Suzana Alves, eternizada como Tiazinha no programa H do final dos anos 1990, voltou ao centro do debate em maio de 2026 ao lançar o livro Por Trás da Máscara — 21 dias de cura para você encontrar sua verdadeira identidade e ser entrevistada por Danilo Gentili no The Noite. Aos 47 anos, a apresentadora reinventou a própria trajetória profissional ao menos quatro vezes, segundo entrevista publicada pela revista CARAS: hoje atua como escritora, padeira artesanal de fermentação natural, estudante de psicologia e influenciadora digital de espiritualidade. O caso reacendeu, no Brasil, a discussão sobre saúde mental, identidade adulta e os custos psicológicos de mudanças de carreira após os 40.
Pesquisa publicada em maio de 2026 pela Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) indica que 62% dos brasileiros entre 40 e 55 anos consideram mudar de profissão nos próximos cinco anos, mas apenas 18% buscam apoio psicológico antes da transição. Especialistas alertam que reinventar-se sem acompanhamento aumenta em até três vezes o risco de quadros depressivos e crises de identidade. A história de Suzana, embora marcada por exposição midiática extrema, ilumina padrões que afetam profissionais comuns também.
O peso da identidade pública na saúde mental
Em entrevista ao programa do SBT, Suzana relatou ter levado mais de duas décadas para se desvincular da personagem Tiazinha. "A máscara virou um peso. Eu deixei de ser Suzana para ser uma fantasia que outras pessoas projetavam em mim", disse. Esse fenômeno é chamado em psicologia clínica de fusão de identidade, descrito pelo psiquiatra americano Erik Erikson ainda nos anos 1960 e atualizado por pesquisadores brasileiros nas últimas décadas.
A fusão acontece quando o papel profissional se confunde com a identidade pessoal a ponto de a pessoa não saber mais quem é fora dele. Em casos extremos, o desligamento do papel — por aposentadoria, demissão ou simples mudança de fase — desencadeia quadros de:
- Crise de identidade (perda de referência sobre quem se é);
- Depressão reativa (resposta emocional a uma perda real);
- Ansiedade generalizada (preocupação constante com o futuro);
- Síndrome do impostor ao iniciar uma nova carreira.
3 lições da reinvenção de Suzana para quem busca recomeçar
1. Reconhecer o ciclo encerrado antes de iniciar o próximo
Suzana só conseguiu publicar o livro após aceitar, em terapia, que a fase Tiazinha havia terminado. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) recomenda que mudanças de carreira sejam precedidas por um período de avaliação, idealmente com apoio profissional. Tentar iniciar algo novo sem encerrar o ciclo anterior costuma gerar sabotagem inconsciente.
2. Buscar formação formal, não apenas reinvenção intuitiva
A apresentadora cursa atualmente faculdade de psicologia, decisão que ela explicou ao próprio Danilo Gentili como uma forma de dar base científica ao trabalho de autoconhecimento que vinha fazendo por conta própria. Especialistas alertam que reinventar-se profissionalmente exige qualificação formal — não basta seguir intuição. Bolsas EAD e cursos de extensão em universidades públicas são alternativas acessíveis.
3. Aceitar que mudança de status financeiro faz parte do processo
Em julho de 2025, Suzana anunciou o fim do casamento com o ex-tenista Flávio Saretta. Mudanças simultâneas de carreira e estado civil podem reduzir significativamente a renda familiar no curto prazo. Planejamento financeiro com profissional especializado evita que o impacto material agrave o estresse emocional da transição.
Quando procurar ajuda profissional
Nem toda mudança de carreira exige acompanhamento psicológico, mas há sinais de alerta que indicam necessidade de ajuda:
- Insônia recorrente por mais de duas semanas;
- Perda de apetite ou ganho rápido de peso;
- Isolamento social progressivo;
- Pensamentos recorrentes sobre o passado;
- Sensação de vazio mesmo nas conquistas;
- Crises de choro sem motivo aparente.
Diante desses sintomas, a recomendação é procurar um psicólogo clínico ou psiquiatra. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento é gratuito e pode ser solicitado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município. O Centro de Valorização da Vida (CVV) mantém atendimento gratuito 24 horas pelo telefone 188 para casos de crise emocional aguda.
Reinvenção em outras profissões: padrões similares
A trajetória de Suzana não é exclusiva de celebridades. Profissionais que construíram décadas de carreira em uma área e desejam migrar para outra — médicos que viram artistas, advogados que viram chefs, engenheiros que viram terapeutas — relatam padrões semelhantes. A pesquisadora Maria Tereza Maldonado, em artigo publicado em 2025 no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, descreve esse processo como "migração identitária tardia" e enfatiza que o sucesso depende de três pilares:
- Tempo dedicado ao luto da carreira anterior;
- Suporte da rede afetiva (família, amigos próximos);
- Plano financeiro que permita transição sem urgência.
O livro de Suzana, dividido em 21 capítulos curtos correspondentes a 21 dias de reflexão, propõe um exercício prático para quem está nessa fase. Independentemente da fé religiosa da autora, o método de escrita reflexiva diária é validado pela psicologia cognitiva como ferramenta auxiliar — não substituta — de terapia.
Caminho prático: por onde começar
Quem se identifica com a história de Suzana pode dar passos concretos para iniciar a própria reinvenção sem cair em armadilhas:
- Agende uma consulta com psicólogo clínico para avaliação inicial;
- Faça um diagnóstico financeiro com profissional especializado para entender margem para a transição;
- Identifique mentores que já fizeram movimento semelhante;
- Estabeleça metas trimestrais em vez de mudanças bruscas;
- Documente o processo por escrito, como Suzana fez em seu livro.
A reinvenção profissional após os 40 é cada vez mais comum no Brasil, mas exige preparo emocional, financeiro e técnico. O caso da ex-Tiazinha mostra que é possível ressignificar décadas de exposição pública — mas o caminho passa, necessariamente, por consultar profissionais qualificados. Para informações oficiais sobre saúde mental, o portal do Ministério da Saúde reúne diretrizes, telefones úteis e localizadores de serviços públicos em todo o território nacional.

Gabriel Alves