A 17 de outubro de 2022, Pedro Neto saiu do relvado de Molineux depois de um choque com um adversário do West Ham United. Diagnóstico: rotura de ligamentos no tornozelo, com necessidade de cirurgia. O Mundial do Qatar, que se aproximava a passos largos, ficou definitivamente fora de alcance. Quatro anos depois, em junho de 2026, o extremo portuense começou os dois primeiros jogos de Portugal na Copa do Mundo — e na estreia contribuiu com uma assistência para João Neves. A sua trajetória é um estudo de caso sobre resiliência desportiva. E sobre quando uma lesão articular exige, mesmo, a opinião de um especialista de saúde.
O historial que quase acabou com uma carreira
Pedro Neto, 26 anos, natural de Viana do Castelo, é um dos extremos mais talentosos da sua geração no futebol europeu. É também um dos que mais vezes esteve à beira de ver a carreira comprometida por lesões graves e recorrentes.
O primeiro grande susto chegou em abril de 2021, durante uma partida do Wolverhampton Wanderers frente ao Fulham: uma fratura da rótula — o osso da patela, indispensável para qualquer arranque, travagem ou mudança de direção — afastou-o dos relvados durante cerca de oito meses. O Euro 2020 passou sem ele. A intervenção cirúrgica correu bem, mas a recuperação foi longa e exigente, com meses de reabilitação intensiva sob supervisão médica especializada.
Recuperado e em plena ascensão, tornou-se um dos jogadores mais cobiçados da Premier League. Mas outubro de 2022 trouxe nova contrariedade: a lesão no tornozelo após o jogo contra o West Ham exigiu intervenção cirúrgica e quatro meses de recuperação. Desta vez, foi o Mundial do Qatar que lhe escapou das mãos — um golpe duro para um jogador que sonhava com a sua primeira fase final de um Campeonato do Mundo.
Na temporada 2023-24, dois episódios de lesão nos isquiotibiais — cada um com sensivelmente dois meses de paragem — voltaram a travar a sua progressão. Em agosto de 2024, o Chelsea pagou cerca de 60 milhões de euros pelo seu passe ao Wolverhampton. Uma aposta de alto valor num jogador com um historial de lesões considerável, que muitos analistas consideraram um risco calculado pelos londrinos.
Em fevereiro de 2026, nova interrupção: uma lesão muscular afastou-o temporariamente durante menos de uma semana. Desta vez, a recuperação foi rápida. E quando o selecionador de Portugal divulgou a lista de convocados para o Mundial 2026 — o primeiro realizado conjuntamente pelos Estados Unidos, pelo Canadá e pelo México —, Pedro Neto estava nela. "Espero que possa explodir no Mundial 2026", disse o extremo, em declarações à imprensa portuguesa antes da partida para a América do Norte.
O que os dados revelam sobre lesões articulares no desporto
A história de Pedro Neto não é um caso isolado no futebol de alto nível. Segundo dados do British Journal of Sports Medicine, cerca de 25% dos futebolistas profissionais sofrem pelo menos uma lesão articular grave ao longo da carreira. As lesões no tornozelo — entorses e roturas ligamentares — e no joelho — meniscos, ligamento cruzado anterior e, mais raramente, fraturas da rótula como a sofrida por Neto em 2021 — são as mais frequentes e as que têm maior impacto na longevidade das carreiras.
O padrão repete-se ao longo das temporadas na Premier League: lesões não geridas atempadamente tornam-se recorrentes. Como se documentou recentemente no acompanhamento médico de jogadores do Liverpool e Chelsea na Premier League 2025-26, a gestão precoce das lesões musculares e articulares determina, em grande medida, a frequência com que os jogadores reaparecem nas listas de indisponíveis ao longo da época.
De acordo com orientações publicadas pela Direção-Geral da Saúde, a avaliação clínica por especialista nas primeiras 48 a 72 horas após uma lesão articular significativa é determinante para o prognóstico — tanto em atletas profissionais como em desportistas amadores que praticam futebol, corrida, ciclismo ou qualquer modalidade de impacto.
O ângulo médico: as lesões que se subestimam com mais frequência
A maior armadilha nas lesões articulares agudas — particularmente as entorses de tornozelo — é a falsa melhoria inicial. A dor e o inchaço nas primeiras 24 a 48 horas são, por vezes, intensos; mas diminuem nos dias seguintes, criando a ilusão de que a situação está a resolver-se espontaneamente. Na realidade, os tecidos ligamentares continuam danificados e vulneráveis a nova sobrecarga.
