Liga Saudita: o que a medicina desportiva diz sobre jogar com temperaturas de 45°C

Médico desportivo examinando jogador de futebol exausto após treino em calor extremo na Arábia Saudita
4 min de leitura 12 de maio de 2026

A temporada 2025/2026 da Saudi Pro League chegou ao fim com a última jornada disputada a 11 de maio de 2026. Ao longo de toda a época, as equipas — que incluem jogadores europeus de topo como Cristiano Ronaldo, Neymar e Karim Benzema — defrontaram-se num contexto que nenhuma outra liga europeia conhece: temperaturas que podem ultrapassar os 45°C durante os meses de verão e uma humidade sufocante em certas regiões do país.

O fascínio pela Liga Saudita tem crescido entre os adeptos portugueses. Mas o que raramente se discute é o impacto físico e médico que estas condições climáticas extremas têm sobre os atletas — e o que os especialistas de saúde recomendam para qualquer pessoa que pratique desporto ou trabalhe em condições de calor intenso.

O calor como adversário invisível

A Arábia Saudita tem um dos climas mais extremos do mundo. Em Riade — cidade onde joga o Al-Nassr de Ronaldo — as temperaturas em junho, julho e agosto frequentemente ultrapassam os 45°C. É precisamente por isso que a Saudi Pro League organiza a sua época de forma diferente das ligas europeias, com pausas estratégicas nos meses mais quentes e jogos a horas da noite para minimizar a exposição solar.

Mas mesmo com estas medidas, os atletas e as equipas de suporte médico têm de lidar diariamente com os efeitos fisiológicos do calor intenso. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o calor extremo é uma das maiores ameaças climáticas para a saúde humana, com impacto crescente em populações expostas a altas temperaturas.

O que acontece ao corpo com calor extremo

Quando a temperatura ambiente é muito elevada, o organismo humano recorre à sudorese para arrefecer. Em condições normais, este sistema é eficaz. Mas em situações de calor extremo e esforço físico prolongado — exatamente o que os futebolistas profissionais vivem — o sistema de termorregulação pode ser sobrecarregado, dando origem a complicações sérias:

Desidratação severa: Um atleta pode perder entre 1,5 e 2,5 litros de suor por hora de esforço em condições de calor intenso. Sem reposição adequada, a desidratação provoca cãibras musculares, descida de pressão arterial e queda abrupta de desempenho.

Exaustão pelo calor: Os sintomas incluem fraqueza intensa, náuseas, tonturas, dor de cabeça persistente e pele pálida e húmida. É uma condição séria que requer paragem imediata do esforço e arrefecimento do corpo.

Golpe de calor: A forma mais grave e potencialmente fatal. A temperatura corporal sobe acima de 40°C, o sistema nervoso central entra em colapso, e o atleta pode apresentar confusão mental, convulsões e perda de consciência. É uma emergência médica que exige intervenção hospitalar urgente.

Os jogadores profissionais têm suporte médico constante

As equipas da Saudi Pro League contam com médicos desportivos, fisioterapeutas e equipas de suporte em campo. Durante os jogos, são utilizados protocolos específicos: substituições preventivas quando um atleta apresenta sinais precoces de sobreaquecimento, acesso a bebidas de reposição isotónica e zonas de arrefecimento rápido.

Para jogadores como os europeus — que cresceram em climas mais temperados — a adaptação fisiológica ao calor pode demorar várias semanas. Estudos publicados em medicina desportiva indicam que o processo completo de aclimatação pode levar de 10 a 14 dias de exposição progressiva, durante os quais o risco de complicações é maior.

O que isto significa para quem pratica desporto em Portugal

O verão português está a tornar-se cada vez mais quente. Nos últimos anos, Portugal tem registado ondas de calor com temperaturas superiores a 40°C em várias regiões do interior. Os adeptos de desportos ao ar livre — futebol amador, ciclismo, corrida, padel — enfrentam riscos semelhantes, ainda que de menor intensidade, aos dos profissionais na Arábia Saudita.

As recomendações dos médicos para praticar desporto em dias quentes:

  • Evitar exercício intenso entre as 11h00 e as 17h00, quando a temperatura é máxima
  • Beber água regularmente antes, durante e após o esforço — sem esperar ter sede
  • Usar roupas leves, claras e respiráveis, com proteção solar de fator 50 ou superior
  • Monitorizar a cor da urina: urina escura indica desidratação significativa
  • Parar imediatamente se sentir tonturas, náuseas, dores de cabeça intensas ou confusão
  • Nunca praticar exercício sozinho em condições de calor extremo

Quando consultar um médico após exposição ao calor

Se após uma sessão de exercício em dia quente sentir sintomas persistentes — fraqueza, batimento cardíaco acelerado, dor de cabeça que não cede, ou alterações do comportamento habitual — não ignore. Estes sinais podem indicar exaustão pelo calor ou o início de um golpe de calor.

Um médico especialista em medicina desportiva ou medicina geral e familiar pode avaliar o seu estado de saúde, recomendar hidratação intravenosa quando necessário e orientar sobre como retomar a atividade física de forma segura.

A Liga Saudita trouxe os melhores jogadores do mundo para um dos ambientes mais exigentes do planeta. A ciência médica não para de aprender com estes laboratórios de extremos. Mas as lições que os médicos retiram destas experiências — sobre hidratação, aclimatação e reconhecimento dos sinais de alarme — valem para qualquer pessoa que gosta de estar ativa no verão.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Em situações de emergência, ligue 112.

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