Elye Wahi convocado para o Mundial 2026: o que a lei diz sobre contratos de empréstimo no futebol

Elye Wahi em ação pelo RC Lens num jogo de Ligue 1

Photo : Supporterhéninois / Wikimedia

Sofia Sofia CostaJurídico
5 min de leitura 22 de maio de 2026

Elye Wahi, avançado francês de origem marfinesa, foi convocado pela Costa do Marfim para o Mundial 2026, enquanto o OGC Nice e o Eintracht Frankfurt disputam o seu futuro no mercado de transferências. A situação ilumina uma questão cada vez mais frequente no futebol europeu: o que acontece, juridicamente, quando um jogador cedido por empréstimo é chamado para uma competição internacional de grande envergadura durante a vigência do contrato?

De Frankfurt para Nice: sete golos e muitas dúvidas

Desde janeiro de 2026, Wahi representa o Nice por empréstimo do clube alemão Eintracht Frankfurt, registando sete golos e duas assistências em 15 encontros disputados na Ligue 1. O desempenho sólido levou o selecionador da Costa do Marfim, Emerse Faé, a convocá-lo para o elenco que disputará o Mundial 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá, marcado para o verão.

O problema é que o empréstimo é temporário. O Frankfurt está disponível para vender Wahi por entre 15 e 25 milhões de euros, e o Nice quer exercer o direito de compra permanente. Entretanto, o clube da Costa Azul enfrenta play-offs de manutenção na Ligue 1 e precisaria do avançado precisamente quando ele pode estar a representar o seu país no mais importante torneio de futebol do mundo.

O que diz a lei sobre empréstimos desportivos?

Um contrato de cedência temporária, vulgo empréstimo, é um acordo tripartido: clube de origem, clube de destino e jogador. Segundo o Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA (RSTP), o jogador mantém vínculo laboral com o clube de origem, mas os direitos de utilização desportiva são cedidos ao clube de destino durante o período acordado.

Durante esse período, o jogador tem obrigação de responder às convocatórias da seleção nacional, independentemente das necessidades do clube de destino. Trata-se de uma disposição que protege o direito do jogador e o interesse das federações nacionais, mas que pode criar conflitos de agenda para os clubes envolvidos, especialmente quando estão em causa transferências definitivas pendentes.

A convocatória internacional tem precedência sobre o interesse do clube, mas os contratos de empréstimo podem conter cláusulas específicas que regulam o que acontece se o jogador se lesionar ao serviço de uma seleção durante a vigência do empréstimo. Sem essas cláusulas, surgem disputas.

Lesão ao serviço da seleção: quem paga?

Esta é uma das questões mais delicadas nos contratos de empréstimo durante períodos de competição internacional. Se Wahi se lesionar durante o Mundial 2026, o Nice ou o Frankfurt ficam com um jogador indisponível, sem que os planos de transferência acordados possam ser cumpridos conforme previsto.

De acordo com o RSTP, o clube de origem suporta os custos médicos de base, mas o clube de destino pode perder o benefício desportivo pelo qual pagou a cedência. Por isso, muitos contratos de empréstimo incluem cláusulas de cobertura de risco para cenários de lesão em competição internacional.

Em Portugal, os contratos desportivos são enquadrados pela Lei do Trabalho Desportivo (Lei n.º 54/2017), que estabelece as condições mínimas para os vínculos entre jogadores profissionais e clubes. A assessoria de um advogado especializado em direito desportivo é essencial para negociar estas cláusulas de proteção antes da assinatura do contrato.

Como se pode observar noutros casos recentes, como o contrato de empréstimo de Stephen Eustáquio entre o Porto e o LAFC, os contratos de atletas internacionais exigem cada vez mais cláusulas específicas para cobrir períodos de competição como um Mundial ou um Europeu.

O que os clubes portugueses devem antecipar

Clubes portugueses como o Sporting CP, o FC Porto e o Benfica estão habituados a ceder e receber jogadores por empréstimo. A situação de Wahi ilustra os riscos que os departamentos jurídicos desportivos devem antecipar no momento da negociação:

Cláusulas de período de competição: O contrato deve especificar o que acontece quando o jogador é convocado para um torneio de verão, como o Mundial, o Europeu ou a CAN (Campeonato Africano das Nações).

Seguro de lesão internacional: Quem assume os custos médicos e de reabilitação se o jogador se magoar ao serviço de uma seleção durante a vigência do empréstimo?

Direito de compra e janelas de transferência: Se o clube de destino quer exercer a opção de compra, em que momento e sob que condições o pode fazer? A ausência prolongada por competição internacional pode atrasar ou inviabilizar o processo.

Cláusulas de desempenho: Golos, assistências, minutos jogados — estas métricas podem influenciar o preço final da transferência, mas uma ausência de semanas por competição internacional perturba o cômputo acordado.

Mudanças de elegibilidade e valorização de mercado

Um pormenor financeiro que muitos adeptos e dirigentes desconhecem: a elegibilidade internacional de um jogador pode mudar o seu valor de mercado de forma significativa. Wahi, nascido em França mas com ascendência marfinesa, optou por representar a Costa do Marfim. Esta decisão, permitida pelas regras da FIFA em determinadas circunstâncias, influencia diretamente a sua atratividade no mercado europeu.

Cláusulas de venda futura com percentagem de mais-valias, como as que alguns clubes incluem nos seus contratos, podem ser afetadas por estas mudanças de elegibilidade. Para as transferências que envolvem cláusulas de rescisão e renovação de contrato, a estrutura jurídica do vínculo original tem impacto direto nos rendimentos futuros de todos os intervenientes.

Quando consultar um advogado desportivo

Se é jogador, empresário desportivo ou responsável jurídico de um clube, há momentos-chave em que a assessoria especializada faz toda a diferença:

  • Na negociação de um contrato de empréstimo, antes de assinar qualquer documento
  • Quando um jogador cedido é chamado a uma seleção durante a vigência do empréstimo
  • Em disputas sobre indemnizações por lesão ao serviço de outra entidade
  • Na estruturação de cláusulas de compra obrigatória ou opção de compra
  • Na verificação da elegibilidade internacional e das suas implicações contratuais

O caso de Elye Wahi não é isolado: cada Mundial ou Europeu gera dezenas de situações jurídicas semelhantes entre clubes europeus. Ter um especialista a analisar o contrato antes de o assinar pode evitar disputas que, em última instância, terminam em tribunais desportivos internacionais.

Para consultar as normas aplicáveis, pode aceder às regulamentações oficiais da FIFA sobre estatuto e transferência de jogadores. Se precisar de acompanhamento personalizado para a sua situação específica, um advogado desportivo no ExpertZoom pode ajudá-lo a proteger os seus interesses antes, durante e depois de qualquer transferência.

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