Na noite de 30 de abril de 2026, o Fluminense sofreu uma derrota por 2-0 frente ao Bolívar no Estádio Hernando Siles, em La Paz, a capital administrativa da Bolívia — situada a mais de 3 600 metros de altitude. Os jornais desportivos foram unânimes: o Fluminense sofreu na altitude. Com apenas um ponto no Grupo C da Copa Libertadores, o clube carioca está em apuros. Mas a história desta derrota conta algo importante sobre o que a altitude faz ao corpo humano — e o que qualquer viajante deve saber antes de aterrar em La Paz.
O que aconteceu em La Paz
Robson Matheus, avançado com dupla nacionalidade brasileira-boliviana, foi o protagonista da noite. Marcou aos seis minutos do primeiro tempo e voltou a fazer golo ao quarto de hora da segunda parte, desta vez de cabeça. O Fluminense, já a lutar com as dificuldades respiratórias da altitude, viu ainda a situação agravar-se com a expulsão de Facundo Bernal por protestos, ficando reduzido a dez homens.
O resultado não surpreendeu os analistas: jogar em La Paz é considerado uma das maiores desvantagens do futebol sul-americano. O ar rarefeito a 3 600 metros dificulta a absorção de oxigénio, reduz a capacidade aeróbica e acelera o cansaço muscular — especialmente para atletas que chegam sem tempo de aclimatação.
O que a altitude faz ao corpo humano
A altitude de La Paz coloca qualquer organismo humano sob stress imediato. Quando o corpo sobe acima dos 2 500 metros, a pressão parcial do oxigénio diminui significativamente. O resultado pode ser o chamado mal de altitude (também conhecido como mal agudo de montanha), que se manifesta com:
- Dores de cabeça intensas, frequentemente frontais ou na nuca
- Náuseas e, em casos mais graves, vómitos
- Tonturas e desequilíbrio
- Fadiga extrema e falta de ar mesmo em repouso
- Insónia e perturbações do sono
Nos atletas profissionais, o impacto é mais subtil mas igualmente real: a frequência cardíaca aumenta, o VO₂ máximo (capacidade máxima de consumo de oxigénio) pode diminuir até 10-15% por cada 1 000 metros acima do nível do mar, e o tempo de recuperação entre esforços intensos é significativamente maior.
Quanto tempo é necessário para aclimatizar?
A aclimatização é o processo pelo qual o organismo se adapta a altitudes mais elevadas — aumentando a produção de glóbulos vermelhos, ajustando a frequência respiratória e otimizando o transporte de oxigénio. O problema para as equipas visitantes de futebol é que este processo leva tempo:
- 24 a 48 horas: adaptação mínima, ainda com sintomas para muitos
- 1 a 2 semanas: adaptação parcial, com melhoria funcional significativa
- Mais de 3 semanas: adaptação completa para a maioria dos indivíduos saudáveis
As equipas que chegam a La Paz um ou dois dias antes do jogo ficam, literalmente, em desvantagem fisiológica. Por isso, na CONMEBOL existe um debate recorrente sobre se o Hernando Siles deveria ser autorizado a receber jogos de competição internacional.
Quem corre mais risco ao viajar para La Paz?
Para os turistas e viajantes — portugueses incluídos —, a preocupação vai além do desempenho desportivo. Viajar para La Paz ou qualquer destino a grande altitude é uma decisão de saúde que merece preparação antecipada.
Os grupos com maior risco incluem:
- Pessoas com patologias cardiovasculares ou pulmonares: hipertensão, insuficiência cardíaca, asma ou DPOC aumentam a vulnerabilidade
- Idosos: a capacidade de aclimatização diminui com a idade
- Grávidas: a redução de oxigénio pode afetar o feto
- Pessoas com anemia: menos hemoglobina significa menos capacidade de transporte de oxigénio
Mesmo indivíduos jovens e saudáveis podem ser afetados. O mal de altitude não discrimina — e a imprevisibilidade é uma das suas características mais desafiadoras.
O que fazer antes de viajar para destinos de grande altitude
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que viajantes com destino a altitudes superiores a 2 500 metros consultem um médico com pelo menos quatro a seis semanas de antecedência, especialmente se existirem condições crónicas pré-existentes.
As medidas preventivas mais eficazes incluem:
- Consulta médica prévia: avaliar o estado cardiovascular e respiratório antes da viagem
- Ascensão gradual: se possível, fazer paragens intermédias para aclimatização (por exemplo, em Cusco ou Puno antes de subir para La Paz)
- Medicação preventiva: em casos indicados pelo médico, a acetazolamida (Diamox) pode ser prescrita para acelerar a adaptação
- Hidratação adequada: o ar seco de altitude favorece a desidratação
- Evitar álcool e sedativos: ambos agravam os sintomas de mal de altitude
O sinal do corpo que não deve ignorar
Se sentir dor de cabeça persistente, confusão mental, falta de ar em repouso ou edema (inchaço) nos pés ou rosto após chegar a grande altitude, procure assistência médica imediatamente. O edema cerebral ou pulmonar de altitude são emergências graves que podem ser fatais se não tratadas com rapidez — geralmente descendo para altitudes mais baixas e com administração de oxigénio.
Para mais informação, o portal da Organização Mundial da Saúde sobre viagens internacionais e saúde disponibiliza orientações detalhadas sobre os riscos de altitude para viajantes.
La Paz é segura para visitar?
Sim — mas com preparação. La Paz é uma cidade extraordinária, e a Bolívia é um dos destinos mais fascinantes da América do Sul. O que o caso do Fluminense nos mostra é que até os atletas mais bem preparados do mundo podem ser apanhados de surpresa pela altitude. Para os viajantes comuns, a mensagem é simples: consulte um médico antes de partir, ascenda gradualmente, e ouça os sinais do seu corpo.
Nota: Este artigo tem fins informativos. Consulte sempre um médico antes de viajar para destinos de grande altitude, especialmente se tiver condições de saúde pré-existentes.
