Riyad Mahrez, 35 anos, capitão da Argélia com 115 jogos e 40 gols pela seleção, desperdiçou duas chances claras de marcar contra a Jordânia na Copa do Mundo 2026 — e a Argélia está virtualmente eliminada do Grupo J. O ex-atacante do Manchester City ficou cara a cara com o goleiro jordaniano em dois momentos decisivos, mas não conseguiu converter nenhum dos lances. Resultado: 0 a 0 e fim do sonho argelino no torneio que o próprio Mahrez anunciou ser o último de sua carreira.
"Esta será minha última Copa do Mundo. Não sou o Ronaldo, que tem 40 anos", declarou o craque do Al-Ahli antes do torneio. A Argélia chegou a essa situação após uma derrota por 3 a 0 para a Argentina na fase de grupos e agora depende de uma combinação improvável de resultados para avançar. O que explica que um dos jogadores mais habilidosos de sua geração, em sua Copa de despedida, não consiga converter chances que pareciam certas?
O que acontece com o corpo de um atleta de elite aos 35 anos
Do ponto de vista fisiológico, os 35 anos marcam uma fronteira importante na carreira de qualquer atleta de alto rendimento. A capacidade de recuperação muscular diminui progressivamente, com queda estimada de 15% a 20% na potência explosiva entre os 30 e os 40 anos — segundo recomendações do Ministério da Saúde do Brasil sobre atividade física e envelhecimento ativo. Isso não significa incapacidade: Mahrez registrou 4 gols e 8 assistências na temporada 2025/26 da Saudi Pro League, com média de avaliação de 7,55. Mas impacta a precisão em movimentos rápidos realizados sob pressão extrema.
A medicina do esporte classifica esse processo como sarcopenia fisiológica funcional: perda gradual de fibras musculares do tipo II, responsáveis pela velocidade e pela potência explosiva. Esse processo começa antes dos 30 anos e acelera após os 35. A boa notícia é que, com acompanhamento especializado, o declínio pode ser significativamente desacelerado — e a performance, otimizada por anos adicionais.
A armadilha emocional da despedida: pressão psicológica no esporte de elite
Além dos fatores físicos, há um componente psicológico poderoso em jogo na Copa 2026 de Mahrez. Ele chegou ao torneio sabendo que seria a última vez — e esse peso emocional tem efeitos mensuráveis na performance esportiva.
Pesquisas publicadas no Journal of Sport and Exercise Psychology documentam um fenômeno conhecido como "choking under pressure": em situações de altíssima carga emocional, o córtex pré-frontal do cérebro — área responsável por decisões finas e controle motor refinado — pode ser temporariamente suprimido pelo excesso de processamento emocional. O paradoxo dos atletas veteranos é que sua experiência acumulada também carrega o peso das despedidas que eles mesmos anunciaram.
Para Mahrez, cada finalização frustrada contra a Jordânia não era apenas um lance de Copa do Mundo. Era potencialmente o último gol que jamais marcaria em um Mundial. Essa carga não aparece nos dados físicos — mas é determinante no resultado.
5 sinais de que um atleta veterano precisa de acompanhamento médico especializado
O caso Mahrez levanta questões relevantes para qualquer esportista — profissional ou amador — que pratica atividade física intensa após os 30 anos. Especialistas em medicina do esporte identificam cinco sinais de alerta que merecem atenção imediata:
1. Queda de eficiência em gestos técnicos consolidados. Quando um atleta com histórico comprovado começa a falhar em lances que dominou durante anos, pode ser sinal de alteração neuromotora, fadiga crônica ou deficiência de vitamina D, que afeta função muscular e cognitiva simultaneamente.
2. Recuperação mais lenta entre competições. Se o corpo demora mais de 72 horas para se recuperar de um jogo ou treino moderado, a intervenção de um cardiologista esportivo e de um nutricionista especializado em atletas masters pode restaurar o ritmo de recuperação.
3. Dificuldade de concentração em momentos críticos. A fadiga de decisão é real e documentada: temporadas longas e competições de alto impacto emocional afetam a qualidade das escolhas táticas no momento decisivo. Psicólogos do esporte são indispensáveis nesse tipo de avaliação.
4. Lesões musculares de baixa intensidade que se tornam recorrentes. Microlesões que antes resolviam em 48 horas passam a persistir por uma semana inteira. Esse padrão exige avaliação de ortopedista esportivo e revisão completa do protocolo de treinamento.
5. Perda de confiança em movimentos automáticos. A confiança esportiva é parcialmente neurológica: baseia-se em memória motora. Quando um atleta questiona gestos que eram automáticos — como uma finalização cara a cara com o goleiro —, a intervenção conjunta de médico do esporte e psicólogo pode restaurar o automatismo perdido.
O legado de Mahrez além dos gols perdidos na Copa 2026
Com ou sem gol nesta Copa do Mundo, Riyad Mahrez construiu uma das carreiras mais marcantes de sua geração. Campeão da Premier League com Leicester (2016) e Manchester City, vencedor de uma Champions League pelo City em 2023, segundo maior artilheiro da história da seleção argelina e seu maior garçom de todos os tempos com 17 assistências em 115 jogos. Aos 35 anos, sua influência no jogo ainda é inegável — mas o corpo humano tem limites que nem o mais talentoso dos atletas pode ignorar indefinidamente.
Casos semelhantes são frequentes no futebol de elite: veja como Salah na Copa 2026 também enfrenta os desafios da longevidade esportiva e o que médicos recomendam para atletas de alto rendimento acima dos 33 anos.
Quando procurar um especialista em medicina do esporte?
Aviso importante: as informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem avaliação médica profissional. Atletas amadores ou profissionais que identifiquem qualquer um dos sinais descritos devem buscar orientação de um médico especializado em medicina do esporte.
Para esportistas brasileiros que praticam atividades físicas regulares e se aproximam dos 35 anos, a consulta com um médico do esporte pode transformar a relação com o próprio corpo — não apenas para prevenir lesões, mas para manter performance, prazer e longevidade na prática esportiva. A Copa do Mundo 2026 ensina que, mesmo em atletas de elite como Mahrez, o acompanhamento especializado faz toda a diferença entre uma finalização convertida e uma chance perdida no momento mais importante da carreira.

Gabriel Alves