Especialistas em medicina desportiva descrevem um padrão recorrente: a maioria das pessoas que sofre uma entorse significativa passa dias a caminhar em cima da lesão e só recorre a cuidados médicos quando a dor não desaparece — frequentemente semanas depois de o dano estrutural ter sido estabelecido. Este atraso tem implicações diretas no prognóstico. Uma entorse de grau 2 (rotura parcial de ligamentos), abordada terapeuticamente nos primeiros 3 a 5 dias, costuma resolver-se em 4 a 8 semanas, sem sequelas permanentes. A mesma lesão, sobrecarregada durante as primeiras semanas, pode evoluir para instabilidade crónica do tornozelo — uma condição que, em 15 a 20% dos casos não tratados precocemente, acaba por requerer cirurgia reconstrutiva.
Pedro Neto passou por esse cenário mais grave em 2022. Não por negligência, mas porque as lesões ligamentares no desporto de alta intensidade têm uma evolução frequentemente traiçoeira: os sintomas melhoram de forma aparente antes de a estrutura articular estar efetivamente recuperada.
Caso concreto — de uma "simples torção" ao bloco operatório
Considere uma situação recorrente em consultas de ortopedia e medicina desportiva em Portugal: um jogador amador de 34 anos, com dois treinos semanais num clube de bairro, torce o tornozelo numa mudança de direção em piso irregular durante um jogo. A dor é aguda nos primeiros 30 minutos — mas ao fim de 48 horas consegue andar, ainda que com dificuldade. Decide não consultar um médico, toma ibuprofeno durante 4 dias e descansa no fim de semana. Ao fim de 3 semanas, regressa ao treino.
Na segunda sessão de treino, sente uma instabilidade estranha ao mudar de direção. Na terceira, uma cedência brusca do tornozelo provoca nova torção, desta vez mais violenta.
A ressonância magnética realizada dois meses após a lesão inicial revela: rotura completa do ligamento peroneal-astragalino anterior (LPAA) e instabilidade crónica estabelecida. A indicação médica é artroscopia de reconstrução ligamentar, seguida de 4 a 6 meses de reabilitação.
Se este jogador tivesse recorrido a um especialista nas primeiras 72 horas após a lesão inicial, o diagnóstico correto de entorse grau 2 teria permitido iniciar um protocolo de fisioterapia dirigida durante 6 a 8 semanas — sem cirurgia, e com regresso ao desporto estimado entre as 8 e as 10 semanas. Em vez disso, enfrenta 4 a 6 meses de paragem pós-operatória. A diferença de custo é também considerável: um plano de fisioterapia preventiva custa tipicamente entre 150€ e 400€; uma artroscopia e a reabilitação associada em contexto privado pode ultrapassar facilmente os 3.500€.
A diferença entre os dois trajetos? Uma consulta de especialista a tempo.
O que fazer quando uma lesão não passa
Nem todas as dores musculares ou entorses ligeiras exigem ida às urgências. Mas existem sinais de alerta claros que devem motivar avaliação médica especializada com rapidez:
- Inchaço imediato e acentuado nas primeiras horas após o impacto (sinal de hemorragia articular)
- Impossibilidade de apoiar o peso corporal no membro lesionado
- Sensação de instabilidade ou de "articulação a ceder" ao caminhar
- Deformidade visível da articulação
- Dor que não melhora após 48 a 72 horas de repouso, gelo e elevação do membro
- Lesões repetidas no mesmo local — o padrão que caracterizou a carreira de Pedro Neto, com múltiplas intervenções no tornozelo e na musculatura posterior da coxa
Para lesões musculares de menor gravidade, as recomendações atuais de medicina desportiva apontam para o protocolo PEACE & LOVE, publicado no British Journal of Sports Medicine e revisto em 2023: proteção inicial da articulação, elevação do membro, compressão controlada, reintrodução gradual de carga e exercício de reabilitação progressivo sob supervisão profissional. Este protocolo deve ser implementado com base num diagnóstico clínico preciso — o que implica, sempre, uma avaliação com um profissional de saúde qualificado.
Em Portugal, as consultas de medicina desportiva, fisiatria e ortopedia estão disponíveis no Serviço Nacional de Saúde e em clínicas privadas. A Expert Zoom permite aceder a médicos especialistas em saúde e medicina desportiva de forma rápida, com disponibilidade para consultas online ou presenciais — antes de uma lesão tratável se tornar numa intervenção cirúrgica com meses de recuperação.
Aviso YMYL: este artigo tem caráter informativo geral e não substitui avaliação médica presencial. Em caso de lesão aguda com dor intensa, impossibilidade de marcha ou deformidade visível, recorra imediatamente a um serviço de urgência.

Ricardo Rodrigues