A partir de 10 de abril de 2026, o Lidl Portugal deu um passo inovador na operacionalização do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), mais conhecido como Sistema Volta: passou a oferecer em todas as suas lojas nacionais a funcionalidade "Os meus depósitos" na aplicação Lidl Plus, permitindo que os consumidores gerem os seus reembolsos de forma 100% digital. É uma mudança que poucos notaram — mas que tem implicações práticas e legais que valem a pena conhecer antes da próxima ida ao supermercado.
O que é o Sistema Volta e como funciona no Lidl
O Sistema Volta é o sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas que entrou em vigor em Portugal em 2023. A ideia é simples: quando compra uma garrafa de plástico ou lata de bebida, paga um depósito — geralmente entre 0,15€ e 0,25€. Ao devolver a embalagem vazia num ponto de recolha (normalmente uma máquina de retorno presente nos supermercados), recupera esse valor.
O Lidl Portugal foi mais longe: além das máquinas físicas de retorno, passou a disponibilizar o reembolso digital através da sua app. Em vez de receber um talão em papel ou um crédito automático na loja, o consumidor pode consultar e gerir o valor acumulado diretamente no telemóvel, com maior controlo e flexibilidade.
Segundo dados da própria cadeia, o Lidl Portugal realizou mais de 1 milhão de carregamentos de veículos elétricos em 2025 e representa 12,5% de toda a atividade de carregamento elétrico no país — sinais de uma empresa que aposta na digitalização como proposta de valor para o consumidor português.
Os seus direitos no Sistema Volta: o que muitos consumidores ainda não sabem
A adesão ao Sistema Volta trouxe obrigações para os retalhistas — e direitos claros para os consumidores. No entanto, muitos portugueses ainda desconhecem o que podem exigir quando algo corre mal.
De acordo com o Decreto-Lei n.º 18/2023, que estabelece o regime jurídico do Sistema de Depósito e Reembolso em Portugal, os consumidores têm direito a:
- Receber o valor do depósito sempre que devolvam uma embalagem elegível num ponto de recolha ativo
- Rejeitar embalagens danificadas ou sem código de barras — mas o retalhista não pode recusar embalagens em bom estado que se enquadrem no sistema
- Exigir o reembolso em numerário ou equivalente — o crédito na app é uma comodidade, não uma substituição obrigatória ao reembolso em dinheiro ou talão
- Reclamar junto da ASAE ou da Entidade Gestora do SDR caso um ponto de recolha recuse injustificadamente aceitar as suas embalagens
O que acontece quando a máquina de retorno está avariada ou a loja não aceita as suas embalagens? Nesse caso, o consumidor tem direito a apresentar reclamação formal junto da entidade responsável pela gestão do sistema, com direito a reembolso retroativo.
Lidl digital: o que muda na relação consumidor-retalhista
A digitalização do processo de reembolso traz vantagens evidentes — mas também cria novos pontos de conflito potencial entre consumidores e retalhistas.
Questões práticas que estão já a surgir:
Expiração do crédito digital: O valor acumulado na app tem prazo de validade? Em que condições pode ser perdido? A resposta deve constar nos termos e condições da app, mas muitos consumidores não os leram — e desconhecem os seus direitos em caso de expiração indevida.
Encerramento de conta na app: Se um consumidor eliminar a conta Lidl Plus com saldo pendente de reembolso, tem direito a receber esse valor? Em princípio, sim — o saldo de depósito é um direito do consumidor, não uma oferta comercial revogável.
Discrepância entre embalagens entregues e valor creditado: As máquinas de retorno podem falhar na leitura de algumas embalagens. O consumidor tem direito a contestar o valor creditado com base nas embalagens efetivamente entregues.
Utilização dos dados pelo retalhista: A digitalização do processo implica que o retalhista recolhe dados sobre os hábitos de consumo. Que dados são recolhidos? Por quanto tempo? Para que fins? São questões relevantes ao abrigo do RGPD.
Quando a situação foge ao controlo: o papel do advogado
A maioria dos problemas com o Sistema Volta resolve-se rapidamente através da linha de apoio ao consumidor ou da ASAE. Mas há situações em que um advogado especializado em direito do consumidor pode fazer a diferença:
- Litígios com valor superior a 5.000€ — pouco provável no contexto do Sistema Volta individual, mas relevante para empresas ou associações de consumidores
- Recusa sistemática de reembolso por parte de um retalhista, que configure prática comercial desleal
- Violação de dados pessoais associada ao uso da app, ao abrigo do RGPD
- Conflitos coletivos entre associações de consumidores e operadores do SDR
O Lidl Portugal tem demonstrado um compromisso real com a inovação e a sustentabilidade. Mas mesmo as melhores intenções empresariais não substituem o conhecimento dos seus direitos como consumidor.
O que fazer se tiver um problema com o Sistema Volta
Se sentiu que os seus direitos foram desrespeitados numa situação relacionada com o Sistema Volta — seja no Lidl, no Pingo Doce, no Continente ou em qualquer outro retalhista aderente —, eis os passos recomendados:
- Registe a reclamação no Livro de Reclamações da loja (físico ou online em livroreclamacoes.pt)
- Guarde o talão de entrega das embalagens ou o comprovativo digital como prova
- Contacte a Entidade Gestora do SDR com o registo da sua reclamação
- Consulte um advogado se o problema envolver valores significativos ou uma prática sistemática por parte do retalhista
Na ExpertZoom, encontra advogados especializados em direito do consumidor disponíveis para uma consulta rápida e acessível. Conhecer os seus direitos é o primeiro passo para os exercer.

Sofia Costa