Bella Longuinho e a cirurgia de redesignação sexual: direitos pelo SUS e riscos de operar no exterior

Endocrinologista brasileira revisando prontuário de terapia hormonal em consultório médico
5 min de leitura 10 de junho de 2026

Bella Longuinho e a cirurgia de redesignação sexual: o que você precisa saber antes de operar no Brasil ou no exterior

Em abril de 2026, a influenciadora Bella Longuinho voltou aos trending topics do Brasil com uma publicação que acumulou milhões de visualizações: uma comparação lado a lado dos 420 dias de terapia hormonal com estrogênio, mostrando a transformação do próprio corpo. Além da repercussão nas redes sociais, a história de Isabella Longuinho — que realizou a cirurgia de redesignação sexual no Tailândia em outubro de 2025 — reacendeu um debate urgente: quando vale a pena operar no exterior, e quais são os direitos de saúde garantidos pelo SUS no Brasil?

A escolha pela Tailândia: custo versus experiência médica

Bella Longuinho revelou publicamente que pagou R$ 115.000 pela cirurgia de redesignação sexual realizada em Bangkok, na Tailândia. Em comparação, o mesmo procedimento em clínicas privadas brasileiras é cotado em torno de R$ 130.000 — uma diferença de apenas R$ 15.000. O que inclinou a balança foi a frequência com que os cirurgiões tailandeses realizam o procedimento: diariamente, enquanto no Brasil os especialistas operam a cada dois ou três meses.

A experiência acumulada importa. Em cirurgias de alta complexidade como a vaginoplastia, o número de procedimentos realizados pelo médico é um fator crítico de segurança. Segundo dados do Hospital Albert Einstein, cirurgiões com alto volume cirúrgico apresentam taxas de complicação significativamente menores em procedimentos eletivos complexos.

Bella ficou sete dias internada e mais 21 dias em recuperação na Tailândia. No total, entre passagens aéreas, hospedagem e procedimento médico, o custo total estimado foi próximo a R$ 145.000 — superando a opção brasileira privada quando todos os gastos são somados.

O direito de fazer a cirurgia pelo SUS — que muitos não sabem que existe

O que poucos conhecem é que o Sistema Único de Saúde cobre a cirurgia de redesignação sexual desde 2008, por meio da Portaria n.º 1.707 do Ministério da Saúde. Desde então, o programa foi expandido e regulamentado pela Portaria n.º 2.803/2013, que institui o Processo Transexualizador no SUS.

O programa garante:

  • Cirurgia de neocolpovaginoplastia (vaginoplastia) para mulheres trans;
  • Cirurgia de mastectomia (retirada das mamas) para homens trans;
  • Acompanhamento psicológico e psiquiátrico pré e pós-operatório;
  • Hormonoterapia com acompanhamento endocrinológico.

O atendimento é realizado em hospitais habilitados pelo Ministério da Saúde como centros de referência. No Brasil, hospitais universitários em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Goiânia fazem parte da rede. A lista completa pode ser consultada no portal do Ministério da Saúde.

A espera, no entanto, pode ser longa — em alguns centros, a fila ultrapassa dois anos. Esse é um dos motivos pelos quais pessoas como Bella Longuinho optam pela rede privada ou pelo exterior.

Terapia hormonal: o que esperar nos primeiros meses

Antes de chegar à cirurgia, a terapia hormonal com estrogênio é o passo inicial na transição de mulheres trans. Os efeitos começam a aparecer entre 1 e 3 meses após o início do tratamento e incluem:

  • Redistribuição de gordura corporal (quadris, glúteos, rosto);
  • Desenvolvimento mamário progressivo;
  • Redução da oleosidade da pele;
  • Diminuição da libido e da ereção espontânea;
  • Lentificação do crescimento de barba.

A postagem de Bella sobre "420 dias de estrogênio" mostrou exatamente essas mudanças, gerando identificação de milhares de pessoas que seguem o mesmo processo. Um médico endocrinologista deve acompanhar os exames regularmente: testosterona, estradiol, hemograma e prolactina são monitorados a cada três meses no início do tratamento.

Riscos da cirurgia no exterior: o que um especialista alerta

Após a publicação de Bella, um médico brasileiro se manifestou publicamente pedindo "atenção redobrada" a quem considera fazer a cirurgia no exterior. Os riscos reais incluem:

  • Dificuldade de acompanhamento pós-operatório: complicações surgem com frequência nas primeiras semanas. Estar no Brasil com o cirurgião longe dificulta o manejo adequado.
  • Barreira do idioma: em caso de complicações na Tailândia, a comunicação médica pode ser prejudicada.
  • Cobertura de seguro: muitos planos de saúde brasileiros não cobrem emergências relacionadas a cirurgias eletivas realizadas no exterior.
  • Dilatação vaginal pós-operatória: o processo requer acompanhamento médico por pelo menos seis meses após a cirurgia — difícil de manter quando o cirurgião está em outro país.

Uma consulta com um especialista em saúde trans antes de qualquer decisão é fundamental. O médico pode avaliar o estado de saúde geral, indicar o procedimento mais adequado, orientar sobre os riscos e indicar centros de referência — tanto no SUS quanto na rede privada.

Como trocar de nome e gênero nos documentos

Paralelo à jornada médica, existe o caminho jurídico. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que pessoas trans têm direito à mudança de nome e gênero nos documentos de identidade sem necessidade de cirurgia ou laudo médico. O processo é administrativo, feito diretamente no Cartório de Registro Civil.

Os documentos que serão atualizados incluem:

  • Registro de nascimento;
  • RG e CPF;
  • Passaporte;
  • Carteira de trabalho.

A decisão do STF foi um marco histórico e tornou o Brasil referência internacional no reconhecimento legal de identidade de gênero.

Quando procurar um especialista

Se você ou alguém próximo está considerando iniciar uma transição de gênero, a orientação especializada faz diferença em cada etapa:

  • Endocrinologista com experiência em saúde trans — para iniciar e monitorar a hormonoterapia;
  • Psicólogo ou psiquiatra — para acompanhamento emocional e, se necessário, emissão de laudos;
  • Cirurgião especialista em redesignação sexual — para avaliar elegibilidade e indicar o melhor momento para a cirurgia;
  • Advogado — para orientar sobre mudança de documentos, direitos no trabalho e planos de saúde.

Na plataforma Expert Zoom, você pode encontrar especialistas em saúde disponíveis para consultas online, o que facilita o acesso a médicos experientes independentemente da sua cidade.

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Decisões relacionadas a procedimentos cirúrgicos devem ser tomadas com orientação de profissional de saúde habilitado.

A história de Bella Longuinho inspirou milhões de pessoas. Mas por trás de cada transformação visível, existe um processo médico, jurídico e emocional que merece atenção cuidadosa. Antes de qualquer decisão — seja pelo SUS, pela rede privada ou pelo exterior — consulte um profissional de saúde especializado. O direito à saúde existe. A orientação certa ajuda a exercê-lo com segurança.

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