Erik ten Hag no FC Twente: o que o futebol ensina sobre contratos de trabalho e despedimentos

Jogo de futebol profissional no estádio Old Trafford, Manchester United 2022

Photo : Ardfern / Wikimedia

Sofia Sofia CostaJurídico
4 min de leitura 2 de maio de 2026

Erik ten Hag foi apresentado como Diretor Técnico do FC Twente a 6 de janeiro de 2026, encerrando um período turbulento que incluiu a demissão do Manchester United em outubro de 2024 e a saída do Bayer Leverkusen em setembro de 2025 — apenas três jogos competitivos depois de ter chegado à Bundesliga. O contrato com o Twente, válido até 2028, marca uma mudança de paradigma: do banco de suplentes para a cadeira de gestão. A trajetória de ten Hag é um caso de estudo sobre os riscos e as proteções dos contratos de trabalho no futebol profissional — e sobre o que qualquer gestor ou trabalhador de alta performance pode aprender com ela.

Demitido duas vezes em 15 meses: o que dizem os contratos

Quando o Manchester United despediu Erik ten Hag em outubro de 2024, o técnico holandês tinha o seu contrato recentemente renovado até junho de 2026. A rescisão antecipada teve um custo estimado entre 10 e 15 milhões de euros em compensações — valores que ilustram a importância das cláusulas de rescisão nos contratos de gestão desportiva de topo.

No Bayer Leverkusen, a história repetiu-se de forma ainda mais dramática: demitido após apenas dois jogos da Bundesliga e três partidas competitivas, em setembro de 2025. O clube contratou ten Hag para substituir Xabi Alonso (que saiu para o Real Madrid), mas a relação durou menos de um mês.

O que estes dois episódios têm em comum? Ambos revelam que, no futebol profissional, os contratos raramente garantem estabilidade real — mas garantem compensação financeira quando a relação é cortada pelo empregador.

Como funcionam os contratos de treinadores no futebol profissional

Em Portugal, os contratos de trabalho desportivo são regulados pela Lei n.º 54/2017 (Lei do Contrato de Trabalho Desportivo) e pela Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto. O Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) é a autoridade pública responsável pela política desportiva nacional, incluindo o enquadramento legal das relações de trabalho no desporto profissional.

Os elementos essenciais de um contrato de treinador profissional em Portugal incluem:

Cláusula de rescisão unilateral pelo clube: define o valor a pagar ao treinador se o clube decidir terminar o contrato antes do prazo. Em Portugal, esta cláusula é obrigatória nos contratos de trabalho desportivo (artigo 30.º da Lei n.º 54/2017). O valor é tipicamente entre 6 e 18 meses de salário, dependendo do tempo restante no contrato.

Objetivos e avaliação de desempenho: ao contrário de outros setores, os contratos desportivos frequentemente incluem objetivos mensuráveis (classificação, acesso a competições europeias) que condicionam renovações e bónus. A sua ausência pode criar litígios sobre o que constitui "justa causa" para demissão.

Direitos de imagem e merchandising: treinadores de alto perfil incluem cláusulas que os protegem comercialmente — uso do nome, imagem e declarações pela instituição.

Cláusula de não-concorrência: proíbe o treinador de trabalhar para clubes rivais durante um período após a saída. Em Portugal, estas cláusulas são válidas por no máximo dois anos e exigem compensação financeira adicional.

O caso Nuno Espírito Santo: lições para treinadores portugueses

O litígio entre Nuno Espírito Santo e o Nottingham Forest, que envolveu alegações de incumprimento contratual da parte do clube, é um dos casos mais mediáticos recentes no direito desportivo europeu. Em situações semelhantes de rutura contratual entre treinador e clube, a posição jurídica do treinador depende criticamente do que ficou escrito — e do que foi omitido — no contrato original.

Os erros contratuais mais comuns em treinadores que depois enfrentam litígios:

  1. Cláusulas de desempenho vagas: definir "sucesso" de forma imprecisa dá ao clube margem para justificar demissões sem compensação adequada.
  2. Falta de cláusula de arbitragem: sem um mecanismo de resolução de litígios acordado, qualquer disputa vai parar ao tribunal, o que pode demorar anos.
  3. Ausência de garantias sobre recursos e staff: se o clube pode remover o staff de apoio do treinador, a relação laboral fica desequilibrada desde o início.

Da beira-campo à direção técnica: um novo tipo de contrato

A mudança de ten Hag para Diretor Técnico do Twente representa uma evolução cada vez mais comum no futebol: ex-treinadores que assumem papéis de liderança organizacional em vez de continuarem na gestão de equipa direta. Este tipo de cargo tem uma natureza jurídica diferente — mais próxima de um contrato de gestão do que de trabalho desportivo stricto sensu.

Nestes papéis híbridos, a estrutura contratual importa ainda mais: quem tem poder de decisão sobre transferências? Qual o nível de autonomia do Diretor Técnico face ao conselho de administração? O contrato define âmbito de funções e responsabilidades com clareza suficiente para evitar conflitos internos?

São questões que qualquer profissional que transite de uma função técnica para uma função de gestão — em qualquer setor, não apenas no desporto — deveria colocar a um advogado especializado antes de assinar.

O que a trajetória de ten Hag ensina a qualquer profissional

A história de Erik ten Hag não é apenas sobre futebol. É sobre como contratos bem negociados protegem mesmo quem é demitido injustamente ou prematuramente. E sobre como a ausência de cláusulas adequadas pode transformar uma saída legítima numa batalha jurídica desnecessária.

Em Portugal, um número crescente de profissionais de alta performance — gestores, quadros superiores, diretores — tem recorrido a advogados especializados para rever e negociar os seus contratos de trabalho antes de assinar. A mensagem é clara: esperar pelos problemas é sempre mais caro do que preveni-los. Na ExpertZoom, pode consultar um advogado especializado em direito do trabalho e contratos de gestão para proteger a sua carreira — seja no futebol ou em qualquer outro setor.

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