Fernanda Serrano e a maternidade tardia: quando deve consultar um especialista em fertilidade

Mulher portuguesa em consulta de ginecologia com médica especialista em fertilidade
4 min de leitura 8 de junho de 2026

Fernanda Serrano, uma das atrizes mais reconhecidas da televisão portuguesa, voltou a colocar em debate um tema que afeta milhares de mulheres em Portugal: a fertilidade e a maternidade tardia. Em novembro de 2024, a intérprete de 49 anos confessou publicamente que sentia "muita pena de deixar de poder gerar novas vidas", numa reflexão sincera sobre a maternidade e as escolhas feitas ao longo da vida. A declaração, proferida numa altura em que a sua filha mais nova, Caetana, completa oito anos, reabriu a discussão sobre os desafios reprodutivos das mulheres após os 35 anos e a importância de um acompanhamento ginecológico preventivo.

A confissão de Fernanda Serrano sobre a maternidade

Mãe de quatro filhos — Santiago, de 19 anos, Laura, de quase 17, Maria Luísa, de 14, e Caetana, de oito — frutos do casamento terminado com o empresário José Castelo Branco, Fernanda Serrano sempre assumiu a maternidade como uma das facetas centrais da sua identidade. No entanto, a aproximação dos 50 anos trouxe-lhe uma nova perspetiva sobre o corpo e os limites biológicos da reprodução. "Tenho muita pena de deixar de poder gerar novas vidas", afirmou a atriz, numa entrevista que ressoou junto de mulheres que enfrentam pressões similares.

A frase, aparentemente simples, encapsula um dilema contemporâneo: em Portugal, a idade média da primeira maternidade subiu para 30,5 anos, uma das mais elevadas da União Europeia. Cada vez mais mulheres adiam a maternidade por razões profissionais, económicas ou pessoais, muitas vezes sem consciência plena do declínio acentuado da reserva ovariana após os 35 anos. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024 cerca de 22% dos nascimentos em Portugal foram de mães com 35 anos ou mais, um aumento significativo face às décadas anteriores.

A realidade biológica da fertilidade feminina

A fertilidade feminina atinge o seu pico entre os 20 e os 24 anos, começando a diminuir de forma gradual a partir dos 30. Após os 35, o declínio acelera consideravelmente: a probabilidade de conceção natural por mês cai de 20% para cerca de 5%. Aos 40 anos, apenas 5% das mulheres conseguem engravidar espontaneamente em cada ciclo, e aos 45 a taxa de fertilidade natural aproxima-se de 1%.

Este fenómeno biológico deve-se à diminuição quantitativa e qualitativa dos ovócitos. Uma mulher nasce com cerca de um a dois milhões de folículos ovarianos, número que se reduz para aproximadamente 300 mil na puberdade. Aos 37 anos, a reserva ovariana média situa-se já abaixo dos 25 mil folículos, e a meiose — o processo de divisão celular que produz os gametas femininos — torna-se menos eficiente, aumentando o risco de aneuploidias (alterações cromossómicas).

A Direção-Geral da Saúde alerta que a idade materna avançada está associada a um maior risco de complicações obstétricas, incluindo diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, parto pré-termo e necessidade de cesariana. Os riscos genéticos também aumentam: a probabilidade de síndrome de Down sobe de 1 em 1.250 nascimentos aos 25 anos para 1 em 100 aos 40.

Quando deve marcar uma consulta de fertilidade

Os especialistas em medicina reprodutiva recomendam que as mulheres que pretendem engravidar e têm mais de 35 anos procurem uma avaliação ginecológica especializada se não conseguirem conceção após seis meses de relações sexuais regulares sem contraceção. Aos 40 anos, esse prazo reduz-se para três meses. A avaliação inicial inclui normalmente análises hormonais (FSH, LH, estradiol, AMH — hormona anti-mulleriana), ecografia transvaginal para contagem de folículos antrais e, quando indicado, histerossalpingografia para avaliar a permeabilidade das trompas.

Em Portugal, o acesso às técnicas de reprodução medicamente assistida está regulamentado pela Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, e o Serviço Nacional de Saúde subsidia até três ciclos de inseminação artificial e três ciclos de fertilização in vitro para casais com idade inferior a 40 anos da mulher. Acima desta idade, o acesso permanece possível em regime privado, embora com taxas de sucesso proporcionalmente menores: cerca de 15% por ciclo de FIV aos 40-42 anos, contra 30-35% abaixo dos 35.

A preservação da fertilidade através de criopreservação de ovócitos tornou-se uma opção crescentemente procurada por mulheres que desejam adiar a maternidade. Em centros de medicina reprodutiva em Lisboa e no Porto, a vitrificação de ovócitos é realizada com taxas de sobrevivência pós-descongelação superiores a 90%, embora o sucesso global dependa da idade da mulher no momento da colheita.

A pressão social e o papel do apoio psicológico

Além dos fatores biológicos, a maternidade tardia carrega uma carga emocional significativa. Mulheres como Fernanda Serrano, que constroem carreiras exigentes na indústria do entretenimento, frequentemente deparam-se com escolhas difíceis entre projetos profissionais e projetos familiares. A indecisão, o arrependimento e a pressão social são sentimentos comuns que merecem atenção.

A consulta de fertilidade não deve limitar-se à dimensão médica. Os centros de reprodução assistida em Portugal incluem cada vez mais psicólogos nas suas equipas multidisciplinares, reconhecendo que o stress, a ansiedade e os conflitos de casal podem influenciar negativamente os resultados do tratamento. A decisão de ter — ou não ter — filhos, bem como a aceitação dos limites biológicos, é um processo que beneficia de apoio especializado.

Aviso médico: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui o aconselhamento médico profissional. Em questões relacionadas com fertilidade, planeamento familiar ou saúde reprodutiva, consulte sempre o seu médico de família ou um ginecologista especialista.

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