Léo Pereira rumo à Europa: o que muda no imposto de quem deixa o Brasil

Consultor de patrimônio analisa documentos fiscais internacionais, passaporte brasileiro e notas de euro e real sobre a mesa
Jose Jose SantosGestão de Patrimônio
5 min de leitura 15 de julho de 2026

O futuro de Léo Pereira agitou os bastidores do Flamengo nesta semana de julho de 2026, com o zagueiro no centro de negociações que podem levá-lo ao futebol europeu. Segundo apurações da imprensa esportiva, o Besiktas, da Turquia, apresentou uma proposta de cerca de 6 milhões de euros — aproximadamente R$ 35 milhões — pelo defensor, enquanto o AS Monaco, agora comandado por Filipe Luís, também surge como destino provável. O jogador tem contrato com o clube carioca até dezembro de 2027.

Por trás do noticiário esportivo existe uma questão que atinge qualquer brasileiro que se muda para o exterior com patrimônio relevante: a saída do país não é apenas uma mudança de mala e endereço. Ela dispara obrigações fiscais, decisões de investimento e riscos que, se ignorados, custam caro. O caso de Léo Pereira é um lembrete oportuno de que planejar a transição financeira importa tanto quanto negociar o salário.

O que está em jogo na transferência

A movimentação começou quando o repórter turco Çınar Yücekurt informou que o Besiktas teria chegado a um acordo verbal com o zagueiro. Fontes ligadas ao Flamengo, no entanto, consideram a saída para a Turquia "muito improvável" e afirmam que o clube não trabalha com a possibilidade de negociar um dos pilares do sistema defensivo nesta janela.

Em paralelo, cresceu a expectativa de uma ida ao AS Monaco. Filipe Luís assumiu o comando do clube do Principado no início de julho de 2026 e passou a participar diretamente do planejamento do elenco, voltando a apostar em atletas com quem conviveu na Gávea. O destino, se confirmado, é simbólico: Mônaco é um dos territórios mais associados a regimes fiscais favoráveis da Europa.

Sair do Brasil muda toda a sua vida tributária

Quando um brasileiro transfere sua residência para outro país de forma permanente, ele precisa comunicar a mudança à Receita Federal. O procedimento envolve a Comunicação de Saída Definitiva do País e, no ano seguinte, a Declaração de Saída Definitiva. Sem esses passos, a pessoa continua sendo tratada como residente fiscal no Brasil — e obrigada a declarar e, em muitos casos, pagar imposto sobre a renda mundial, inclusive o salário recebido no exterior.

O erro é comum entre quem muda com pressa. Um atleta que assina com um clube europeu em julho pode receber os primeiros vencimentos ainda tratado como residente brasileiro, gerando dupla exposição tributária. Como orienta a Receita Federal, a formalização da saída define a partir de quando o contribuinte deixa de responder pela tributação de residente. As regras estão disponíveis no portal oficial da Receita Federal.

A conta ainda inclui a análise de acordos para evitar a bitributação. O Brasil mantém tratados com dezenas de países que definem qual nação tem prioridade para cobrar imposto sobre determinada renda. Turquia e França — onde fica sediado o campeonato que abriga o Monaco — têm regras próprias que precisam ser cruzadas com a legislação brasileira antes de qualquer assinatura.

Por que um gestor de patrimônio entra em campo

É nesse ponto que o trabalho técnico de um profissional de gestão de patrimônio faz diferença. Não se trata apenas de calcular imposto, mas de estruturar o patrimônio para a nova realidade. Entre as decisões que costumam surgir estão:

  • Residência fiscal: definir o momento exato da saída e evitar sobreposição de obrigações entre Brasil e o país de destino.
  • Renda no exterior: organizar como o salário e os bônus serão recebidos, convertidos e tributados, considerando a variação cambial.
  • Bens no Brasil: imóveis, aplicações e participações societárias mantidos no país continuam sujeitos a regras específicas mesmo após a saída.
  • Sucessão e proteção: contratos de imagem, direitos e recebíveis de longo prazo exigem estruturas que resistam a mudanças de jurisdição.

Para um atleta, a janela de altos rendimentos é curta. Um erro de estruturação nos primeiros anos fora do país pode comprometer o resultado de uma carreira inteira. Mas o raciocínio vale para qualquer profissional — executivos, médicos, empreendedores — que recebe uma oferta no exterior e precisa decidir rápido.

Mônaco e o mito do "paraíso fiscal" simples

A associação entre Mônaco e ausência de impostos é real, mas incompleta. O Principado não cobra imposto de renda sobre pessoas físicas na maioria dos casos, o que atrai atletas e executivos de alto padrão. Ainda assim, o brasileiro que se muda para lá continua tendo de acertar as contas com o Brasil sobre o período de residência e sobre bens mantidos no território nacional. O ambiente internacional também caminhou para mais transparência, com troca automática de informações financeiras entre países, tema detalhado nas novas regras fiscais de Mônaco para brasileiros. Ou seja: morar em um território de baixa tributação não elimina a necessidade de planejamento — apenas muda a natureza das decisões.

O que fazer se você recebe uma oferta internacional

Poucos brasileiros vão negociar com o Besiktas, mas milhares recebem propostas de trabalho no exterior todos os anos. Os passos práticos são semelhantes:

  1. Antes de assinar, consulte um especialista em gestão de patrimônio e tributação internacional para simular o impacto fiscal do contrato.
  2. Formalize a saída junto à Receita Federal no prazo correto, para não acumular obrigações de residente e evitar problemas como os que cercam o prazo do Imposto de Renda 2026.
  3. Mapeie seus bens no Brasil e no destino e defina a estrutura mais eficiente para mantê-los ou movê-los.
  4. Revise anualmente a estratégia, já que regras cambiais, tratados e sua própria situação mudam.

Um gestor de patrimônio ajuda a transformar uma decisão tomada sob pressão — como a de um jogador em plena janela de transferências — em um plano de longo prazo. O objetivo não é fugir de imposto, e sim pagar exatamente o que é devido, no lugar certo, sem surpresas.

Enquanto o Flamengo decide se libera ou segura Léo Pereira, fica a lição para quem acompanha o caso de longe: a parte mais difícil de uma grande oportunidade internacional não é chegar lá, e sim organizar o que fica para trás.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a orientação individual de um profissional de gestão de patrimônio ou contabilidade. Regras tributárias mudam e cada situação exige análise específica.

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