O FC Porto colocou Lucas Stassin no topo da sua lista de prioridades para a próxima janela de transferências, segundo informações avançadas em junho de 2026 pelo jornal belga Nieuwsblad e replicadas pelo portal Peuple-Vert. O avançado de 21 anos, formado no Anderlecht e atualmente ao serviço do Saint-Étienne — clube despromovado à Ligue 2 —, pode mudar-se para o Dragão por um valor estimado em cerca de 20 milhões de euros. Para Stassin, uma transferência desta dimensão representa muito mais do que um salto desportivo: é um momento decisivo na gestão de um património que, se mal administrado nos primeiros anos, pode comprometer toda a vida pós-carreira.
O que está em jogo desportiva e financeiramente
Stassin, internacional belga jovem, terminou a época no Saint-Étienne com 12 golos em 33 jogos de Ligue 1, segundo dados do ESPN. A despromoção do clube à Ligue 2 ativou cláusulas contratuais que abriram a porta à saída — uma situação que os agentes do jogador querem capitalizar antes da convocatória final para o Mundial 2026. Yahoo Sports confirmou que o jogador comunicou ao clube a intenção de partir, enquanto o Get French Football News indicou que o Saint-Étienne tentou prolongar o contrato sem sucesso.
Os números avançados pela imprensa belga apontam para um pacote que combina cerca de 4 milhões de euros líquidos anuais de salário, prémios de assinatura na ordem dos 2 a 3 milhões e direitos de imagem geridos por uma sociedade autónoma. Para um jovem profissional de 21 anos, gerir este volume exige planeamento patrimonial estruturado desde o primeiro dia.
A leitura do consultor financeiro: erros típicos a evitar
Um gestor de património com experiência em clientes desportivos identifica três armadilhas que afetam mais de metade dos futebolistas jovens que recebem contratos plurianuais milionários. A primeira é a sobre-exposição ao consumo de luxo nos primeiros 18 meses — carros, imobiliário em zonas premium, relógios — sem qualquer reserva de liquidez. Segundo um estudo de 2018 da Federação Internacional de Futebolistas Profissionais, citado pela FIFPRO, cerca de 40% dos jogadores profissionais enfrentam dificuldades financeiras nos cinco anos seguintes ao fim da carreira.
A segunda armadilha é a confiança excessiva em pessoas próximas. Empréstimos a familiares, investimentos em negócios de amigos e participações em sociedades opacas são responsáveis por uma fatia significativa das perdas patrimoniais documentadas em casos públicos. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, no seu portal do investidor, alerta para a importância de exigir prospetos, balanços auditados e relatórios de gestão antes de qualquer aplicação financeira não regulada.
A terceira é a falta de diversificação. Aplicações concentradas em imobiliário num único país — frequente entre futebolistas estrangeiros que compram propriedades na cidade do clube — expõem o jogador a riscos cambiais, fiscais e de mercado. A diversificação geográfica e por classe de ativos é a regra básica defendida por qualquer consultor independente.
O regime fiscal: residência, IRS e o "non-habitual"
Caso Stassin venha para Portugal, terá de tomar decisões fiscais nas primeiras semanas. O Regime do Residente Não Habitual, em vigor desde 2009, foi parcialmente revisto em 2024 e mantém vantagens para profissionais qualificados, mas com âmbito mais restrito. Para futebolistas profissionais, aplicam-se ainda regras específicas previstas no Código do IRS sobre rendimentos do trabalho dependente e direitos de imagem.
A estrutura recomendada por consultores especializados envolve, tipicamente, a separação entre o contrato desportivo (rendimento do trabalho) e a cedência dos direitos de imagem (que pode ser canalizada por sociedade comercial, com regime fiscal próprio). A omissão deste planeamento nos primeiros meses obriga, mais tarde, a regularizações junto da Autoridade Tributária que podem implicar juros e coimas.
Investir o prémio de assinatura: regras de prudência
Para o prémio de assinatura — um montante único e tributado integralmente no ano de receção —, os gestores patrimoniais recomendam três passos. Primeiro, constituir um fundo de emergência equivalente a 24 meses de despesas correntes, idealmente em depósito a prazo ou contas remuneradas com baixa volatilidade. Segundo, alocar parte do remanescente a ativos defensivos: obrigações soberanas de longo prazo, fundos diversificados de baixo risco. Terceiro, reservar uma fatia minoritária — nunca superior a 20% — para ativos de maior risco e potencial retorno: ações cotadas, fundos imobiliários ou participações empresariais devidamente analisadas.
O recurso a consultoria patrimonial certificada permite ainda evitar conflitos de interesses comuns entre agentes desportivos e bancos privados: muitos contratos de gestão incluem comissões ocultas, taxas de carregamento elevadas em produtos estruturados ou produtos com baixa liquidez que tornam difícil reagir a imprevistos.
Planeamento da pós-carreira: investir no que dura
Uma carreira média na primeira divisão termina aos 33 ou 34 anos. Para um jogador que assine pelo Porto aos 21, isso significa cerca de 12 anos de pico de rendimentos seguidos de 40 ou 50 anos sem essa fonte de receita. O planeamento da pós-carreira começa no primeiro ano do contrato — não no último. Investimentos em formação académica complementar, participações em projetos empresariais ligados à área de interesse do jogador e seguros de vida com componente de capitalização são opções habituais para construir rendimentos passivos sustentáveis.
A entrada de um jogador como Stassin num campeonato como o português, com elevada projeção internacional, atrai atenção mediática mas também ofertas comerciais e propostas de investimento de qualidade muito desigual. Trabalhar desde o primeiro dia com um consultor independente, sem ligação ao agente ou ao clube, é a forma mais segura de transformar 20 milhões de euros em segurança patrimonial vitalícia — e não em mais uma estatística do estudo da FIFPRO.

Beatriz Martins