A 1 de maio, o mundo assinala o Dia Internacional do Trabalhador — e em 2026, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) dedicou o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho precisamente ao tema da proteção da saúde dos trabalhadores. Os números em Portugal são alarmantes: 482 500 pessoas com idades entre os 15 e os 74 anos reportaram ter um problema de saúde causado ou agravado pelo trabalho, representando 6,9% da população empregada, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Neste Labour Day, a pergunta que importa não é apenas se tem direito a descansar — mas se o seu trabalho está a prejudicar a sua saúde sem que saiba.
Os números que Portugal não pode ignorar
Entre 2020 e 2023, foram certificadas em Portugal 68 328 doenças profissionais com incapacidade. No mesmo período (2021-2025), a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) registou 748 acidentes de trabalho mortais e 3 481 acidentes graves.
As mulheres são desproporcionalmente afetadas: 7,8% das trabalhadoras reportam problemas de saúde relacionados com o trabalho, face a 5,9% dos homens. Esta diferença reflete a concentração feminina em sectores como a saúde, serviços de limpeza, comércio e indústria transformadora, onde a exposição a fatores de risco físico e psicossocial é elevada.
A lesão mais prevalente? As lesões músculo-esqueléticas (LME) — incluindo patologias como o síndrome do túnel cárpico, tendinites, lombalgias e cervicalgias. Segundo a Direção-Geral da Saúde, as LME constituem o tipo de distúrbio de saúde mais preocupante nos trabalhadores portugueses, pela sua frequência e pelo elevado nível de absentismo e incapacidade que provocam.
As doenças profissionais mais comuns em Portugal
As patologias com maior prevalência na população trabalhadora portuguesa incluem:
Lesões músculo-esqueléticas: afetam especialmente profissionais que realizam movimentos repetitivos, posturas estáticas prolongadas ou trabalho manual intenso — como operários de linha de montagem, cabeleireiros, enfermeiros e trabalhadores de escritório.
Perturbações auditivas: a surdez profissional continua a ser uma das doenças mais reconhecidas em Portugal, sobretudo em indústrias como a metalurgia, construção e manufactura.
Doenças dermatológicas de contacto: frequentes em profissionais da saúde, cozinha, limpeza e construção, provocadas pela exposição prolongada a químicos, látex ou agentes biológicos.
Perturbações psicossociais: o burnout e as perturbações de ansiedade e depressão relacionadas com o trabalho têm vindo a aumentar. Embora não sejam ainda reconhecidas como doenças profissionais no quadro legal português, a sua relação com as condições de trabalho é cada vez mais documentada.
Quando uma queixa de saúde pode ser uma doença profissional?
Muitos trabalhadores convivem durante anos com dores crónicas, problemas respiratórios ou perturbações do sono sem relacionar esses sintomas com a sua atividade profissional. Alguns sinais de alerta que justificam uma avaliação médica incluem:
- Dores persistentes no punho, ombro, pescoço ou lombar que pioram ao longo da semana de trabalho
- Perda gradual de audição após anos de exposição a ruído elevado
- Sintomas alérgicos (pele, olhos, vias respiratórias) que desaparecem nas férias e regressam ao início do trabalho
- Fadiga crónica, irritabilidade ou insónia associadas ao ambiente laboral
Se reconhece algum destes padrões, a consulta de um médico de medicina do trabalho ou médico de saúde ocupacional é o primeiro passo. O diagnóstico e reconhecimento formal de uma doença profissional garante ao trabalhador direitos específicos, incluindo o acesso a tratamento por conta da entidade empregadora e a possibilidade de indemnização.
O que mudou em 2026: novos riscos emergentes
O mundo do trabalho em 2026 introduziu novos vetores de risco. O teletrabalho, alargado de forma permanente em muitas empresas, trouxe consigo o aumento das queixas músculo-esqueléticas associadas a postos de trabalho domésticos inadequados — cadeiras sem regulação ergonómica, monitores abaixo do nível dos olhos, ausência de pausas regulares.
Ao mesmo tempo, a pressão da economia de plataformas sobre os trabalhadores independentes (estafetas, motoristas, freelancers) criou um grupo significativo sem acesso aos mecanismos tradicionais de proteção da saúde ocupacional — porque não têm vínculo laboral formal e não estão abrangidos pelos serviços de medicina do trabalho da entidade empregadora.
Estes trabalhadores são especialmente vulneráveis: sem seguro de acidentes de trabalho adequado, sem médico de empresa e sem acesso fácil à informação sobre os seus direitos em caso de doença relacionada com a atividade.
O papel do médico e do advogado na proteção do trabalhador
O reconhecimento de uma doença profissional em Portugal implica um processo formal junto da Segurança Social e da ACT. Este processo requer:
- Relatório médico documentando o diagnóstico e a relação com a atividade profissional
- Histórico laboral que comprove a exposição ao fator de risco
- Avaliação pericial por juntas médicas para certificação da incapacidade
Sem acompanhamento especializado, muitos trabalhadores desistem a meio do processo ou aceitam indemnizações aquém do seu direito. Consultar um médico especialista em saúde ocupacional e, em paralelo, um advogado especializado em direito do trabalho pode fazer a diferença entre uma reparação justa e anos de prejuízo silencioso.
Neste Labour Day, faça um diagnóstico da sua saúde profissional
A 1 de maio não é apenas um dia de descanso — é uma oportunidade para refletir sobre o impacto que o trabalho tem na sua saúde. Se tem sintomas persistentes que associa ao seu ambiente de trabalho, não espere que piorem. Na Expert Zoom, pode consultar médicos especializados em saúde ocupacional e advogados do trabalho disponíveis para o orientar sobre os seus direitos — de forma rápida e sem compromisso.
A sua saúde é, também, um direito laboral.
Nota: Este artigo tem fins informativos. Para um diagnóstico e avaliação personalizados, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.
