Matheus Cunha veste a 9 na Copa 2026: o que o acordo Man United-CBF diz sobre direitos contratuais de atletas

Partida Brasil vs Egito — seleção brasileira em campo

Photo : Rodolfo Vilela / Wikimedia

Joao Joao SouzaAdvocacia
4 min de leitura 1 de junho de 2026

Matheus Cunha vai à Copa do Mundo 2026 vestindo a camisa 9 da seleção brasileira. A convocação de Carlo Ancelotti, anunciada em 18 de maio de 2026, confirmou o atacante do Manchester United como um dos nomes centrais do projeto brasileiro para o torneio nos Estados Unidos, Canadá e México. Mas o que poucos sabem é que, antes de Cunha embarcar para Granja Comary, uma negociação jurídica e contratual entre o clube inglês e a CBF precisou ser concluída — e ela revela aspectos fundamentais sobre os direitos de atletas profissionais que vão muito além do futebol.

O Manchester United e a CBF fecharam um acordo bilateral específico para a Copa 2026: um plano de gestão de carga de trabalho que define como Cunha será utilizado pela seleção, com que periodicidade terá dias de descanso obrigatório e como eventuais lesões durante o torneio serão tratadas e comunicadas ao clube. Trata-se de um modelo contratual que poucos atletas brasileiros — e seus representantes — conhecem profundamente.

O que diz o regulamento FIFA sobre liberação de jogadores

A liberação de jogadores para seleções nacionais não é uma escolha dos clubes — é uma obrigação regulatória. O Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores da FIFA (RETJ) estabelece que clubes de todo o mundo são obrigados a liberar atletas convocados para competições oficiais de seleções nacionais durante os períodos de calendário FIFA aprovados.

Para a Copa do Mundo 2026, a janela de liberação obrigatória vai de 8 de junho a 22 de julho. Nenhum clube pode legalmente impedir um jogador convocado de se apresentar à seleção durante esse período. O descumprimento pode resultar em sanções da FIFA ao clube, incluindo suspensão de atividades de registro de novos jogadores.

No entanto, o que a FIFA garante é o mínimo. Clubes e federações podem — e, nos casos de grandes atletas, devem — ir além e negociar acordos complementares que protejam todas as partes. É exatamente isso que o Manchester United fez com a CBF no caso de Matheus Cunha.

O acordo Man United-CBF: um modelo de proteção contratual

O acordo firmado entre Manchester United e CBF inclui, segundo fontes próximas à negociação, cláusulas sobre carga de treino máxima durante a fase de preparação, protocolos de comunicação imediata em caso de lesão, acesso compartilhado a dados médicos do jogador durante o torneio e definição de responsabilidades no caso de afastamento pós-Copa.

Esse tipo de acordo bilateral vai além do que qualquer atleta recebe como proteção padrão do regulamento FIFA. Ele é fruto, em grande parte, da representação jurídica qualificada que Cunha tem — e que muitos jogadores brasileiros, especialmente os que atuam em divisões inferiores da Europa ou na Série B e C do Campeonato Brasileiro, não possuem.

Como demonstra o caso documentado em /br/noticias/bernardo-silva-manchester-city-saida-contrato-livre-trabalhista-2026, a saída de atletas de alto nível para outros clubes ou para seleções envolve uma teia de cláusulas que, sem assessoria jurídica especializada, pode custar caro ao jogador.

O que atletas brasileiros precisam saber sobre seus contratos

A realidade contratual dos atletas profissionais no Brasil é regulada pelo Estatuto do Desporto (Lei 9.615/1998) e pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com as especificidades da Lei Pelé e suas atualizações. Mas conhecer a lei não é suficiente — é preciso saber negociá-la.

Segundo advogados especializados em direito desportivo, os principais pontos que atletas e seus representantes negligenciam incluem:

Cláusulas de liberação para seleção. Muitos contratos de jogadores brasileiros que atuam no exterior não especificam como a liberação para a seleção nacional será gerida. O regulamento FIFA garante o básico, mas eventuais conflitos sobre condição física, plano de retorno e responsabilidade por lesões ficam em território cinza sem uma cláusula expressa.

Responsabilidade por lesões durante jogos de seleção. Se um atleta se machuca representando o Brasil, quem arca com os custos de tratamento e com o período de afastamento? A ausência de uma cláusula clara pode gerar disputas prolongadas entre clube e federação — e o atleta fica no meio.

Cláusulas de desempenho vinculadas a metas coletivas. Bônus por título da Copa do Mundo, por participação em determinado número de jogos com a seleção ou por convocação ao torneio são itens que podem — e devem — constar no contrato do atleta com o clube. Sem essa negociação prévia, conquistas históricas podem não se traduzir em ganhos financeiros adicionais.

Proteção no retorno pós-competição. O período após grandes torneios é de alto risco para lesões — jogadores chegam exaustos de meses de competição intensa. Acordos que prevejam carga reduzida nas primeiras semanas de volta ao clube protegem tanto o atleta quanto a própria equipe.

Por que este caso importa para além do futebol

O modelo de acordo firmado entre Manchester United e CBF para Matheus Cunha não é exclusividade do futebol de elite europeu. Qualquer atleta profissional — de basquete, vôlei, natação, tênis — que represente o Brasil em competições internacionais enfrenta os mesmos desafios contratuais em escala proporcional à sua carreira.

Atletas de modalidades olímpicas, por exemplo, frequentemente dependem de patrocinadores e de federações para financiar sua participação — e os contratos com essas entidades nem sempre protegem adequadamente seus direitos de imagem, de saúde e de planejamento de carreira. O portal do Ministério do Esporte disponibiliza orientações sobre direitos de atletas de alto rendimento no Brasil, mas a assessoria jurídica individual continua sendo o instrumento mais eficaz de proteção.

Se você é atleta profissional, agente esportivo ou gestor de um clube e quer entender como estruturar contratos que protejam seus interesses em cenários de convocação, transferência ou disputas com federações, um advogado especializado em direito desportivo pode fazer a diferença entre perder e garantir o que é seu.

Este conteúdo é informativo. Para orientação jurídica específica sobre contratos esportivos, consulte um advogado especializado em direito desportivo.

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