Em maio de 2026, Maria Botelho Moniz usou as redes sociais para se pronunciar sobre os comentários negativos ao seu corpo: "Estamos em 2026, chega." A apresentadora da TVI, que em janeiro deste ano estreou o programa "1.ª Companhia" com mais de 1,168 milhões de espectadores na estreia, revelou que os comentários sobre a sua aparência física chegaram a ser "as coisas mais horríveis". A sua declaração reabriu um debate que vai muito além do mundo do entretenimento: quando os comentários sobre o corpo se tornam um risco para a saúde mental?
A resposta, segundo os especialistas em psicologia, é mais cedo do que a maioria das pessoas pensa.
O Que é o Body Shaming e Por Que Afeta a Saúde Mental
Body shaming é o ato de criticar, humilhar ou ridicularizar o corpo de outra pessoa — seja por excesso ou falta de peso, forma, cicatrizes, ou qualquer outra característica física. Nas redes sociais, este comportamento ganhou uma escala sem precedentes: um único post pode gerar centenas de comentários negativos em poucas horas.
As consequências psicológicas documentadas incluem:
- Ansiedade e depressão: estudos publicados no Journal of Eating Disorders mostram que a exposição repetida a comentários negativos sobre o corpo está associada a um aumento de 37% no risco de desenvolvimento de perturbações depressivas
- Distorção da imagem corporal: a perceção do próprio corpo torna-se progressivamente desalinhada com a realidade
- Isolamento social: a pessoa começa a evitar situações onde o corpo seja visível — praias, ginásios, reuniões sociais
- Perturbações do comportamento alimentar: tanto a restrição alimentar extrema como os episódios compulsivos podem ser desencadeados por críticas externas ao corpo
Para figuras públicas como Maria Botelho Moniz, o impacto é amplificado pela visibilidade — mas o fenómeno afeta igualmente adolescentes nas escolas, adultos no local de trabalho e idosos nas famílias.
Quando Procurar Ajuda Psicológica
Esta é a questão central que muitos evitam colocar — seja por vergonha, por minimizar o problema ou por não reconhecerem os sinais. Um psicólogo pode ajudar quando existe qualquer um dos seguintes indicadores:
Sintomas emocionais persistentes
Se os comentários continuam a ocupar os seus pensamentos dias ou semanas após ocorrerem, ou se provocam tristeza, raiva ou vergonha que interferem com as atividades do dia a dia, é um sinal de que a carga emocional ultrapassou aquilo que é possível gerir sozinho.
Mudanças de comportamento
Deixar de publicar fotografias, evitar espelhos, alterar a alimentação de forma não planeada, recusar convites sociais ou isolar-se progressivamente são sinais comportamentais de que o impacto psicológico já está instalado.
Pensamentos recorrentes de autodesvalorização
Frases internas como "tenho vergonha do meu corpo", "nunca vou ser suficiente" ou "as pessoas têm razão" são indicadores de uma narrativa interna que, sem apoio, tende a agravar-se.
Adolescentes e jovens adultos
Neste grupo etário, o body shaming é particularmente perigoso. A identidade ainda está em formação e as opiniões externas têm um peso desproporcional. Qualquer mudança súbita de comportamento alimentar, afastamento social ou queda no rendimento escolar após episódios de cyberbullying deve ser levada a sério.
O Papel do Psicólogo no Tratamento do Body Shaming
A intervenção psicológica neste contexto tem resultados bem documentados. As abordagens mais utilizadas incluem:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Trabalha diretamente os pensamentos automáticos negativos desencadeados pelos comentários e ajuda o paciente a construir uma resposta mais realista e equilibrada à crítica.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
Foca-se na relação com os próprios pensamentos — ensinando a observá-los sem se identificar com eles. Especialmente útil quando os comentários vêm de pessoas próximas (família, parceiros).
Intervenção para perturbações alimentares
Se os comentários já desencadearam alterações no comportamento alimentar, é fundamental uma avaliação específica, que pode incluir colaboração com um nutricionista.
A apresentadora Cristina Ferreira foi um exemplo público anterior de como o esgotamento e a exposição pública podem acumular-se: o caso de Cristina Ferreira, que parou por esgotamento, mostrou que figuras públicas não estão imunes ao colapso — e que pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
Body Shaming no Local de Trabalho: uma Dimensão Menos Visível
Enquanto o debate público se centra nas redes sociais e nas figuras mediáticas, o body shaming nos ambientes de trabalho permanece largamente invisível. Comentários sobre o peso de uma colega durante o almoço, piadas sobre a aparência física numa reunião de equipa ou sugestões não solicitadas sobre o estilo de vida são formas de assédio que podem ter consequências legais.
Em Portugal, a lei laboral prevê proteção contra o assédio moral (artigo 29.º do Código do Trabalho), que pode incluir comentários sistematicamente humilhantes sobre a aparência física. Um psicólogo pode ajudar a documentar o impacto emocional — peça essencial em qualquer eventual processo legal.
O Que Fazer Agora
Se reconhece alguns dos sinais descritos neste artigo — em si próprio ou em alguém próximo — estes são os passos recomendados:
- Fale com alguém de confiança antes de qualquer outra coisa — nomear o problema é o primeiro passo
- Contacte o Serviço Nacional de Saúde (SNS): o seu médico de família pode fazer uma primeira avaliação e referenciá-lo para psicologia clínica
- Consulte um psicólogo — não é necessário estar em crise para beneficiar de apoio psicológico
- Para adolescentes, a escola tem psicólogos disponíveis, e os pais devem ser proativos se notarem mudanças de comportamento
Segundo a Direção-Geral da Saúde, a saúde mental é uma prioridade estratégica do sistema de saúde português. Os cuidados de saúde primária incluem acesso a psicologia clínica em muitos centros de saúde — mais acessível do que muitos pensam.
A declaração de Maria Botelho Moniz — "estamos em 2026, chega" — é um lembrete de que a tolerância ao body shaming deve ter um limite. Mas para quem já carrega esse peso, o caminho começa por reconhecer que não precisa de o carregar sozinho.
Aviso: Este artigo tem carácter informativo e não substitui avaliação clínica. Se identificar sintomas de ansiedade, depressão ou perturbação alimentar, procure um profissional de saúde mental.

Ricardo Rodrigues