No dia 14 de maio de 2026, "Perto do Sol é Mais Claro" estreou nos cinemas brasileiros. O filme dirigido por Régis Faria reúne três gerações de uma família: o patriarca Reginaldo Faria, 88 anos, interpreta um engenheiro de 85 que, após perder a esposa, decide escrever um livro e se reconectar com a vida. Ao seu lado, os filhos Marcelo Faria e Carlos André Faria. O tema — luto, ressignificação e propósito na terceira idade — tocou o Brasil de um jeito que vai além das telas. Afinal, o país tem mais de 32 milhões de pessoas acima de 60 anos, e muitas delas estão silenciosamente diante de perguntas que o cinema de Régis Faria ousa fazer em voz alta.
O luto na terceira idade: por que é diferente
O luto nunca é fácil, em qualquer fase da vida. Mas a perda de um cônjuge depois dos 60 anos apresenta desafios específicos que a psicologia gerontológica tem estudado com crescente atenção.
Dados do IBGE mostram que, no Brasil, 83% das pessoas acima de 70 anos que perdem o cônjuge são mulheres — reflexo da maior longevidade feminina e da diferença de idade típica nos casamentos. Para os homens que perdem a parceira, como o personagem de Reginaldo Faria no filme, o impacto tende a ser ainda mais severo: homens idosos têm redes sociais menores e são mais dependentes do vínculo conjugal como principal fonte de apoio emocional.
O luto na terceira idade frequentemente coexiste com outros processos:
- Aposentadoria recente: a perda do cônjuge pode coincidir com o fim da vida profissional, criando um vazio duplo de identidade e propósito
- Declínio de saúde próprio: o enlutado que já lida com limitações físicas tem menor reserva energética para processar a dor emocional
- Isolamento progressivo: amigos e contemporâneos também vão morrendo, estreitando a rede de apoio
- Invisibilidade social: idosos em luto são frequentemente encorajados a "ser forte" ou "superar logo", sem espaço para a dor ser vivida plenamente
O resultado é que o luto não elaborado na terceira idade tem taxas elevadas de evolução para depressão clínica — que, nessa faixa etária, muitas vezes não é diagnosticada porque seus sintomas são atribuídos ao "envelhecimento normal".
Encontrar propósito após a perda: o que a pesquisa mostra
O que o personagem de Reginaldo Faria faz no filme — começar a escrever um livro — não é ficção aleatória. É um dos mecanismos de elaboração de luto mais estudados e validados pela psicologia positiva: a construção de um projeto de sentido.
Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, propôs que o ser humano consegue suportar qualquer "como" desde que encontre um "por quê". Décadas depois, pesquisadores como Martin Seligman e seu modelo PERMA confirmaram empiricamente que o engajamento com metas significativas é um dos cinco pilares do florescimento humano.
No contexto do envelhecimento, estudos publicados no Journal of Gerontology mostram que idosos que desenvolvem novos projetos após a perda de um ente querido — escrever memórias, aprender um instrumento, se dedicar ao voluntariado, criar um negócio — apresentam:
- Redução de 40% nos sintomas depressivos em comparação a controles sem projeto de sentido
- Melhora mensurável na função cognitiva após seis meses
- Menor uso de serviços de emergência médica ao longo do ano
- Relatos subjetivos de maior qualidade de vida, mesmo em luto ativo
O "projeto de sentido" não precisa ser grandioso. Pode ser cuidar de netos, plantar uma horta, retomar um hobby abandonado décadas atrás, ou — como no filme — escrever.
O que um psicólogo especializado em luto e terceira idade pode oferecer
A diferença entre um luto saudável e um luto patológico não está na intensidade da dor, mas na trajetória. O luto saudável oscila — há dias melhores e piores — mas há uma tendência geral de gradual adaptação. O luto patológico fica estagnado, muitas vezes por meses ou anos, sem movimento.
Alguns sinais de que o luto pode precisar de suporte especializado:
- Dificuldade persistente para retomar atividades básicas depois de seis meses da perda
- Pensamentos intrusivos sobre a pessoa perdida que impedem qualquer outra atividade
- Ideação de que a vida não vale a pena sem a pessoa falecida (atenção: em homens idosos, esse sinal é frequentemente subnotificado)
- Deterioração física acelerada: perda de peso significativa, abandono de cuidados com saúde, piora de condições crônicas pré-existentes
- Isolamento social crescente: recusa a sair, ver família ou manter qualquer rotina social
Um psicólogo especializado em gerontologia pode oferecer intervenções baseadas em evidências, como a Terapia do Luto Complicado (desenvolvida por Katherine Shear na Universidade Columbia) ou a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que tem sido especialmente eficaz em populações idosas.
Quando a família também precisa de suporte
O personagem de Marcelo Faria no filme não é apenas filho que aparece para ajudar. É alguém que também está em luto, ao mesmo tempo em que tenta apoiar o pai. Essa sobreposição de papéis — filho em luto que também é cuidador — é uma realidade para milhões de brasileiros.
Familiares de idosos em luto frequentemente experimentam:
- Luto antecipatório: o medo de perder o próprio pai ou mãe em breve, enquanto ainda estão vivos
- Sobrecarga de cuidado: assumir responsabilidades práticas e emocionais que antes eram compartilhadas pelo casal
- Culpa por não conseguir "consertar" a dor do familiar
- Negligência da própria saúde emocional enquanto foca no outro
Terapia de família ou até grupos de suporte para cuidadores de idosos — disponíveis em plataformas de saúde mental — podem oferecer ferramentas para navegar essa fase sem custo emocional excessivo para todos os envolvidos.
Na plataforma ExpertZoom, psicólogos especializados em luto, gerontologia e saúde do idoso atendem online para avaliação inicial, acompanhamento terapêutico e orientação a familiares. O filme de Marcelo Faria começa numa perda — mas termina com a descoberta de que ainda há muito sol a encontrar.
Aviso Legal: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um psicólogo ou profissional de saúde mental qualificado. Casos de luto com ideação suicida requerem atenção imediata — procure o CVV pelo 188 ou a UBS mais próxima.
Fonte oficial: Conselho Federal de Psicologia — Luto e saúde mental

Gabriel Alves