Luuk de Jong e Samu afastados do jogo FC Porto-Tondela deste domingo: o que as lesões no futebol nos ensinam sobre medicina desportiva e quando qualquer atleta deve pedir ajuda especializada
FC Porto recebe o CD Tondela esta tarde, no Estádio do Dragão, sem três dos seus jogadores titulares. Luuk de Jong, Samu e Nehuén Pérez continuam a recuperar de lesões graves — e a situação do avançado holandês, com uma lesão parcial no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, volta a chamar a atenção para um problema que afeta não só os profissionais, mas também milhares de praticantes amadores em Portugal.
As lesões que mantêm o Porto incompleto
O avançado holandês Luuk de Jong sofreu uma lesão parcial no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo durante o jogo contra o Estoril Praia, em novembro de 2025. O caso é particularmente preocupante porque de Jong já tinha estado afastado por lesão no mesmo joelho desde setembro do mesmo ano — e acabou por regressar demasiado cedo.
Samu, outro atacante portista, também está em recuperação, encontrando-se a realizar tratamento e trabalho de ginásio. E Nehuén Pérez, defesa central argentino, lida desde setembro de 2025 com uma rotura total do tendão de Aquiles — lesão que o obrigou a ser operado e que tem uma recuperação de vários meses, podendo chegar aos 9 ou 12 meses em casos completos.
Três lesionados em simultâneo, todos em posições críticas. O treinador Francesco Farioli terá de gerir a falta destes jogadores num trecho decisivo da época.
Ligamento cruzado anterior: a lesão mais temida no desporto
A lesão no ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das mais comuns e mais graves no futebol — e não só nos profissionais. Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, este tipo de lesão representa uma parte significativa das cirurgias desportivas realizadas em Portugal todos os anos.
O mecanismo mais frequente envolve uma torção brusca do joelho sem contacto direto — o que acontece quando um jogador muda de direção a alta velocidade. A recuperação completa, sem cirurgia, pode levar entre três a seis meses. Quando é necessária reconstrução cirúrgica do ligamento, o processo chega facilmente aos nove meses ou mais, como verificamos no caso de Nehuén Pérez com o tendão de Aquiles.
O que torna o caso de Luuk de Jong ainda mais representativo é a questão do regresso prematuro ao jogo. O holandês tinha regressado após uma primeira lesão no mesmo joelho e acabou por sofrer uma nova lesão. Este padrão é comum: a ansiedade de voltar a jogar — tanto do jogador como do clube — leva muitas vezes a uma recuperação incompleta, com consequências graves a longo prazo.
Quando é que um atleta amador deve consultar um médico desportivo?
A situação dos jogadores do FC Porto levanta uma questão pertinente para os milhares de portugueses que praticam desporto ao fim de semana, nos ginásios, nos campos de futebol amador ou nas corridas de rua: quando se deve procurar um especialista em medicina desportiva?
A resposta dos especialistas é clara: mais cedo do que habitualmente se pensa.
Dor persistente após atividade física que não desaparece com repouso de dois a três dias é um sinal de alerta. A dor aguda durante a prática, como uma "fisgada" ou um "estalo" articular, indica lesão imediata que deve ser avaliada nas primeiras 24 horas.
Inchaço ou hematoma após uma pancada ou torção, especialmente nos joelhos, tornozelos ou ombros, requer avaliação clínica antes de retomar qualquer atividade. Tentar "aguentar" ou improvisar com ligaduras caseiras pode transformar uma lesão minor numa lesão crónica.
Dificuldade em apoiar o peso no membro afetado, sensação de instabilidade articular — o joelho que "falha" — ou limitação significativa de mobilidade são indicações claras para consultar um médico desportivo ou ortopedista.
O caso do tendão de Aquiles de Nehuén Pérez ilustra bem o que pode acontecer quando as lesões são subvalorizadas. A rotura total do tendão — que ele sofreu durante um jogo do FC Porto frente ao Nacional, em setembro de 2025 — é frequentemente precedida por microlesões não tratadas adequadamente.
A medicina desportiva não é só para profissionais
Existe um mito, muito comum em Portugal, de que a medicina desportiva é um luxo reservado aos atletas de alta competição. Na realidade, qualquer pessoa que pratique atividade física regularmente pode beneficiar desta especialidade.
Um médico desportivo avalia não apenas a lesão em si, mas o historial do atleta, a sua mecânica de movimento, a adequação do equipamento e até os padrões de treino — identificando fatores de risco que um ortopedista generalista pode não considerar. No caso das lesões ligamentares, a prevenção passa frequentemente por exercícios específicos de fortalecimento muscular e propriocepção, que um especialista pode prescrever antes que ocorra qualquer lesão.
De acordo com a Direção-Geral da Saúde, a prática regular de exercício físico é uma prioridade de saúde pública em Portugal — e isso inclui garantir que essa prática seja feita com segurança e acompanhamento adequado.
O que fazer nas primeiras horas após uma lesão desportiva
O protocolo PRICE — Proteção, Repouso, Gelo, Compressão e Elevação — é o primeiro passo recomendado em qualquer lesão músculo-esquelética aguda:
- Proteção: imobilizar e proteger a zona afetada de novos impactos.
- Repouso: parar imediatamente a atividade física.
- Gelo: aplicar gelo embrulhado numa toalha, durante 15 a 20 minutos, a cada duas horas.
- Compressão: uma ligadura compressiva pode reduzir o inchaço.
- Elevação: manter o membro afetado acima do nível do coração.
Este protocolo deve ser aplicado nas primeiras 48 a 72 horas. Após esse período, se os sintomas persistirem ou agravarem, a consulta médica é indispensável.
Encontrar um médico desportivo em Portugal
Portugal tem uma rede crescente de especialistas em medicina desportiva, tanto no setor público como no privado. A consulta especializada permite um diagnóstico preciso — que muitas vezes inclui ecografia ou ressonância magnética — e um plano de reabilitação personalizado.
A experiência dos jogadores do FC Porto, mediatizada e seguida por milhões de adeptos, é um lembrete poderoso de que as lesões desportivas são sérias, independentemente do nível de prática. Luuk de Jong, Samu e Nehuén Pérez têm ao seu dispor toda uma equipa médica de topo. Os atletas amadores, no entanto, muitas vezes dependem de si próprios para reconhecer os sinais e procurar ajuda a tempo.
Se pratica desporto regularmente e sente dores persistentes, instabilidade articular ou sofreu uma lesão recente, consulte um especialista em medicina desportiva. A Expert Zoom tem artigos detalhados sobre prevenção de lesões no futebol amador e quando recorrer a um profissional. Tratar cedo é a diferença entre semanas de recuperação e meses de incapacidade.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Em caso de lesão, consulte sempre um profissional de saúde.
