Um ano após a morte de Preta Gil, em 20 de julho de 2026, o apresentador Gominho voltou a falar sobre a amiga e revelou, em entrevista publicada em 18 de julho, que ainda "conversa" com ela na cabeça e sente respostas. A declaração, noticiada pelo Diário do Grande ABC, comoveu o público — e reacendeu uma pergunta que atravessa qualquer família enlutada: até quando a saudade profunda é esperada, e a partir de quando ela vira um problema de saúde que pede acompanhamento profissional?
Gominho acompanhou Preta durante quimioterapias, cirurgias e longas internações. Um vínculo dessa intensidade torna o luto mais complexo, mas não necessariamente adoecido. Manter uma conversa interna com quem partiu, aliás, é descrito por psicólogos como um mecanismo comum e, na maioria dos casos, saudável de elaboração da perda.
O que a ciência já classifica como transtorno
Desde 2022, o luto deixou de ser apenas um sentimento para se tornar, em situações específicas, um diagnóstico formal. A Organização Mundial da Saúde incluiu o Transtorno de Luto Prolongado na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), sob o código 6B42, conforme reconhecido pelo Ministério da Saúde.
O critério de tempo é o divisor de águas. Em adultos, fala-se em luto prolongado quando a dor intensa e incapacitante permanece quase todos os dias por mais de 12 meses após a perda. Em crianças e adolescentes, o limite cai para 6 meses. Justamente por isso, o caso de Gominho — que completa um ano de luto agora — ilustra o momento clínico em que faz sentido observar a intensidade dos sintomas com mais atenção, sem que isso signifique um diagnóstico.
Os sinais de alerta segundo os especialistas
A diferença entre a saudade natural e o transtorno não está em sentir falta, mas no grau de prejuízo à vida. Os principais sinais de alerta, descritos na literatura sobre a CID-11, incluem:
- Saudade ou anseio esmagador pela pessoa, ou preocupação constante com a perda, quase diariamente, com prejuízo no trabalho, nos estudos ou no autocuidado.
- Evitação extrema de tudo o que lembra o falecido, ou o oposto — fixação em memórias, culpa e ruminação sem alívio.
- Perda de sentido no futuro, isolamento severo, negligência com a própria saúde e, nos quadros mais graves, pensamentos de morte ou uso abusivo de substâncias.
Quando esses sinais se somam e persistem, a avaliação especializada deixa de ser opcional. Um psicólogo é o profissional que ajuda a diferenciar o luto que caminha para a cura daquele que travou — e a construir um caminho de reorganização da vida.
Por que procurar um psicólogo faz diferença
Falar publicamente sobre a dor, como fez Gominho, tem valor terapêutico e ainda cumpre um papel social: reduz o estigma em torno da saúde mental. Mas a exposição pública não substitui o acompanhamento. Um profissional oferece um espaço estruturado para nomear emoções, testar estratégias de enfrentamento e monitorar sintomas de depressão ou ansiedade que costumam se sobrepor ao luto.
Um psicólogo pode ajudar você a entender se a "conversa" com quem partiu é uma ponte saudável de memória ou um sinal de que a elaboração ficou presa em um mesmo ponto. Essa leitura fina, feita caso a caso, é o que separa o apoio adequado da simples espera de que "o tempo cure".
No Brasil, o cuidado não depende apenas da rede privada. O Ministério da Saúde direciona quem precisa de apoio à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS. Há ainda a linha OuvSUS 136 para orientação em saúde mental. Em situações de crise ou risco, o atendimento pode ser buscado em qualquer serviço da rede.
O que fazer diante de um luto que não passa
Se você reconhece esses sinais em si mesmo ou em alguém próximo, alguns passos ajudam a agir sem improviso:
- Observe o calendário e a intensidade. Dor que se mantém incapacitante depois de 12 meses (ou 6, no caso de crianças) merece avaliação.
- Não espere o quadro "explodir". Procurar um psicólogo antes de o sofrimento tomar conta da rotina é prevenção, não exagero.
- Aceite ajuda concreta. Delegar tarefas do dia a dia a familiares durante o pico do luto é parte do cuidado, não fraqueza.
- Use os canais públicos. CAPS e a linha OuvSUS 136 são portas de entrada gratuitas quando o acesso à rede privada é difícil.
O luto de Gominho por Preta Gil escancarou algo que muita gente vive em silêncio: perder alguém amado reorganiza a vida por completo. Na maior parte dos casos, a dor encontra seu próprio ritmo. Em uma parcela, porém, ela precisa de mão profissional — e reconhecer essa fronteira a tempo é o que protege a saúde de quem fica.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Se você enfrenta um luto que compromete o seu dia a dia, converse com um psicólogo. Em caso de pensamentos de morte, procure imediatamente o CVV (188) ou um serviço de emergência.
Precisa de orientação? Encontre um psicólogo ou profissional de Saúde na Expert Zoom e veja também como o cinema tem aberto conversas sobre luto e propósito.

Gabriel Alves