Miguel Almirón se tornou, no dia 19 de junho de 2026, o primeiro jogador na história da Copa do Mundo a ser expulso pelo chamado "Protocolo Vini Jr" — a nova regra da FIFA que pune com cartão vermelho direto qualquer jogador que cubra a boca em situação de confronto com um adversário. A expulsão ocorreu aos 45+3 minutos do primeiro tempo de Turquia x Paraguai, no Levi's Stadium, em Santa Clara. Para o Brasil, que acompanhou de perto o caso que originou a regra, a cena foi estranha e familiar ao mesmo tempo — e levantou uma questão que poucos torcedores conhecem: o que acontece agora com o jogador expulso?
A regra que nasceu do caso de Vini Jr
A norma foi criada pelo International Football Association Board (IFAB) após um episódio que chocou o futebol durante a UEFA Champions League 2025-26: o atacante Vinícius Júnior, do Real Madrid, denunciou que o jogador Gianluca Prestianni, do Benfica, teria proferido insultos racistas enquanto cobria a boca para esconder o que dizia de câmeras e leitores labiais.
O IFAB agiu rapidamente. A partir da Copa 2026, ficou estabelecido que cobrir a boca durante qualquer situação de confronto com um adversário em campo é passível de expulsão imediata, independentemente do que tenha sido dito. A lógica é simples: se não há nada de errado no que está sendo falado, não há razão para esconder.
No Brasil, a regra foi amplamente celebrada como uma vitória contra o racismo no futebol — e Vini Jr foi saudado como peça fundamental nessa mudança. O que poucos imaginavam é que a primeira vítima da norma seria um jogador paraguaio, não um infrator reincidente, mas alguém que pode simplesmente ter agido por impulso.
O que aconteceu no jogo Turquia x Paraguai
Aos 45+3 minutos, após uma disputa de bola próximo ao meio de campo, Almirón cobriu a boca ao se dirigir ao lateral-direito turco Mert Müldür. O árbitro, aplicando o regulamento à risca, exibiu o cartão vermelho direto — o que qualificou a expulsão como a primeira sob essa regra em toda a história das Copas do Mundo.
Jogar o segundo tempo inteiro com dez homens seria um cenário difícil para qualquer equipe. O Paraguai, porém, surpreendeu: logo aos 64 segundos da segunda etapa, o jovem Galarza marcou o que se tornou o gol mais rápido desta Copa 2026. Placar final: Paraguai 1, Turquia 0.
Almirón, além de ter deixado a partida prematuramente, cumpre automaticamente uma suspensão de pelo menos um jogo — desconto aplicado a todo cartão vermelho direto em competições da FIFA.
Almirón pode recorrer? O processo disciplinar da FIFA explicado
Sim, o jogador tem direito a recorrer. O Código Disciplinar da FIFA, que regula todas as sanções em competições internacionais, prevê um caminho estruturado:
1. Recurso ao Comitê Disciplinar da FIFA: A federação paraguaia pode apresentar contestação formal em até 24 horas após a expulsão. O comitê analisa se a regra foi corretamente aplicada — em especial, se o contexto era realmente confrontacional.
2. Comitê de Apelações da FIFA: Se o primeiro recurso for negado, existe uma segunda instância interna antes de sair da estrutura da própria federação.
3. CAS — Divisão Ad Hoc do Torneio: Para decisões durante competições em andamento, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS/CAS) mantém uma câmara especial chamada Divisão Ad Hoc, capaz de julgar recursos em até 24 horas. É o mecanismo mais ágil para obter uma decisão durante a Copa.
O argumento central do recurso de Almirón seria questionar se a situação era genuinamente "confrontacional" ou apenas uma discussão acalorada de jogo. A regra foi criada para punir insultos camuflados, não qualquer conversa em campo. Esse é o ponto jurídico mais sensível — e onde a atuação de um advogado especializado em direito esportivo pode ser determinante.
Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo. Em casos reais envolvendo disputas disciplinares no futebol, consulte um profissional de direito desportivo.
O que jogadores e comissões técnicas brasileiras precisam saber
Assim como as regras de dupla nacionalidade da FIFA impõem obrigações que atletas precisam conhecer antes do torneio, o Código Disciplinar também contém normas cujo desconhecimento não isenta de punição. Para quem representa o Brasil na Copa 2026, alguns pontos são essenciais:
- A regra é objetiva: o árbitro não precisa comprovar que houve insulto. A combinação de "cobertura de boca" + "situação de confronto" já é suficiente para a expulsão.
- O contexto cultural não é atenuante perante a FIFA. Brasileiros têm uma comunicação mais gestual e expressiva — isso não protege nenhum atleta da aplicação da norma.
- Comissões técnicas devem incluir o tema em treinamentos. Assim como se trabalha o comportamento em cobranças de pênalti ou lances de falta, agora é necessário treinar como se comportar em discussões em campo.
- A regra vale exclusivamente no campo de jogo. Comunicação técnica entre treinadores e atletas fora do campo segue regulamentos próprios.
Quando um advogado esportivo faz a diferença
A expulsão de Almirón ilustra bem as situações em que um advogado especializado em direito esportivo agrega valor real:
- Recurso disciplinar: elaborar a petição com argumentação jurídica sólida para contestar a sanção diante da FIFA, do Comitê de Apelações ou do CAS, com prazos curtíssimos e exigências formais específicas.
- Análise de contratos com cláusulas de suspensão: patrocinadores e clubes frequentemente incluem dispositivos que permitem rescisão ou redução de pagamento em caso de punição disciplinar. Um advogado pode identificar esses riscos antes que eles se materializem.
- Proteção de imagem: uma expulsão que vira manchete global pode gerar danos à reputação do atleta. Direito de resposta, gestão de redes e proteção de imagem comercial também são campos de atuação do direito esportivo.
No futebol moderno, onde contratos milionários convivem com regulamentos cada vez mais rígidos, contar com assessoria jurídica especializada deixou de ser luxo para ser necessidade. Se você é atleta, agente ou gestor e precisa entender melhor seus direitos no sistema disciplinar da FIFA, um advogado com experiência em direito desportivo internacional pode fazer toda a diferença.

Joao Souza