Nesta sexta-feira, 25 de julho de 2026, o Estádio José Alvalade, em Lisboa, recebe um duelo de pré-temporada entre Sporting CP e AS Mônaco — e na escalação do time do Principado aparece um nome que o mundo do futebol não via em campo há mais de um ano: Paul Pogba. O meia francês cumpriu uma suspensão de 18 meses por doping e voltou ao futebol assinando um contrato de dois anos com o Monaco em junho de 2025. Mas o que aconteceu com sua carreira entre a punição e o retorno revela uma realidade que todo atleta profissional — inclusive os brasileiros — deveria conhecer antes que a situação se torne emergência.
O caso Pogba: 18 meses de banimento e quase dois anos sem renda
A história começa em setembro de 2023, quando Pogba foi suspenso provisoriamente após um controle antidoping revelar a presença de dehidroepiandrosterona (DHEA), substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (WADA). A punição inicial, decretada pelo órgão italiano em fevereiro de 2024, foi de quatro anos — o que, na prática, significava o fim da carreira aos 30 anos de idade.
Em outubro de 2024, porém, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) reduziu a pena para 18 meses, reconhecendo que a substância pode ter sido ingerida involuntariamente por meio de suplemento alimentar. Durante todo esse período, o contrato de Pogba com a Juventus foi rescindido de forma mútua — sem salário, sem clube, sem previsão de retorno. Ao assinar com o Monaco, o francês chegou a um novo capítulo, mas a conta ficou para trás: aproximadamente 21 meses sem renda do futebol e a necessidade de reconstruir a forma física praticamente do zero. Até hoje, desde que chegou ao Principado, Pogba acumula apenas 30 minutos de futebol competitivo, ainda às voltas com uma lesão na panturrilha.
O número que mais impacta qualquer atleta que acompanha esse caso: a diferença entre quatro anos de suspensão e 18 meses representou a possibilidade de uma segunda carreira. Essa diferença foi obtida no TAS — e raramente acontece sem representação jurídica especializada.
O que a legislação brasileira diz sobre atletas suspensos por doping
No Brasil, o controle antidoping é estruturado pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), vinculada ao Ministério do Esporte, seguindo o Código Mundial Antidoping da WADA com adaptações ao ordenamento jurídico nacional. A base legal que rege as relações contratuais dos atletas profissionais é a Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé), que estabelece direitos e obrigações tanto do atleta quanto do clube empregador.
Um ponto crítico que poucos atletas conhecem: uma suspensão por doping não equivale automaticamente à rescisão do contrato esportivo. A lei prevê que o contrato pode ser suspenso durante o período de punição, mas o clube não tem direito irrestrito de rescindi-lo unilateralmente sem arcar com as consequências — especialmente se a substância detectada for de natureza ambígua ou se houver evidência de ingestão involuntária.
Adicionalmente, a reforma do Código Mundial Antidoping de 2021 — que o Brasil adotou em sua integralidade — passou a dar peso muito maior à análise de culpa do atleta. Casos de ingestão não intencional por suplementos contaminados passaram a ser tratados com maior flexibilidade, com penas que podem ser reduzidas significativamente quando o atleta comprova a ausência de intenção. Exatamente o que aconteceu com Pogba.
O papel do advogado esportivo: quando entrar em campo faz toda a diferença
O que a trajetória de Pogba torna evidente é que a qualidade da assessoria jurídica recebida no momento certo é determinante para o desfecho de uma punição por doping. Três frentes de atuação são fundamentais:
Produção de provas desde o primeiro dia. A janela entre a notificação do teste positivo e o início do processo disciplinar é estreita. Um advogado esportivo experiente sabe que é necessário colher imediatamente laudos dos suplementos utilizados, notas fiscais de compra, histórico de exames e depoimentos de nutricionistas e comissão técnica. Cada prova descartada nessa fase é uma chance de redução de pena perdida para sempre.
Recurso ao TAS: um instrumento subestimado. O Tribunal Arbitral do Esporte, em Lausanne, é a última instância para disputas esportivas internacionais — e é acessível a qualquer atleta, não apenas aos europeus. O caso de Pogba mostra que a diferença entre quatro anos e 18 meses pode ser uma peça técnica bem elaborada e apresentada no tempo correto.
