-Brexit, à necessidade de autorização de trabalho para cidadãos da União Europeia. Cada uma destas dimensões pode gerar litígios que se arrastam durante anos.

Direitos de imagem: o verdadeiro tesouro

Para uma estrela em ascensão, o salário é apenas parte da equação. Os direitos de imagem — a exploração comercial do nome, da figura e da marca pessoal do atleta — podem valer tanto ou mais do que o ordenado.

A gestão destes direitos costuma envolver uma estrutura própria, com contratos de licenciamento, definição de quem pode usar a imagem e em que condições, e o tratamento fiscal dos rendimentos daí decorrentes. Uma cláusula mal redigida pode significar perder o controlo sobre a própria marca ou pagar imposto em duplicado.

Este não é um problema exclusivo de futebolistas milionários. Qualquer profissional com notoriedade — de um influencer a um consultor independente — enfrenta questões semelhantes quando a sua imagem passa a ter valor comercial.

Trabalhar no estrangeiro: o que muda

A mudança de Cherki para Inglaterra ilustra desafios que afetam milhares de portugueses que aceitam propostas além-fronteiras todos os anos. Mudar de país para trabalhar implica verificar uma série de pontos antes de assinar:

  • Autorização de trabalho e vistos, sobretudo fora do espaço da União Europeia.
  • Lei aplicável ao contrato e tribunal competente em caso de conflito.
  • Regime fiscal e risco de dupla tributação dos rendimentos.
  • Segurança social e em que país se descontam as contribuições.
  • Cláusulas de rescisão e penalizações por saída antecipada.

O portal oficial da União Europeia Your Europe reúne informação institucional sobre direitos laborais, reconhecimento de qualificações e segurança social para quem trabalha noutro país — um ponto de partida útil antes de qualquer mudança.

As cláusulas que mais geram litígios

No desporto, como em qualquer setor, há cláusulas que concentram a maioria dos conflitos. As cláusulas de rescisão definem o custo de uma saída antecipada. As cláusulas de objetivos condicionam parte da remuneração ao desempenho. E as comissões de agentes, quando mal documentadas, são uma fonte recorrente de disputas.

A estas juntam-se as cláusulas de confidencialidade, que limitam o que o profissional pode revelar sobre o contrato, e as de não concorrência, que podem restringir futuras oportunidades. Em transferências internacionais, há ainda que harmonizar dois sistemas jurídicos que nem sempre encaixam: o que é válido num país pode ser inexequível noutro. A tradução jurídica rigorosa dos termos é, muitas vezes, tão importante como a própria negociação.

Num contrato de cinco anos como o de Cherki, basta uma redação ambígua para abrir a porta a anos de litígio dispendioso. É por isso que a revisão jurídica prévia não é um luxo, mas uma proteção.

Quando recorrer a um advogado

A história de Cherki é um caso extremo, mas o princípio é universal: ninguém deve assinar um contrato internacional significativo sem aconselhamento jurídico.

Um advogado especializado em direito do trabalho ou em contratos internacionais pode:

  • Rever as cláusulas antes da assinatura e negociar as mais sensíveis.
  • Esclarecer a lei aplicável e o foro competente em caso de litígio.
  • Antecipar as obrigações fiscais nos países envolvidos.
  • Proteger os direitos de imagem e a marca pessoal.

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Cada situação contratual é única e deve ser analisada por um profissional habilitado.

A lição para lá do relvado

Rayan Cherki simboliza uma geração de jovens talentos que circulam livremente entre países e ligas. Mas, por trás de cada transferência espetacular, há um trabalho jurídico minucioso que determina se o negócio será uma bênção ou uma armadilha.

Para o leitor comum, a mensagem é clara: seja um contrato de 36 milhões ou uma proposta de emprego no estrangeiro, ler as cláusulas com atenção e procurar aconselhamento especializado é o melhor investimento que se pode fazer antes de assinar.

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