A Jordânia deixou a Copa do Mundo 2026 pela primeira vez que nela entrou: com dignidade e cabeça erguida. Em 22 de junho de 2026, no Levi's Stadium, na Área da Baía de San Francisco, a seleção jordaniana perdeu por 2 a 1 para a Argélia em uma partida eletrizante que encerrou a passagem histórica do país por seu primeiro Mundial. O placar, porém, esconde uma história fascinante: o goleiro da Argélia era Luca Zidane — filho de Zinedine Zidane, o maior ídolo do futebol francês — representando não a França, mas a Argélia. Como isso é possível? E o que essa decisão revela sobre as regras da FIFA que todo atleta com dupla cidadania precisa entender?
A partida que eliminou a Jordânia
A Jordânia surpreendeu ao abrir o placar com Nizar Al-Rashdan no primeiro tempo, em uma finalização precisa que calou os mais de 70 mil torcedores presentes. Era a afirmação de que a estreante Copa do Mundo não viria para assistir — viria para jogar.
A Argélia, no entanto, respondeu com força na segunda etapa. Nadhir Benbouali empatou aos 68 minutos de cabeça, em escanteio cobrado por Riyad Mahrez. E Amine Gouiri deu a virada argelina aos 82 minutos, também de cabeça, em mais um escanteio. Jordan estava eliminada do torneio, encerrando sua histórica campanha em um grupo que incluía Argentina e Áustria.
No gol adversário, com uma máscara protetora no rosto — sequela de uma fratura na mandíbula sofrida em um jogo pelo Granada em abril de 2026 —, Luca Zidane fez defesas decisivas e foi um dos destaques argelinos. Mas o que mais chamou atenção foi a camisa que ele carregava: não a azul da França, mas a verde e branca da Argélia.
Por que Luca Zidane joga pela Argélia, não pela França
Luca Zidane nasceu em Paris, em 13 de maio de 1998. Formado nas categorias de base do Real Madrid — onde seu pai atuou como jogador e treinador —, passou por clubes como Lausanne, Rayo Vallecano e Granada. Nas seleções de base, representou a França. Mas nunca atuou competitivamente pelo time principal francês. Esse detalhe seria fundamental.
Em 19 de setembro de 2025, a FIFA aprovou o pedido de Luca de mudar sua associação esportiva da francesa para a argelina. A elegibilidade veio de seus avós paternos, Smaïl e Malika Zidane, nascidos na região de Cabília, no norte da Argélia. Luca explicou a dimensão afetiva da decisão: "Quando penso na Argélia, penso imediatamente no meu avô. Sempre houve cultura argelina na minha família. Conversei com ele antes de me juntar à seleção, e ele ficou muito emocionado."
A emoção é real. Mas a decisão foi também plenamente jurídica — e só foi possível porque Luca cumpriu todos os critérios exigidos pela FIFA.
O que as regras da FIFA dizem sobre mudança de seleção
Em 2021, a FIFA modernizou profundamente suas normas de elegibilidade em uma revisão descrita como a "primeira atualização abrangente" das regras. O objetivo era dar maior clareza e flexibilidade para atletas com dupla cidadania — realidade crescente no futebol globalizado. As normas vigentes estão disponíveis na plataforma oficial de mudança de associação da FIFA.
Para um atleta mudar de seleção nacional, ele precisa atender a dois requisitos simultaneamente: possuir vínculo formal com a nova associação e cumprir condições restritivas em relação à associação anterior.
Vínculo com o novo país: O atleta pode qualificar-se se nasceu naquele território, se tem pai, mãe, avó ou avô nascidos no país, ou se residiu continuamente no território da nova associação por ao menos cinco anos após os 18 anos.
Condições que limitam a mudança: O atleta não pode ter disputado mais de três jogos competitivos pelo selecionado anterior antes dos 21 anos. Não pode ter participado da fase final de uma Copa do Mundo, Copa América, Eurocopa ou torneio equivalente. E devem ter se passado pelo menos três anos desde sua última partida competitiva pelo selecionado anterior.
Luca Zidane cumpriu todos esses critérios: nunca jogou competitivamente pela equipe sênior francesa, possuía elegibilidade pela linhagem dos avós e o período de carência havia sido superado. Resultado: hoje é titular da seleção argelina numa Copa do Mundo.
As informações deste artigo são de caráter informativo geral e não substituem a consulta com um advogado especializado em direito esportivo.
O que atletas brasileiros precisam saber
O Brasil é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo. Milhares de atletas brasileiros atuam em ligas estrangeiras, e muitos constroem família e residência em outros países. Filhos de brasileiros nascidos na Europa, na Ásia ou nas Américas podem, ao crescerem, deparar-se com a mesma decisão que Luca enfrentou: representar o Brasil ou o país onde nasceram e foram formados?
Essa escolha pode parecer simples, mas esconde armadilhas legais sérias. Uma convocação aceita no momento errado pode fechar definitivamente as portas para outra seleção. Uma naturalização obtida em outro país sem planejamento prévio pode criar conflitos de elegibilidade. Até contratos com clubes podem incluir cláusulas que afetam a disponibilidade para determinadas seleções.
Da mesma forma, atletas estrangeiros com avós ou bisavós brasileiros que desejam jogar pela Seleção Canarinho precisam compreender as nuances da FIFA, o processo de pedido de mudança de associação e os documentos exigidos para comprovar o vínculo. Casos como o de dupla nacionalidade e elegibilidade FIFA em outros jogos da Copa 2026 mostram que o tema vai muito além do futebol de salão.
Quando um advogado esportivo pode mudar tudo
Existem momentos específicos em que a consulta jurídica especializada é indispensável para atletas com dupla cidadania:
- Antes de aceitar qualquer convocação por seleção que não seja a da nacionalidade principal — um jogo competitivo pode ser o suficiente para bloquear uma mudança futura;
- Ao receber proposta de naturalização em outro país, especialmente se houver ambições de representar aquela nação no futebol;
- Quando surgem conflitos de convocação entre duas federações interessadas no mesmo atleta — situação mais comum do que parece, especialmente para talentos oriundos de países com diáspora expressiva;
- No planejamento de carreira de jovens atletas com dupla cidadania — a janela de mudança por vezes fecha antes dos 21 anos.
Plataformas como o Expert Zoom conectam atletas, famílias e empresários esportivos a advogados especializados que dominam as regras da FIFA, as normas da CBF e a legislação de dupla cidadania no Brasil e no exterior. Uma consulta a tempo pode preservar o direito de o atleta escolher — como Luca Zidane escolheu a Argélia e hoje disputa uma Copa do Mundo.
A lição que a Jordânia deixa
A Jordânia encerrou sua primeira Copa do Mundo com a cabeça erguida. Seu jogo contra a Argélia, em 22 de junho de 2026, foi uma aula de resistência. E a presença de Luca Zidane no gol adversário foi um lembrete poderoso de que o futebol moderno é moldado tanto por regras jurídicas quanto por talento individual.
Para atletas e famílias, a mensagem é clara: entender as regras de elegibilidade é tão importante quanto treinar em campo. No momento certo, com a orientação certa, a escolha de uma seleção pode ser o início de uma história que vai muito além de uma partida.

Joao Souza