Negociação contratual estratégica durante a suspensão. Atletas suspensos tendem a aceitar rescisões sob pressão emocional e financeira, sem avaliar se o contrato previa indenizações, se o clube descumpriu obrigações de prevenção (como fornecer suplementos não certificados) ou se os direitos de imagem, separados do vínculo esportivo, podem continuar gerando renda durante o período de punição.
Situações similares no Brasil — como o caso de Léo Pereira ao deixar o Flamengo e enfrentar questões tributárias na Europa — mostram que o atleta profissional lida cada vez mais com complexidades jurídicas e fiscais que exigem especialização.
Caso concreto: o atleta da Série B que perdeu R$ 480 mil por falta de assessoria
Pense em um jogador de 27 anos, titular absoluto de um clube da Série B do Campeonato Brasileiro, com salário mensal de R$ 20.000. Em fevereiro de 2026, é notificado de um teste positivo para clostebol — substância anabolizante detectada em um creme antibiótico de uso comum, vendido em farmácia, que o atleta utilizou para tratar um corte no braço.
Sem assessoria jurídica especializada: O atleta não sabe que o clostebol, nesse contexto, é enquadrado como "ingestão não intencional" pelo Código Mundial Antidoping reformado. Aceita a suspensão de dois anos imposta pelo clube. Rescinde o contrato com a equipe sem exigir indenização. Fica 24 meses sem salário: R$ 480.000 de renda perdida. Ao retornar, descobre que sua posição foi preenchida e que nenhuma equipe competitiva demonstra interesse imediato.
Com advogado esportivo no primeiro dia: O advogado documenta o histórico de uso do produto, obtém laudo laboratorial comprovando a via de administração tópica (não oral) e apresenta precedentes do TAS com penas reduzidas para zero a seis meses em casos idênticos. A punição é reduzida para quatro meses. O contrato com o clube é apenas suspenso — não rescindido — e o atleta retorna às partidas ainda na temporada 2026. Salário perdido: R$ 80.000 (4 meses). Diferença: R$ 400.000 e uma carreira preservada.
Se o creme tivesse sido fornecido pelo próprio clube — hipótese recorrente em equipes que distribuem suplementos sem certificação antidoping — o atleta ainda poderia entrar com ação de regresso contra a entidade esportiva, recuperando parte dos valores não recebidos durante a suspensão.
Sporting x Monaco, um amistoso com mais em jogo do que o placar
O Sporting chega a este amistoso de pré-temporada em grande fase: três jogos, três vitórias, incluindo um 7 a 0 sobre o Strasbourg e um 4 a 1 sobre o Celtic. O Monaco jogou apenas uma partida preparatória antes deste encontro. Em campo, o Sporting é favorito.
Mas o jogo mais importante para qualquer atleta brasileiro que assiste a esta tarde em Lisboa acontece nos bastidores: a presença de Pogba no aquecimento, na escalação e — esperamos — no campo, é a prova concreta de que é possível reconstituir uma carreira depois de uma punição por doping, desde que haja as decisões certas no momento certo.
No Brasil, onde o profissionalismo esportivo cresce em modalidades além do futebol — vôlei, atletismo, natação, MMA — a cultura de proteção jurídica preventiva ainda engatinha. Casos de doping inadvertida, por uso de suplementos sem certificação ou medicamentos comuns contendo substâncias proibidas, são mais frequentes do que o noticiário sugere. A maioria é resolvida sem recurso ao TAS, com punições aceitas sem questionamento — e sem a assessoria que poderia mudar o desfecho.
A lição do caso Pogba não é apenas sobre o futebol europeu. É sobre o que qualquer atleta profissional — de Belém do Pará ao interior de São Paulo — pode fazer quando conta com suporte especializado desde o primeiro dia.
Aviso legal: este artigo tem caráter informativo e não substitui o aconselhamento jurídico especializado. Em caso de notificação por infração antidoping ou disputas contratuais, consulte imediatamente um advogado especialista em direito esportivo.

Joao Souza