Deniz Undav entrou na segunda parte, marcou duas vezes e garantiu a qualificação da Alemanha para os oitavos de final da Copa do Mundo 2026. No dia 20 de junho em Toronto, a Alemanha estava a perder 1-0 para a Costa do Marfim quando o avançado do Stuttgart entrou do banco e converteu o empate aos 60 minutos e o golo da vitória aos 90+4', na sequência de um passe brilhante de Nmecha. Resultado final: 2-1, seis pontos e apuramento confirmado no Grupo E.
O feito faz de Undav o herói improvável do torneio alemão — mas há uma segunda história que passou quase despercebida: semanas antes do jogo, e após 36 horas de negociações intensas, o Stuttgart e Deniz Undav assinaram um contrato de renovação que o vincula ao clube até 2029, com extensão automática até 2030 caso dispute mais de 20 jogos em 2028-29. O salário base supera €5,5 milhões por época, acrescido de um bónus de assinatura de €4 milhões.
Um percurso que começa no empréstimo e termina em €29 milhões
Em 2023-24, Undav chegou ao Stuttgart por empréstimo do Brighton & Hove Albion. Nessa época marcou 18 golos na Bundesliga. O Stuttgart ativou a opção de compra e pagou £25 milhões (cerca de €29 milhões) em agosto de 2024. Na época 2025-26, o avançado terminou como segundo melhor marcador da Bundesliga com 19 golos e 6 assistências — apenas atrás de Harry Kane. A Copa do Mundo confirmou o que o campeonato alemão já mostrava: Undav é uma máquina de golos.
Este percurso — empréstimo, compra definitiva, renovação com bónus e cláusula de extensão automática — espelha as três grandes fases contratuais da carreira de um futebolista profissional. E cada uma levanta questões jurídicas que muitos atletas, mesmo os de elite, não compreendem plenamente. Para além dos salários recordes que circulam nesta Copa do Mundo, como se pode ler na análise dos prémios financeiros dos jogadores alemães neste torneio, a proteção jurídica nos contratos é tão importante quanto o valor bruto negociado.
5 questões jurídicas que qualquer praticante desportivo deve conhecer
1. Quem é responsável pelo jogador durante um empréstimo?
Nos contratos de empréstimo (loan agreements), o atleta mantém vínculo laboral com o clube de origem mas presta serviços ao clube cessionário. Em caso de lesão grave, salário em atraso ou rescisão antecipada, a responsabilidade depende dos termos do contrato tripartido — assinado pelo atleta e pelos dois clubes. Muitos empréstimos incluem cláusulas que limitam a responsabilidade do clube cessionário em situações de longa paragem, o que pode deixar o atleta desprotegido. Antes de assinar qualquer contrato de empréstimo, um advogado especializado em direito desportivo deve analisar estas cláusulas com atenção.
2. As cláusulas de extensão automática são legalmente vinculativas?
O novo contrato de Undav prevê uma extensão automática até 2030 mediante condições de utilização. Este mecanismo é habitual no futebol europeu, mas a sua validade varia consoante a legislação de cada país. Em Portugal, o Contrato de Trabalho do Praticante Desportivo — regulado pela Lei n.º 28/98, de 26 de junho, disponível no Diário da República Eletrónico (dre.pt) — exige que as cláusulas de renovação automática sejam transparentes e não violem os princípios de liberdade contratual. Vários atletas têm contestado este tipo de cláusulas com sucesso, obtendo a sua nulidade e a consequente libertação do contrato.
3. O bónus de assinatura pode ser recuperado em caso de rescisão?
O bónus de €4 milhões de Undav levanta uma dúvida frequente: se o contrato for rescindido antes do prazo, o jogador conserva o valor recebido? A resposta depende das vesting conditions definidas no contrato. Na maioria dos casos, o bónus é pago em parcelas atreladas a metas de permanência ou de utilização efetiva. Se o atleta for transferido antes de atingir determinados marcos contratuais, pode ter de devolver parte do montante. Se, pelo contrário, for dispensado sem justa causa, pode exigir que o clube honre o pagamento integral. Cada cenário exige análise jurídica prévia — e, idealmente, negociação das condições antes da assinatura.
4. Qual a diferença entre justa causa e rescisão unilateral?
Em Portugal, o praticante desportivo tem direito a rescindir o contrato por justa causa quando, por exemplo, os salários estiverem em atraso por mais de 30 dias ou quando existirem situações de assédio moral devidamente documentadas. Nesse caso, não é devida qualquer indemnização ao clube. Pelo contrário, a rescisão unilateral sem justa causa implica o pagamento de uma indemnização que pode ascender ao valor dos salários remanescentes ou ao montante de uma cláusula de rescisão previamente negociada — valores que, nos contratos de elite como o de Undav, podem ultrapassar dezenas de milhões de euros. Conhecer esta distinção é fundamental antes de qualquer decisão de saída.
5. Como proteger os rendimentos de um contrato desportivo de alto valor?
Com €5,5 milhões anuais de salário base, Undav necessita de mais do que um bom agente — precisa de uma equipa jurídica e financeira integrada. Muitos futebolistas de topo criam sociedades de gestão de direitos de imagem para separar os rendimentos salariais dos rendimentos comerciais, otimizando a sua situação fiscal de forma legal. Esta estrutura exige substância económica real e residência fiscal efetiva, e deve ser validada por um advogado para evitar conflitos com as autoridades tributárias. Sem planeamento jurídico prévio, um contrato milionário pode resultar em problemas fiscais de longa duração.
O que os atletas portugueses podem aprender com este caso
A trajetória de Undav — do empréstimo ao estrelato na Copa do Mundo — é um exemplo de como uma carreira desportiva pode ser gerida de forma estratégica. Mas por trás dos golos existem contratos, negociações e decisões jurídicas que determinaram o destino do atleta tanto dentro como fora do relvado.
Em Portugal, cresce o número de futebolistas jovens que assinam os primeiros contratos profissionais sem aconselhamento jurídico especializado, ficando expostos a cláusulas desequilibradas, bónus condicionados a termos obscuros ou rescisões com condições extremamente desvantajosas. Compreender os termos de um contrato desportivo — incluindo cláusulas de empréstimo, bónus de assinatura e extensão automática — é tão importante quanto treinar a finalização.
Tal como Undav soube aproveitar o momento certo em campo para mudar o rumo do jogo, qualquer atleta deve saber reconhecer quando é o momento certo para consultar um especialista em direito desportivo. A diferença entre um contrato bem negociado e um contrato assimétrico pode definir toda uma carreira — dentro e fora do relvado.
Nota: Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento jurídico individualizado. Para questões relacionadas com contratos desportivos, consulte um advogado especializado.

Ana Rodrigues