Filipe Luís foi demitido do Flamengo em 2026 diante de um dos maiores holofotes do futebol brasileiro, depois do pior início de temporada do clube em uma década. Poucos dias depois, foi anunciado pelo Monaco, na França. Mas essa recuperação relâmpago é a exceção, não a regra. Para a maioria das pessoas que perde o emprego de forma abrupta e pública, o que vem depois não é uma manchete de acerto: é uma ferida silenciosa na saúde mental. E é exatamente aí que um profissional pode fazer diferença.
O que aconteceu
O Flamengo dispensou Filipe Luís no início de 2026, após uma sequência de resultados ruins que colocou a equipe entre as piores do começo de temporada em dez anos. A decisão veio apesar de um currículo raro: como técnico, ele conquistou cinco títulos pelo clube, entre eles a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2025. Dias depois, foi contratado pelo Monaco, do Campeonato Francês.
O episódio expõe uma verdade desconfortável do mundo do trabalho de alta pressão: nem os resultados recentes, nem uma trajetória vitoriosa, protegem alguém de uma saída repentina. E quando essa saída acontece sob os olhos de milhões de pessoas — nas redes sociais, nos programas esportivos, nas conversas de bar —, o baque psicológico é maior do que muitos imaginam.
Por que uma demissão pública pesa tanto
Perder o emprego já figura entre os eventos mais estressantes da vida adulta, ao lado de lutos e separações. Quando a demissão é exposta publicamente, somam-se dois fatores que agravam o quadro: a perda de identidade e a exposição ao julgamento alheio.
Para quem construiu boa parte da própria imagem em torno da profissão — um cargo de liderança, uma carreira de destaque, um papel reconhecido —, o desligamento não atinge só a renda. Atinge o senso de quem a pessoa é. A pergunta "quem sou eu sem esse trabalho?" costuma vir acompanhada de insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e um sentimento persistente de fracasso.
A exposição multiplica esse efeito. Comentários, memes e análises alheias transformam uma dor privada em espetáculo. O cérebro, que não distingue bem crítica profissional de rejeição pessoal, entra em estado de alerta prolongado. Segundo o Ministério da Saúde, a saúde mental é um estado de bem-estar que permite lidar com os desafios da vida — e é justamente essa capacidade de resposta que o estresse crônico corrói.
Os sinais de que passou da hora de buscar ajuda
Sentir tristeza, raiva ou ansiedade nos primeiros dias após uma demissão é normal e esperado. O problema é quando esses sintomas se instalam e passam a comprometer o funcionamento do dia a dia. Fique atento se, por mais de duas semanas, aparecerem:
- Alterações importantes de sono ou apetite;
- Perda de interesse por atividades que antes davam prazer;
- Isolamento social e vergonha de sair de casa;
- Dificuldade de tomar decisões simples;
- Uso de álcool ou remédios para "desligar";
- Pensamentos de que a vida não vale a pena.
O último item é uma emergência. Em casos de sofrimento intenso ou pensamentos de morte, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo número 188, 24 horas por dia.
Como um profissional de saúde pode ajudar
A boa notícia é que o sofrimento após uma demissão responde bem a acompanhamento. Um psicólogo ajuda a separar o valor da pessoa do resultado do último trabalho — uma distinção que parece óbvia, mas que se perde justamente nos momentos de crise. A terapia oferece ferramentas concretas para reorganizar a rotina, reconstruir a autoestima e planejar os próximos passos sem decidir no impulso.
Em quadros mais intensos, com sintomas persistentes de depressão ou ansiedade, um psiquiatra pode avaliar a necessidade de tratamento medicamentoso, sempre de forma individualizada. A combinação de acompanhamento psicológico e, quando indicado, psiquiátrico, é o caminho recomendado para quem não consegue retomar o equilíbrio sozinho.
Vale lembrar que buscar ajuda não é sinal de fraqueza — é uma estratégia de recuperação. Assim como um atleta de alto rendimento trata uma lesão para voltar a jogar, cuidar da mente depois de um golpe profissional acelera a retomada. A pressão sobre quem vive de desempenho, aliás, não é exclusividade dos técnicos de futebol: ela atravessa executivos, autônomos e trabalhadores comuns, tema que já discutimos ao olhar para a saúde mental de atletas de alta performance.
O que fazer agora
Se você — ou alguém próximo — passou por uma demissão difícil, o primeiro passo é não minimizar o que sente. Nomear a dor já é parte do tratamento. Em seguida, vale organizar uma rede de apoio: pessoas de confiança, informações confiáveis sobre serviços de saúde mental e, quando necessário, atendimento profissional.
A rede pública oferece porta de entrada gratuita: as unidades de saúde e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fazem parte do SUS. Informações oficiais sobre serviços e cuidados estão disponíveis no portal de saúde mental do Ministério da Saúde. E, para quem prefere ou precisa de acompanhamento particular, plataformas de consulta com psicólogos e psiquiatras permitem encontrar rapidamente o profissional certo.
Filipe Luís teve a sorte de trocar um cargo por outro em questão de dias. A maioria das pessoas precisa de tempo — e, muitas vezes, de ajuda especializada — para se reerguer. Reconhecer isso, sem vergonha, é o que separa uma queda temporária de um problema que se arrasta.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica individualizada. Em caso de sofrimento intenso, procure um profissional de saúde ou ligue para o CVV no 188.

Gabriel Alves