Ayase Ueda marcou 2 gols e uma assistência na goleada do Japão por 4 a 0 sobre a Tunísia em 21 de junho de 2026 — a partida de número 1.000 na história das Copas do Mundo. Para os 1,5 milhão de brasileiros de ascendência japonesa, a atuação do centroavante do Feyenoord reacendeu uma dúvida antiga: poderiam eles — ou seus filhos atletas — jogar pela seleção do Japão?
Ayase Ueda: o artilheiro que dominou o milésimo jogo da Copa
A partida entre Japão e Tunísia ficará marcada na história do futebol mundial por dois motivos. Foi o 1.000º jogo na história das Copas do Mundo e foi a noite em que Ayase Ueda se consagrou como o grande nome da seleção japonesa em 2026.
Aos 30 minutos do primeiro tempo, Ueda chutou de fora da área: a bola passou pelas pernas de um defensor e entrou no canto do goleiro tunisiano Aymen Dahmen. No segundo tempo, aos 83 minutos, completou a dobradinha com uma cabeçada precisa após cruzamento de Kaishu Sano. Ainda deu assistência para Jun'ya Itō fechar o placar em 4 a 0. Ueda foi eleito o melhor jogador em campo e o Japão chegou a 4 pontos no Grupo F, empatado com a Holanda na liderança.
O Brasil tem 1,5 milhão de razões para acompanhar esse assunto
O Brasil abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão. São aproximadamente 1,5 milhão de pessoas de ascendência nipônica — filhos, netos e bisnetos dos imigrantes que chegaram entre 1908 e 1970 —, concentradas principalmente em São Paulo, Paraná e Pará.
Para muitos desses brasileiros nikkeis, torcer pelo Japão e pelo Brasil ao mesmo tempo é uma experiência de vida. E para pais de jovens atletas talentosos, a pergunta é cada vez mais concreta: se meu filho tem sangue japonês, ele pode ser convocado pela seleção japonesa?
A resposta é: depende. E as regras são mais complexas do que parecem.
O que diz a FIFA sobre elegibilidade para seleções nacionais
As condições de elegibilidade estão no Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores, publicado nos documentos oficiais da FIFA. O artigo 5º estabelece que um jogador pode representar a seleção de um país se atender ao menos uma destas condições:
- Nasceu no território desse país
- Seu pai ou avô paterno nasceu nesse país
- Viveu no país por pelo menos 5 anos consecutivos após os 18 anos de idade
- Possui a nacionalidade desse país
Para descendentes brasileiros com raízes japonesas, o segundo critério costuma ser o mais acessível: se o pai ou avô nasceu no Japão, há base jurídica para solicitar a elegibilidade esportiva junto à Associação Japonesa de Futebol (JFA) e à FIFA.
Mas atenção: elegibilidade esportiva e cidadania civil são processos distintos. Ter ascendência japonesa não garante automaticamente o direito de vestir a camisa da seleção — é necessário seguir um processo formal, com documentação e aprovação das entidades competentes.
5 perguntas que um advogado deve responder antes de você solicitar elegibilidade pelo Japão
1. Minha ascendência está devidamente documentada?
A JFA e a FIFA exigem documentação comprobatória do vínculo com o Japão: certidão de nascimento do avô ou pai nascido no território japonês, apostilada e traduzida juramentada. Lacunas documentais são a principal causa de rejeição de solicitações. Um advogado especializado em direito esportivo internacional pode ajudar a identificar e validar os documentos necessários antes de iniciar o processo.
2. Já joguei por outra seleção? Isso me bloqueia?
Partidas em categorias de base — sub-15, sub-17 ou sub-20 — não impedem, em geral, a elegibilidade pela seleção adulta de outro país, desde que o atleta faça o pedido antes de completar 21 anos e dentro das regras do artigo 9º do regulamento da FIFA. Porém, se o jogador já disputou uma partida oficial pela seleção adulta do Brasil ou de qualquer outro país, o vínculo esportivo é permanente — salvo casos específicos de naturalização. Consultar um especialista antes de qualquer ação é fundamental.
3. Preciso ter a cidadania japonesa para jogar pela seleção?
Não necessariamente. É possível ser elegível esportivamente com base na ascendência, sem possuir o passaporte japonês. No entanto, ter a cidadania simplifica o processo e amplia os direitos do atleta em solo japonês. A lei de nacionalidade japonesa (Lei nº 147 de 1950) permite adquirir a cidadania por descendência paterna ou materna até a segunda geração — e um advogado pode avaliar qual caminho é mais eficiente para cada caso concreto.
4. Quanto tempo leva e quais são os custos do processo?
O processo formal costuma levar entre 3 e 6 meses, dependendo da complexidade da documentação e do tempo de resposta das entidades. Envolve tradução juramentada, apostilamento internacional, formulários específicos da JFA e aprovação da FIFA. Erros formais — como certidões sem apostila de Haia ou traduções inadequadas — podem atrasar ou inviabilizar o pedido. A orientação de um profissional do direito reduz significativamente esses riscos.
5. Quais são as consequências se eu tentar burlar as regras?
Apresentar documentação falsa, omitir partidas disputadas anteriormente ou alegar ascendência não comprovada são infrações graves ao regulamento da FIFA. As penalidades incluem suspensão do atleta, anulação de resultados da equipe e processos administrativos junto às entidades. Agir com transparência e amparado por orientação jurídica é, além de eticamente correto, estrategicamente inteligente.
A janela de oportunidade para os nikkeis nunca esteve tão aberta
A Copa do Mundo 2026 está sendo, até agora, a melhor campanha da história do Japão em Mundiais. Com Ayase Ueda artilhando, Daichi Kamada criando e um coletivo tecnicamente sólido, a seleção japonesa demonstra que chegou para figurar entre as potências do futebol global.
Para jovens atletas brasileiros com ascendência japonesa, esse momento é uma janela de oportunidade real. A JFA investe na identificação de talentos nikkei no Brasil, Argentina e Peru — jogadores formados no exigente futebol sul-americano, capazes de agregar ao projeto japonês. Não por acaso, a história já registra nomes de brasileiros que vestiram a camisa azul do Japão graças a essa via.
Se você tem essa herança e esse sonho — ou conhece um atleta nessa situação —, o primeiro passo não é entrar em contato com clubes japoneses. É sentar com um advogado especializado em direito esportivo e entender com clareza se as portas estão abertas — e como abri-las corretamente.
Casos mais complexos, como os de atletas que já disputaram partidas por equipes nacionais e questionam sanções da FIFA, reforçam ainda mais a necessidade de acompanhamento jurídico especializado desde o início do processo.
Aviso legal: As informações deste artigo são de caráter informativo e não substituem a consulta a um advogado habilitado. As regras de elegibilidade da FIFA podem sofrer atualizações, e cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional do direito esportivo.

Joao Souza