Acidente na A5 em Cascais: as lesões que podem surgir dias após o impacto

Homem a segurar o pescoço junto a acidente na A5, com ambulância INEM ao fundo
5 min de leitura 23 de junho de 2026

Dois homens ficaram feridos com gravidade esta manhã, 23 de junho de 2026, numa colisão entre dois veículos ligeiros na A5, ao quilómetro 12,5, junto à saída para Oeiras, no sentido Cascais-Lisboa. O alerta foi dado às 10h30 e a estrada esteve cortada cerca de duas horas. O que muitas vítimas de acidentes de viação desconhecem é que os ferimentos mais perigosos são frequentemente os que não se vêem — e que podem surgir horas ou mesmo dias depois do impacto.

O acidente desta manhã na A5

A colisão desta terça-feira envolveu dois veículos ligeiros e resultou em três feridos, dois em estado grave e um com ferimentos ligeiros, todos do sexo masculino. O INEM e os bombeiros foram rapidamente acionados ao local, junto à saída de Oeiras na direção Cascais-Lisboa. A circulação na A5 foi restabelecida cerca das 12h30, duas horas após o acidente. A A5 é uma das autoestradas mais movimentadas da região metropolitana de Lisboa, servindo diariamente dezenas de milhares de automobilistas entre a capital e Cascais.

Para além das três vítimas transportadas para o hospital, há um fenómeno que os médicos de urgência conhecem bem: a falsa sensação de que "estou bem" imediatamente após um embate.

O corpo pode levar horas a mostrar os sinais

Após um acidente de viação, o organismo reage como numa situação de perigo extremo: liberta adrenalina e endorfinas em grandes quantidades. Estas substâncias funcionam como um anestésico natural — mascaram a dor, aumentam a resistência e dão a sensação de que nada de grave aconteceu. É por isso que muitas pessoas saem do carro a andar, recusam assistência no local e só 24 a 48 horas depois percebem que algo está errado.

Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), os acidentes rodoviários continuam a ser uma das principais causas de hospitalização e de incapacidade temporária em Portugal. E de acordo com dados da Associação Portuguesa Spine Matters, citados pelo Atlas da Saúde, 30% dos acidentes rodoviários ligeiros originam lesões da coluna cervical — nem sempre diagnosticadas atempadamente.

Whiplash: a lesão mais comum que ninguém vê

O golpe de chicote cervical — ou whiplash — é a lesão mais frequente nas colisões rodoviárias. Ocorre quando o pescoço sofre um movimento brusco de hiperflexão seguida de hiperextensão em frações de segundo, tal como acontece numa travagem de emergência ou num embate frontal ou traseiro. O mecanismo é simples: o tronco fica imobilizado pelo cinto de segurança, mas a cabeça continua a mover-se por inércia.

Os sintomas do whiplash têm início típico entre 12 e 48 horas após o impacto — e podem intensificar-se progressivamente nos dois ou três dias seguintes. A lesão afeta músculos, ligamentos, tendões e, em casos mais graves, as vértebras e os nervos cervicais.

Os sintomas que não deve ignorar

Nas horas e dias a seguir a qualquer acidente de viação — mesmo sem colisão aparentemente grave — preste atenção a estes sinais:

  • Dor ou rigidez no pescoço e ombros: o sinal mais clássico de lesão cervical. Começa frequentemente como uma tensão suave e agudiza-se com o tempo.
  • Cefaleias persistentes: dores de cabeça que surgem após o acidente, sobretudo na base do crânio, são um sinal de alerta importante.
  • Tonturas e náuseas: podem indicar perturbação vestibular ou, em casos mais graves, um envolvimento neurológico que requer avaliação urgente.
  • Formigueiro ou dormência nos braços e mãos: pode sinalizar compressão nervosa cervical que não é detetável em radiografias convencionais.
  • Dificuldades de concentração ou memória: frequentemente associadas a lesão cerebral ligeira (concussão), que muitas vezes não provoca perda de consciência — e por isso é ignorada.
  • Alterações do sono e irritabilidade: podem ser manifestações tardias de stress pós-traumático (PTSP), particularmente em acidentes com impacto emocional intenso.

A armadilha das "lesões invisíveis"

Ao contrário de uma fratura óssea, os danos nos tecidos moles — músculos, tendões e ligamentos — raramente aparecem em radiografias convencionais. É um facto clínico bem estabelecido: um médico de urgência pode observar uma radiografia completamente normal e indicar alta hospitalar, sem que isso signifique que o doente está ileso.

Para detetar lesões como hérnias discais cervicais, ruturas ligamentares ou contusões musculares profundas, são frequentemente necessários exames como a ressonância magnética (RM) ou a ecografia musculoesquelética — raramente realizados por rotina nas urgências. Se foi envolvido num acidente e foi dispensado no local ou nas urgências sem estes exames, um médico de família, um ortopedista ou um fisiatra podem avaliar a necessidade de os prescrever.

Quando o acidente afeta também a mente

Os acidentes de viação são uma das principais causas de perturbação de stress pós-traumático (PTSP) em adultos. Estudos publicados na revista Ciência & Saúde Coletiva mostram que uma proporção significativa de vítimas de acidentes rodoviários desenvolve sintomas de PTSP nas semanas seguintes ao evento — incluindo flashbacks, evitamento de automóveis ou de certas estradas, pesadelos e estado de hipervigilância permanente.

Estes sintomas tendem a ser subvalorizados pelas próprias vítimas ("é só nervosismo, passa") e muitas vezes não são identificados nos serviços de urgência, que se focam nas lesões físicas. Um psicólogo clínico ou psiquiatra pode fazer a avaliação adequada e propor intervenção precoce — o que melhora substancialmente o prognóstico a longo prazo.

O que fazer nos dias seguintes a um acidente

Se foi envolvido num acidente de viação — como passageiro, condutor ou peão — tome estas medidas nas 48 a 72 horas seguintes:

  1. Não ignore sintomas "ligeiros": dor, rigidez, cansaço anormal ou dificuldades cognitivas após um acidente justificam sempre avaliação médica.
  2. Registe os sintomas por escrito: quando surgem, com que intensidade, o que agrava ou alivia. Esta informação é essencial para o médico que o avaliar.
  3. Informe o seu médico de família: mesmo que não tenha ido ao hospital no dia do acidente, consulte o médico nas 48 a 72 horas seguintes e mencione o acidente com todos os detalhes.
  4. Não espere que "passe sozinho": as lesões cervicais não tratadas podem tornar-se crónicas, com impacto significativo na mobilidade e na qualidade de vida.
  5. Considere fisioterapia precoce: em lesões de whiplash, a mobilização precoce e orientada por fisioterapeuta é comprovadamente superior ao repouso absoluto.

Um especialista pode ajudá-lo a agir a tempo

Se foi envolvido num acidente e não sabe por onde começar, consultar um médico ou especialista de saúde rapidamente faz toda a diferença no prognóstico. Na Expert Zoom, encontra médicos, fisiatras e psicólogos disponíveis para consulta online, que o podem orientar sobre os exames a realizar, os cuidados imediatos e o encaminhamento adequado para a sua situação.

A saúde após um acidente não é uma questão de sorte: é uma questão de agir a tempo, antes que os sintomas se instalem de forma permanente.

Este artigo tem fins informativos. Em caso de dúvida sobre o seu estado de saúde após um acidente, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.

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