Mafalda Castro Deixa a TVI: o que a saída de uma apresentadora de sucesso nos ensina sobre burnout profissional

Psicóloga em sala de consulta em Lisboa, luz suave da tarde
Ricardo Ricardo RodriguesPsicologia Clínica
4 min de leitura 29 de março de 2026

Mafalda Castro Deixa a TVI: o que a saída de uma apresentadora de sucesso nos ensina sobre burnout profissional

Mafalda Castro aparece esta tarde de 28 de março de 2026 no programa Alta Definição, da SIC, conduzido por Daniel Oliveira. A entrevista marca um momento de reflexão pública sobre a sua saída da TVI no verão de 2025 — uma decisão que surpreendeu muitos fãs e que a própria apresentadora atribui, em parte, a um défice de projetos com significado real. Mas a história de Mafalda Castro é, acima de tudo, um espelho das pressões silenciosas que afetam milhares de profissionais portugueses.

"Não havia projetos além da realidade": o sinal de alarme que muitos ignoram

Na entrevista à SIC, Mafalda Castro descreveu a sua saída da TVI como consequência de não encontrar projetos que fossem além do entretenimento de formato reality. "Falhar um dia pode ser deixar o nosso lugar à disposição", disse ela em declarações publicadas no On FM a 27 de março de 2026. A frase encapsula um dilema que psicólogos clínicos reconhecem como precursor frequente do burnout: a sensação de que o trabalho perdeu propósito.

Ao mesmo tempo, a apresentadora geria as exigências da maternidade e a doença degenerativa da mãe — diagnosticada com esclerose múltipla em 2016. Quando múltiplas fontes de stress convergem sem espaço de recuperação, o risco de esgotamento profissional aumenta de forma significativa.

O que é o burnout e por que afeta quem "parece bem"

O burnout é frequentemente mal compreendido. Não é sinónimo de cansaço temporário, nem afeta apenas pessoas em situações claramente precárias. Segundo a Organização Mundial de Saúde, que classificou oficialmente o burnout como fenómeno ocupacional na CID-11 (OMS, Classificação Internacional de Doenças), o quadro define-se por três dimensões:

  1. Exaustão ou esgotamento de energia
  2. Distanciamento mental do trabalho — sensação de que as tarefas perderam sentido
  3. Redução da eficácia profissional

A confusão surge porque o burnout tende a atingir precisamente as pessoas mais comprometidas — aquelas que trabalharam durante anos sem pausas adequadas, que assumiram responsabilidades pessoais e profissionais em simultâneo, e que raramente pediram ajuda. Mafalda Castro combinou três fatores de risco clássicos: carreira de alta visibilidade pública, cuidado de familiar doente, e maternidade recente.

Os sinais que antecedem o colapso

Os psicólogos clínicos identificam padrões precoces que, quando reconhecidos a tempo, podem evitar uma ruptura mais grave:

  • Perda de motivação para tarefas antes prazerosas: o trabalho que antes entusiasmava passa a parecer uma obrigação mecânica
  • Dificuldade em desligar: pensamentos sobre trabalho durante o tempo livre, acordar a pensar em obrigações profissionais
  • Irritabilidade aumentada: reações desproporcionadas a situações menores, tensão em relações próximas
  • Sintomas físicos sem causa médica: cefaleias frequentes, perturbações do sono, problemas digestivos — o corpo assinala o que a mente ainda não processou
  • Cinismo crescente: sentimento de que o esforço "não vale a pena", desconfiança em relação a colegas ou superiores

No caso de Mafalda Castro, o indicador mais visível foi o segundo: a realização de que o trabalho disponível não correspondia aos seus valores e objetivos profissionais. Este é um sinal subtil, mas clinicamente relevante.

O papel do psicólogo no regresso à vida profissional activa

A saída da TVI não foi um colapso — foi uma decisão consciente. Essa distinção é importante e, segundo os especialistas em psicologia do trabalho, representa o tipo de tomada de decisão que a intervenção psicológica precoce pode facilitar.

Quando um profissional chega ao consultório ainda no início do processo de esgotamento — e não em fase de crise — o trabalho terapêutico foca-se em:

  • Identificar limites funcionais: distinguir o que é exigência legítima do que é sobrecarga evitável
  • Reconstruir a hierarquia de valores: o que é, de facto, inegociável na vida pessoal e profissional?
  • Desenvolver competências de regulação emocional: técnicas de gestão do stress, comunicação assertiva, capacidade de dizer não sem culpa
  • Preparar transições profissionais: mudanças de emprego ou de área feitas sem suporte psicológico têm maior risco de reproduzir os mesmos padrões noutro contexto

A psicóloga e investigadora portuguesa Anita Santos, especializada em bem-estar no trabalho, sublinha num artigo publicado na revista Psicologia, Saúde & Doenças que "a prevenção terciária do burnout — quando o profissional já manifesta sintomas mas ainda não colapsou — é a janela de intervenção mais eficaz e com melhor prognóstico".

Quando pedir ajuda: o momento certo é antes de "precisar mesmo"

Uma das barreiras mais comuns à consulta psicológica em Portugal é a ideia de que só se vai ao psicólogo "quando a situação é grave". Dados do Relatório do Estado da Saúde em Portugal publicados pela Direção-Geral da Saúde (dgs.pt) indicam que a saúde mental permanece uma das áreas com maior lacuna entre necessidade e acesso a cuidados.

O caso de Mafalda Castro, pela sua visibilidade, pode contribuir para normalizar uma conversa que muitos profissionais portugueses evitam. Reconhecer que "estou bem, mas podia estar melhor" é suficiente para iniciar um processo terapêutico. Não é preciso estar em colapso.

Se se reconhece em algum dos sinais descritos — desmotivação prolongada, dificuldade em desligar, sensação de que o trabalho perdeu sentido — um psicólogo clínico pode ajudá-lo a recuperar o equilíbrio antes que o esgotamento se instale definitivamente.

Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.

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