A menos de um mês do início da Copa do Mundo 2026, uma nova trend dominou o Instagram e o TikTok: usando o ChatGPT Images 2.0 e o Kling AI, milhões de brasileiros estão criando vídeos ultrarrealistas de si mesmos nas arquibancadas dos estádios, como se tivessem sido filmados pela transmissão oficial. A estética é impecável — granulação de câmera ao vivo, torcida desfocada ao redor, movimento suave de bandeiras. Mas antes de subir sua foto para essas plataformas, é preciso entender o que acontece com seus dados pessoais depois do upload.
O que é a trend da arquibancada e por que viralizou agora
O processo é simples: você envia uma foto sua para o ChatGPT (com o modelo Images 2.0), pede para a ferramenta colocá-la em uma arquibancada de estádio com visual de transmissão ao vivo, e em segundos recebe uma imagem profissional. Uma segunda etapa, com o Kling AI, anima a cena: a câmera balança, as pessoas ao redor se movem, a bandeira tremula.
O resultado virou viral porque entrega exatamente o que os torcedores brasileiros querem: a sensação de estar na Copa 2026, mesmo quem não conseguiu ingresso. Mas a facilidade técnica esconde riscos que a maioria dos usuários ignora.
Risco 1: sua foto vira dado de treinamento de IA
A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, menciona em seus Termos de Serviço que conteúdo enviado pelos usuários pode ser utilizado para melhorar e treinar seus modelos de linguagem e imagem, a menos que o usuário opte explicitamente pelo não compartilhamento nas configurações de privacidade.
Na prática, isso significa que a imagem do seu rosto pode ser usada para aperfeiçoar algoritmos de geração de imagem sem que você perceba. A foto que você mandou com intenção de participar de uma trend viral pode se tornar um dado biométrico incorporado ao sistema.
A boa notícia: é possível desativar esse uso acessando as configurações da sua conta OpenAI e desativando a opção "Improve models for everyone". Mas quantos usuários sabem disso antes de fazer o upload?
Risco 2: a LGPD classifica imagens faciais como dado sensível
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) classifica dados biométricos — incluindo imagens faciais que permitam identificação individual — como dados sensíveis. Esses dados têm proteção reforçada e só podem ser processados mediante consentimento explícito do titular.
Ao enviar sua foto para uma plataforma baseada nos EUA como o ChatGPT ou o Kling AI (empresa chinesa), você está em tese autorizando o tratamento internacional de um dado sensível. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já sinalizou que empresas estrangeiras que coletam dados de cidadãos brasileiros estão sujeitas à LGPD, independentemente de onde estejam sediadas.
Isso não significa que o uso da trend é ilegal — mas significa que você tem direitos: de saber como seus dados são usados, de pedir exclusão, e de ser notificado em caso de vazamento.
Risco 3: deepfake sem controle e uso indevido da sua imagem
A mesma tecnologia que coloca você nas arquibancadas pode ser usada por terceiros para criar conteúdo não autorizado com sua imagem. Uma vez que sua foto está em circulação em alta resolução nas redes sociais, qualquer pessoa pode usar ferramentas similares para colocá-la em contextos que você jamais autorizaria.
O Brasil avança na regulação de deepfakes — o Marco Legal da Inteligência Artificial está em tramitação no Congresso com dispositivos específicos sobre criação e disseminação de conteúdo sintético de pessoas. Mas enquanto a lei não entra em vigor, os recursos disponíveis são o Código Civil (para proteção de imagem e honra) e o Marco Civil da Internet.
Um especialista em segurança digital e direito à imagem pode avaliar casos de uso indevido e orientar sobre como solicitar a remoção de conteúdo de plataformas.
Como participar da trend de forma segura
Participar da tendência é possível com algumas precauções:
Antes do upload:
- Acesse as configurações de privacidade do ChatGPT e desative o uso de seus dados para treinamento de modelos
- Use fotos em que seu rosto apareça claramente, mas evite imagens com documentos, crachás ou informações de contexto visíveis ao fundo
- Verifique se a plataforma que você vai usar aceita dados de cidadãos brasileiros e como os trata
Após o uso:
- Revise os conteúdos que você publicou nas redes — uma imagem muito realista pode ser facilmente reusada
- Mantenha configurações de privacidade no Instagram e TikTok que limitem quem pode baixar suas fotos
- Se identificar uso indevido da sua imagem por terceiros, documente e consulte um advogado ou especialista em segurança digital
O que um especialista em TI pode fazer por você
Profissionais de tecnologia da informação e segurança digital são os maiores aliados de quem quer aproveitar tendências sem expor seus dados. Eles podem auditar as configurações de privacidade das plataformas, orientar sobre boas práticas de compartilhamento de imagem e identificar se suas fotos já estão sendo usadas em algum banco de dados de IA sem autorização.
Empresas também precisam de atenção: funcionários que participam de trends virais com fotos corporativas podem inadvertidamente expor dados sensíveis da organização ao ambiente externo.
Para mais sobre os riscos legais e corporativos da inteligência artificial e a proteção de dados no Brasil, confira nossa cobertura anterior.
Conclusão
A trend da arquibancada é criativa, divertida e absolutamente compreensível num momento em que o Brasil vibra com a proximidade da Copa 2026. Mas seus dados biométricos têm valor — e compartilhá-los com plataformas de IA requer consciência sobre o que está sendo autorizado.
Se você tem dúvidas sobre segurança digital, direitos sobre sua imagem ou proteção de dados pessoais, um especialista em TI ou um advogado especializado em LGPD pode responder suas perguntas de forma rápida e prática. Na ExpertZoom, você encontra esses profissionais disponíveis para consulta online.
