A esperança de vida à nascença em Portugal subiu para 81,75 anos no triénio 2023-2025, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) a 28 de maio de 2026. O aumento de 3,1 meses para os homens e 3,0 meses para as mulheres recoloca Portugal acima dos valores pré-pandemia pela primeira vez em cinco anos. Para um médico de medicina preventiva, este número não é apenas estatístico — é a confirmação de que a década dos 60 aos 70 anos passou a ser a janela mais decisiva para chegar bem aos 80.
Os números essenciais do INE 2026
Os dados do INE são claros e mensuráveis:
- Esperança de vida à nascença: 81,75 anos (total), 78,99 anos (homens), 84,21 anos (mulheres)
- Esperança de vida aos 65 anos: mais 20,19 anos para o conjunto da população
- Variação face ao triénio 2022-2024: +3,1 meses para homens, +3,0 meses para mulheres
- Variação na última década: +1,56 anos para homens, +0,98 anos para mulheres
O INE atribui esta evolução, "sobretudo, à redução na mortalidade em idades iguais ou superiores a 60 anos". Por outras palavras: o ganho de vida vem de quem chega aos 60 e consegue evitar o enfarte, o AVC ou o cancro avançado durante a década seguinte. As decisões clínicas tomadas entre os 50 e os 65 anos determinam a probabilidade de chegar aos 80 com qualidade.
Por que viver mais não é igual a viver melhor
O número de 20,19 anos pós-65 esconde uma realidade desconfortável. Em Portugal, os anos de vida saudável após os 65 anos são significativamente menores. Segundo dados publicados pelo Eurostat e referidos por estudos do INE, os portugueses passam parte significativa dessa fase com pelo menos uma doença crónica — hipertensão, diabetes, doença cardiovascular ou cancro.
A questão clínica deslocou-se. Já não é apenas "como prevenir uma morte precoce" — é "como prevenir os 10 anos de dependência que podem vir depois dos 75". E aqui entra em cena o calendário de rastreios.
Os 5 rastreios que ganham peso depois dos 50
Um médico de medicina preventiva moderno trabalha com um calendário individualizado, mas existem pilares que se aplicam à maioria da população portuguesa adulta:
- Rastreio do cancro colorretal (50-74 anos): pesquisa de sangue oculto nas fezes a cada dois anos. O Programa Nacional de Rastreio Oncológico cobre esta faixa etária através dos cuidados de saúde primários. O ganho de esperança de vida, se feito com regularidade, ronda os 6 anos quando há deteção precoce.
- Rastreio do cancro da mama (50-69 anos): mamografia a cada dois anos. Cobertura universal pela Liga Portuguesa Contra o Cancro em articulação com o SNS.
- Rastreio do cancro do colo do útero (25-60 anos): citologia e teste HPV. Recentemente alargado para incluir mulheres até aos 64 anos em algumas regiões.
- Avaliação cardiovascular SCORE2 (40-69 anos): cálculo de risco a 10 anos com base em pressão arterial, colesterol não-HDL, idade, sexo e tabagismo. Permite decidir se há indicação para estatinas em prevenção primária.
- Avaliação cognitiva e do estado funcional (a partir dos 65 anos): rastreio de declínio cognitivo ligeiro, despiste de sarcopenia e avaliação do risco de queda.
Os dados sobre os programas nacionais de rastreio estão consolidados pela Direção-Geral da Saúde em dgs.gov.pt, com indicadores anuais de cobertura e adesão por região.
A diferença regional que a esperança de vida esconde
O INE não publica apenas valores nacionais. Na decomposição regional, surge uma diferença que merece atenção clínica: o Algarve apresenta os indicadores mais saudáveis de Portugal, enquanto regiões do interior centro e norte apresentam mortalidade prematura mais elevada. A diferença entre concelhos pode ultrapassar três anos de esperança de vida — uma magnitude clinicamente significativa.
Para o paciente individual, isto significa que viver no Algarve não confere proteção biológica — confere apenas acesso facilitado a estilos de vida mais saudáveis: temperatura amena, exposição solar adequada, dieta mediterrânica disponível e atividade física ao ar livre durante todo o ano. Estes são fatores replicáveis em qualquer região, desde que conscientemente trabalhados.
O que considerar antes de fazer 60 anos
Para quem está nos seus 50, três pontos clínicos a considerar com base nos dados de 2026:
- Negociar com o seu médico de família um plano individualizado de rastreio: o calendário oficial é a base, mas histórico familiar de cancro colorretal, mama ou próstata pode justificar antecipação. A consulta de medicina preventiva integra estes dados.
- Pedir avaliação cardiovascular pelo modelo SCORE2 actualizado: a evidência publicada na revista da Sociedade Europeia de Cardiologia em 2024 reposicionou os limiares de prescrição de estatinas. Pacientes que não eram candidatos há cinco anos podem sê-lo hoje.
- Avaliar a função muscular antes dos 65 anos: sarcopenia precoce é o preditor mais forte de dependência funcional entre os 75 e os 85 anos. Treino de força supervisionado, mesmo duas vezes por semana, reduz a probabilidade em 30% segundo meta-análises recentes.
Os 3,1 meses extra anunciados pelo INE não chegam sozinhos. São o resultado agregado de decisões individuais tomadas aos 50, 60 e 70 anos. Para garantir que esses meses são vividos com qualidade, uma consulta com um médico de medicina preventiva permite construir um plano clínico personalizado em vez de seguir guidelines genéricas. No marketplace Expert Zoom encontra médicos especialistas em medicina preventiva e geriatria com agenda em todo o país.

Ricardo Rodrigues