Mais de 1.000 casos confirmados ou suspeitos de shigelose e outras infeções gastrointestinais foram registados em turistas que regressaram de Cabo Verde a países da UE, Reino Unido e EUA desde setembro de 2022. Em fevereiro de 2026, o Reino Unido emitiu um alerta formal de viagem para a ilha do Sal — e quatro turistas britânicos morreram após visitar a ilha.
O que está a acontecer em Cabo Verde: os factos
O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) publicou atualizações epidemiológicas sobre o surto, confirmando a transmissão alimentar ou hídrica como causa principal. Os números são significativos:
- 766 casos confirmados de Shigella sonnei em turistas regressados a países da UE/EEE entre setembro de 2022 e março de 2026
- 158 casos confirmados no Reino Unido desde outubro de 2025
- 4 turistas britânicos mortos após visita à ilha do Sal nos últimos meses
A região mais afetada é Santa Maria, na ilha do Sal, e os casos estão ligados a um complexo hoteleiro nessa área. Entre os países com mais casos contam-se o Reino Unido (263), a Suécia (120), a Alemanha (92), a França (67) e os Países Baixos (64).
O governo de Cabo Verde, pelo contrário, nega oficialmente a existência de um surto ativo. O ministro da Saúde declarou a 3 de fevereiro de 2026 que "não há surto ativo de shigelose no Sal" — posição mantida apesar das evidências internacionais.
O que é a shigelose e como se transmite
A shigelose é uma infeção bacteriana causada pela Shigella sonnei, um bacilo gram-negativo que provoca diarreia bacteriana (disenteria). É uma das doenças gastrointestinais mais contagiosas — basta uma dose infetante muito baixa para causar doença.
Vias de transmissão:
- Água ou alimentos contaminados (transmissão feco-oral)
- Contacto direto pessoa-a-pessoa (higiene das mãos deficiente)
- Superfícies contaminadas (puxadores, talheres em buffets)
Sintomas principais:
- Diarreia com sangue ou muco (sinal clássico de disenteria bacteriana)
- Dores abdominais intensas com cólicas
- Febre (habitualmente 38-40°C)
- Náuseas e vómitos
- Urgência fecal frequente
- Início rápido: 1-4 dias após exposição
A Shigella sonnei não se transmite pelo ar nem por contacto casual. Mas em contextos de hotelaria com buffets partilhados, piscinas e serviços de catering intensivos, o risco de exposição é real.
Aviso médico (YMYL): Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento médico profissional. Em caso de sintomas, consulte um médico ou ligue para a linha SNS 24 (808 24 24 24).
Quem está em risco? Grupos vulneráveis a vigiar
A maioria das pessoas saudáveis recupera sem tratamento antibiótico em 5-7 dias, mas a shigelose pode ser grave ou fatal em:
- Crianças pequenas (especialmente menores de 5 anos) — desidratação rápida
- Idosos — sistema imunitário menos eficaz
- Imunodeprimidos — VIH, cancro, transplantados
- Grávidas — risco acrescido de complicações
- Viajantes sem imunidade prévia — adultos saudáveis que nunca foram expostos
Para estes grupos, a hospitalização pode ser necessária, especialmente se houver sinais de desidratação grave ou complicações como a síndrome hemolítico-urémica (rara, mas associada a infeções por Shigella).
O que fazer antes de viajar para Cabo Verde
O ECDC e a Agência de Saúde do Reino Unido (UKHSA) publicaram recomendações claras para viajantes. As principais medidas preventivas são:
Higiene alimentar e hídrica:
- Beba apenas água engarrafada ou fervida, incluindo para escovar os dentes
- Evite cubos de gelo em bebidas (podem ser feitos com água da torneira)
- Prefira alimentos bem cozinhados e servidos quentes
- Evite saladas, frutas não descascadas por si próprio e alimentos de buffet à temperatura ambiente
- Não coma marisco cru ou mal cozinhado
Higiene pessoal:
- Lave as mãos com sabão por pelo menos 20 segundos após usar a casa de banho e antes de comer
- Use desinfetante de mãos à base de álcool como complemento (não substituto)
- Evite contacto direto com pessoas com sintomas gastrointestinais
Antes de partir:
- Consulte um médico especializado em medicina de viagem ou um clínico geral para avaliar o seu risco individual
- Informe-se sobre se o hotel ou resort onde vai ficar tem estado associado a casos relatados
Se tem dúvidas sobre a segurança da viagem ou quer uma avaliação médica antes de partir, pode consultar um médico online através da Expert Zoom para uma primeira avaliação.
O que fazer se adoecer durante ou após a viagem
Durante a viagem:
- Repouse e hidrate-se intensamente com soluções de reidratação oral (disponíveis em farmácias locais)
- Não tome antidiarreicos como loperamida sem indicação médica — podem agravar a infeção bacteriana ao reter a bactéria no organismo
- Consulte um médico no destino se a diarreia for com sangue ou se tiver febre alta
- Informe a unidade de saúde dos alimentos e locais onde comeu
Após regressar:
- Se desenvolver sintomas nas 2 semanas seguintes ao regresso de Cabo Verde, consulte um médico e informe que viajou para a ilha do Sal
- O médico pode pedir uma coprocultura para identificar o agente bacteriano
- A shigelose é de notificação obrigatória em Portugal — o seu médico deve reportá-la às autoridades de saúde
Já há mais de 1.000 casos registados em turistas que visitaram o mesmo destino. Isso não é coincidência — é um padrão epidemiológico documentado pelo ECDC.
Consulte também: Shigelose em Cabo Verde: sintomas, riscos e quando consultar um médico
O surto vai continuar? O que dizem os especialistas
O London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) publicou um comentário de especialistas a alertar para a continuação do risco enquanto não forem identificadas e corrigidas as falhas sanitárias na origem. O ECDC mantém vigilância ativa e continua a receber novos casos reportados.
O facto de o governo cabo-verdiano negar a existência de um surto formal cria uma lacuna de informação preocupante para viajantes. As famílias dos quatro britânicos falecidos avançaram com ações legais contra as autoridades cabo-verdianas — o que sugere que o desfecho legal deste caso ainda está por escrever.
Para quem já reservou viagem para Cabo Verde, a decisão de cancelar ou avançar deve ser tomada com base em informação médica atualizada — e não apenas nas declarações do governo do destino.
