Escócia x Marrocos na Copa 2026: as Regras de Dupla Nacionalidade da FIFA que Todo Brasileiro Deveria Conhecer
Enquanto Escócia e Marrocos se enfrentam no Gillette Stadium em Boston nesta sexta-feira, 19 de junho de 2026, pelo Grupo C da Copa do Mundo, um detalhe passa despercebido na maioria das transmissões: metade dos jogadores em campo poderia estar defendendo outra bandeira. As regras de elegibilidade da FIFA que permitiram isso valem também para milhões de brasileiros que vivem no exterior.
Marrocos: a Copa do Mundo Construída com a Diáspora
Marrocos chegou à Copa 2026 com o elenco mais internacionalizado de sua história. Para este torneio, a federação marroquina obteve autorização da FIFA para que sete jogadores trocassem sua elegibilidade nacional, segundo informações divulgadas pela própria entidade em junho de 2026. Entre eles estão Issa Diop, ex-convocado pela seleção sub-21 da França, e Rayane Bounida, formado nas categorias jovens da Bélgica e dos Países Baixos.
O caso mais emblemático é o de Brahim Díaz, do Real Madrid, nascido em Málaga, na Espanha. Em 2021, o meia chegou a disputar uma partida vistindo a camisa espanhola — mas, como se tratava de um amistoso em que a equipe sub-21 substituiu a seleção principal, a FIFA autorizou sua troca para Marrocos em 2024. Já Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, pediu a mudança da França para o Marrocos apenas semanas antes do início do torneio e foi aprovado.
A estrela Achraf Hakimi nasceu em Madrid, filho de marroquinos, e nunca cogitou jogar pela Espanha. O lateral do Paris Saint-Germain é o símbolo de uma geração de jogadores que, criados em países europeus, optaram conscientemente pelas seleções de suas raízes familiares.
O Que Diz o Regulamento da FIFA
A FIFA reformulou suas normas de elegibilidade em 2020, ampliando as possibilidades de mudança de seleção. Segundo o Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA — disponível no site oficial da entidade em fifa.com/legal/football-regulatory — os critérios atuais para representar uma seleção diferente da nacionalidade de nascimento são:
- Vínculo familiar: o jogador deve ter pais ou avós nascidos no país que quer representar, ou deve ter nascido lá;
- Residência contínua: cinco anos de moradia ininterrupta no território nacional após completar 18 anos garantem elegibilidade;
- Sem partida oficial sênior: o atleta não pode ter disputado jogos oficiais pela seleção anterior — amistosos em certas circunstâncias (como o caso Brahim Díaz) não são sempre impeditivos;
- Troca única e definitiva: após disputar uma Copa do Mundo ou campeonato continental oficial, o jogador fica vinculado permanentemente à seleção escolhida.
Como já analisamos no contexto da Holanda contra a Argélia, essas mesmas regras geraram situações similares em outros jogos desta Copa 2026 — confira as 4 regras FIFA que explicam esse fenômeno.
Escócia: Irmãos Divididos pela Elegibilidade
Do outro lado do campo, a Escócia também vive a realidade da dupla elegibilidade. John Souttar defende as cores escocesas na Copa 2026 enquanto seu irmão Harry veste a camisa da Austrália — dois irmãos separados pela mesma regra que une jogadores marroquinos nascidos na Europa à bandeira das estrelas vermelhas.
A participação escocesa já é histórica por si só: esta é a primeira Copa do Mundo do país desde 1998, um jejum de 28 anos. Na estreia, John McGinn marcou o primeiro gol escocês em Mundiais neste século, na vitória por 1 a 0 sobre o Haiti. Agora, contra um Marrocos tecnicamente superior mas construído à base de escolhas jurídicas inteligentes, os escoceses tentam se classificar.
O Que os Brasileiros com Dupla Nacionalidade Precisam Saber
A discussão sobre quem tem direito de vestir qual camisa ultrapassa o campo de futebol. O Brasil possui aproximadamente 4,2 milhões de cidadãos vivendo no exterior, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, e muitos deles — ou seus filhos nascidos fora do país — convivem diariamente com questões de cidadania e dupla nacionalidade.
A Constituição Federal brasileira, em seu Artigo 12, § 4º, inciso II, proíbe a perda da nacionalidade brasileira em dois casos específicos:
- Quando a outra nacionalidade foi imposta por lei estrangeira como condição para o brasileiro permanecer no exterior ou exercer direitos civis;
- Quando a legislação do país estrangeiro reconhece a nacionalidade do filho de brasileiro nascido naquele território.
Isso significa que o filho de brasileiros nascido nos Estados Unidos, em Portugal, na Alemanha ou em qualquer país que adote o jus soli (direito do solo) pode, em muitos casos, manter os dois passaportes legalmente.
Porém, esse direito não é automático. É necessário registrar o nascimento no consulado brasileiro competente, providenciar a Certidão de Nascimento no Exterior (CRE) e, dependendo do país de residência, iniciar pedido de naturalização sem que isso implique a perda da cidadania brasileira.
As informações aqui apresentadas têm caráter informativo e não substituem a consulta com um advogado especializado em direito internacional ou de cidadania.
Quando Consultar um Advogado Especializado?
A legislação é clara em tese, mas os procedimentos consulares e os trâmites junto ao Itamaraty podem ser complexos para quem não tem familiaridade com o Direito Internacional Privado. Uma análise equivocada pode resultar na perda involuntária da cidadania brasileira ou na impossibilidade de regularizar a situação de um filho nascido no exterior.
Procure um advogado especializado nos seguintes casos:
- Filho nascido fora do Brasil não registrado no consulado dentro do prazo legal;
- Brasileiros que adquiriram outra nacionalidade e têm dúvida sobre se mantiveram o passaporte verde;
- Atletas ou profissionais que precisam escolher em qual país exercer direitos trabalhistas ou qual seleção representar;
- Questões de herança e patrimônio que envolvem bens em mais de um país;
- Naturalização em andamento em país estrangeiro, sem certeza sobre o impacto na cidadania brasileira.
O Expert Zoom conecta você a advogados especializados em direito de cidadania e imigração que podem analisar seu caso de forma personalizada. Uma consulta preventiva pode poupar anos de burocracia — e evitar a perda de um direito fundamental.
A Copa Revelou o Que a Lei Já Permite
O duelo entre Escócia e Marrocos no Grupo C da Copa 2026 é um laboratório ao vivo das regras de elegibilidade da FIFA — um tema que toca diretamente milhões de brasileiros espalhados pelo mundo. Se Bouaddi trocou de seleção semanas antes do torneio, se Brahim Díaz reverteu uma convocação pela Espanha e se irmãos jogam por países diferentes, é porque o regulamento permite — e a orientação jurídica certa faz toda a diferença.

Joao Souza