Tom Nolan, chefe dos olheiros amadores do Nashville Predators, falou à imprensa em maio de 2026 sobre a preparação da franquia para o NHL Draft 2026, marcado para acontecer no final de junho. Com a 10ª escolha geral em mãos, o executivo afirmou que "este é um draft realmente profundo" e que a equipe vai "conseguir um jogador realmente bom", de acordo com o site oficial dos Predators.
A entrevista de Nolan, transmitida pelo canal NHL.com, chamou atenção não apenas pelo conteúdo esportivo, mas pelo método. Os Predators, como praticamente todas as franquias da liga, hoje combinam análise humana, big data, vídeo e inteligência artificial para construir suas listas de prospectos. Para profissionais de tecnologia da informação brasileiros, o cenário do recrutamento esportivo se tornou uma vitrine concreta de como pipelines de dados, machine learning e visão computacional saíram do laboratório e foram parar nas decisões milionárias do esporte.
O que está em jogo
O NHL Draft de 2026 acontece em Los Angeles e reunirá as 32 franquias da liga para escolher cerca de 220 atletas jovens, em sua maioria entre 17 e 19 anos. Cada pick de primeira rodada pode representar contratos multimilionários e décadas de impacto financeiro. Em Nashville, a 10ª escolha é considerada estratégica para preencher uma posição-chave na defesa, segundo análise da The Hockey Writers.
A complexidade da decisão é enorme. Os scouts da liga precisam avaliar atletas de cinco continentes, em ligas júnior, universitárias e amadoras, com calendários distintos e nível de competição variável. É aí que entra o investimento em tecnologia.
A nova caixa de ferramentas do scout
Há dez anos, o recrutamento esportivo profissional era dominado por planilhas, fitas de vídeo e a observação direta de olheiros experientes. Em 2026, esse trabalho passa por seis camadas tecnológicas, segundo levantamento da consultoria Deloitte sobre digital transformation no esporte:
- Sistemas de tracking ótico, que registram a posição de cada jogador 25 vezes por segundo dentro do gelo.
- Wearables biomecânicos, que medem velocidade, aceleração, frequência cardíaca e impacto.
- Bases de dados centralizadas em nuvem, que cruzam estatísticas de centenas de ligas no mundo.
- Modelos preditivos de carreira, que projetam o desempenho do atleta a partir dos 24 anos.
- Visão computacional para vídeo, capaz de identificar padrões táticos automaticamente.
- Plataformas colaborativas que permitem aos scouts comparar notas em tempo real.
Esse stack tecnológico é o que permite a uma equipe pequena, como Nashville, competir com franquias bilionárias na qualidade da análise de prospectos.
O que isso significa para o Brasil
A indústria esportiva brasileira começou a importar essa lógica. Clubes de futebol como Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG investem em departamentos de performance e ciência de dados. A CBF criou em 2024 sua plataforma própria de monitoramento de atletas das categorias de base.
Para profissionais de TI brasileiros, isso abre frentes concretas de oportunidade em três áreas:
- Engenharia de dados esportivos — construir pipelines que integrem fontes heterogêneas (câmeras, sensores, scouts, redes sociais).
- Cientistas de dados especializados em modelos preditivos para esportes coletivos.
- Especialistas em segurança e LGPD para tratar dados biométricos de atletas, especialmente menores de idade.
O mercado em alta também exige profissionais que conheçam protocolos de integração específicos do esporte, como o Sportradar SDK, e padrões emergentes de interoperabilidade entre ligas.
LGPD e dados biométricos
O recrutamento moderno coleta volumes massivos de dados pessoais sensíveis. Posição em campo, batimento cardíaco, padrão de sono e até dados genéticos entram em planilhas que percorrem múltiplos servidores ao redor do mundo. No Brasil, essa coleta está sujeita à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei 13.709/2018), regulada pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Para a categoria de TI, isso traz três obrigações práticas:
- Mapeamento dos fluxos de dados desde a captação até o armazenamento.
- Criptografia em trânsito e em repouso para dados biométricos.
- Consentimento informado e específico, com proteções adicionais para atletas menores de idade.
A não conformidade pode gerar multas de até 2% do faturamento da pessoa jurídica brasileira, limitadas a R$ 50 milhões por infração.
Visão computacional na prática
O recurso tecnológico que mais cresceu no scouting da NHL em 2025 e 2026 foi a visão computacional. Modelos de deep learning treinados em milhares de horas de partidas conseguem identificar padrões táticos individuais — como o lado preferido de finalização, ângulos de aproximação defensiva e tempo médio de reação em ação ofensiva.
A tecnologia tem aplicações cruzadas no Brasil. Empresas locais já oferecem soluções similares para futebol, vôlei e basquete, e há demanda crescente em analytics para clubes brasileiros. Profissionais de TI com formação em Python, PyTorch e bibliotecas como OpenCV encontram espaço em startups esportivas e em departamentos de inovação dos próprios clubes.
Integração com inteligência artificial generativa
A onda mais recente do scouting é a integração de IA generativa para gerar relatórios de prospectos automaticamente, sintetizando observações de múltiplos scouts em um único documento. O Predators, segundo a Penalty Box Radio, utiliza um sistema interno que cruza notas humanas com métricas avançadas para criar resumos executivos.
A discussão técnica em torno desses sistemas envolve:
- Mitigação de viés algorítmico em modelos treinados com dados históricos enviesados.
- Explicabilidade das recomendações de IA para que scouts humanos confiem na ferramenta.
- Governança de modelos, garantindo que prompts e respostas fiquem auditáveis.
Esses são exatamente os temas que profissionais de TI brasileiros precisam dominar para atuar em projetos esportivos de ponta.
Quando procurar um especialista em TI
Empresas e clubes brasileiros que queiram desenvolver soluções de scouting digital, análise de desempenho ou aplicações de IA para o esporte devem buscar um especialista em tecnologia da informação. Um consultor experiente pode ajudar a:
- Mapear requisitos técnicos considerando volume e variedade de dados.
- Definir arquitetura em nuvem adequada a esportes em tempo real.
- Garantir conformidade com LGPD e regulamentações esportivas.
A fala de Tom Nolan mostra que o futuro do recrutamento esportivo é tecnológico, multidisciplinar e global. O Brasil tem a chance de exportar não só atletas, mas também os profissionais de TI que farão essa engrenagem funcionar.

Juliana Lima