Samantha Mason pesava 426 kg aos 18 anos: o que o caso de 'Quilos Mortais' revela sobre bariátrica em jovens

Médico especialista consultando adolescente sobre critérios de cirurgia bariátrica em consultório hospitalar em São Paulo
6 min de leitura 25 de julho de 2026

Aos 18 anos, Samantha Mason entrou no consultório do Dr. Younan Nowzaradan, o médico do reality Quilos Mortais, pesando 426 quilos — o equivalente a três adultos de compleição média. O seu episódio, exibido em julho de 2026 na TV Record, chocou o público brasileiro e reacendeu um debate urgente: quando a cirurgia bariátrica é indicada para jovens? Quais são os critérios exigidos no Brasil? E o que as famílias precisam entender antes de tomar essa decisão?

Samantha Mason ficou conhecida nas redes sociais antes mesmo do programa. Ela mantinha um perfil em que publicava vídeos comendo grandes volumes de alimento — prática conhecida como "mukbang" — como fonte de renda. Quando chegou ao consultório do Dr. Now, pesava 426 kg e tinha apenas 18 anos de idade, tornando-se um dos casos mais extremos já documentados no reality.

Segundo o programa, após meses de acompanhamento médico intensivo e a cirurgia bariátrica, Samantha chegou a 289 kg — uma redução de 137 kg. Em atualização publicada em 2023, ela declarou ter eliminado ao todo 295 kg desde o início do tratamento. Hoje, conforme relatos de julho de 2026, ela vive em uma clínica de repouso para se recuperar de uma cirurgia de reconstrução do quadril e aguarda novas intervenções. Enfrenta, ainda, dificuldade em encontrar profissionais dispostos a operar seu caso complexo — que exige intervalos mínimos de seis meses entre cada procedimento.

O caso expõe uma realidade que vai além do entretenimento. Segundo o IBGE (Pesquisa Nacional de Saúde), cerca de 20% dos adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos apresentam excesso de peso, e quase 8% já se enquadram na categoria de obesidade. Em casos de obesidade grave não tratada, o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono e deterioração articular severa é substancialmente maior — e o prognóstico piora drasticamente quanto mais jovem a doença se instala sem intervenção.

O que mudou nas regras do CFM para cirurgia bariátrica em jovens

Em 2025, o Conselho Federal de Medicina atualizou a resolução que regula a cirurgia bariátrica e metabólica no Brasil, ampliando o acesso para adolescentes. Conforme publicado no Portal CFM, os novos parâmetros estabelecem:

  • Adolescentes de 14 a 15 anos: podem realizar o procedimento em casos de obesidade grave (IMC acima de 40) associada a complicações clínicas sérias, com avaliação multidisciplinar obrigatória e consentimento dos responsáveis legais
  • Jovens de 16 a 18 anos: enquadram-se nos mesmos critérios dos adultos, desde que apresentem laudo de pediatra e confirmação de maturidade óssea por exame de imagem
  • Em todos os casos: é obrigatória a avaliação de equipe multidisciplinar completa — endocrinologista, psicólogo, nutricionista e cirurgião bariátrico — antes da aprovação do procedimento

A mudança reflete tanto o avanço do consenso científico quanto a realidade epidemiológica do país. Antes de 2025, a cirurgia em menores de 18 anos era permitida apenas em situações excepcionais, com critérios muito mais restritivos.

O que especialistas enfatizam, porém, é que atender aos critérios formais não significa que a cirurgia é automaticamente a decisão certa para cada paciente. A avaliação clínica, psicológica e familiar é insubstituível.

O que os especialistas de saúde ressaltam sobre adolescentes e bariátrica

Médicos especialistas em cirurgia bariátrica apontam três camadas de complexidade que vão além dos números na balança quando se trata de pacientes jovens.

A primeira é biológica: o corpo do adolescente ainda está em desenvolvimento. Por isso existe a exigência de comprovação de maturidade óssea — operar antes do fechamento das epífises pode comprometer o crescimento linear.

A segunda é psicológica: adolescentes com obesidade mórbida frequentemente apresentam transtornos alimentares associados, como compulsão alimentar ou síndrome do comer noturno. No caso de Samantha Mason, havia ainda o componente comportamental de reforço externo das redes sociais. Sem tratamento psicológico estruturado antes e depois da cirurgia, as chances de reganho de peso significativo são elevadas — e o reganho em pós-operatório de bariátrica é clinicamente mais difícil de reverter do que em pacientes não operados.

A terceira é familiar: o contexto doméstico tem peso determinante no prognóstico. Um adolescente que retorna após a cirurgia para um ambiente onde os padrões alimentares geradores da obesidade permanecem intactos tem resultados muito diferentes de um paciente com suporte familiar estruturado e ativo na mudança de hábitos.

Caso concreto: um jovem de 17 anos com IMC 42 em São Paulo — o que acontece na prática?

Imagine um adolescente de 17 anos, estudante do ensino médio em São Paulo, que pesa 130 kg com 1,75 m de altura — IMC de 42,4, enquadrando-o em obesidade grave Grau III. Ele tem pré-diabetes diagnosticada e apneia do sono moderada confirmada em polissonografia. A família quer saber: a cirurgia bariátrica já é indicada?

Pelos critérios do CFM (resolução de 2025), a resposta formal é sim: IMC acima de 40, comorbidades documentadas, 16 anos ou mais. A cirurgia é tecnicamente indicável.

Mas o processo concreto exige pelo menos seis etapas obrigatórias:

  1. Avaliação do endocrinologista pediátrico — para confirmar o diagnóstico, descartar causas hormonais como hipotireoidismo ou síndrome de Cushing, e verificar se há pelo menos dois anos de tentativa documentada de tratamento clínico prévio
  2. Laudo do pediatra — confirmando maturidade óssea via radiografia e ausência de contraindicações cirúrgicas
  3. Avaliação psicológica — geralmente dois ou mais encontros, para investigar transtornos alimentares, capacidade de adesão ao pós-operatório e dinâmica familiar
  4. Acompanhamento nutricional — construção do plano alimentar pré e pós-cirúrgico personalizado
  5. Consulta com o cirurgião bariátrico — para definição da técnica mais adequada (manga gástrica é a mais frequente em adolescentes; bypass gástrico em casos selecionados com comorbidades metabólicas graves)
  6. Consentimento informado assinado pelos responsáveis legais e pelo próprio paciente

Nos números: no sistema privado, o processo de avaliação multidisciplinar custa entre R$ 3.500 e R$ 8.000, antes mesmo da cirurgia em si (que varia entre R$ 25.000 e R$ 60.000 dependendo da técnica e da instituição). O tempo médio do processo, do início da avaliação até a data cirúrgica, é de três a seis meses. No SUS, o procedimento é coberto para pacientes que atendam aos critérios — mas os tempos de espera variam de um a três anos dependendo do estado e da capacidade instalada do serviço regional.

A regra que a maioria das famílias desconhece: se a equipe multidisciplinar não concluir unanimemente pela indicação cirúrgica, o hospital é obrigado por resolução do CFM a negar o procedimento — independentemente de quantos critérios numéricos o paciente atenda. Isso significa que um adolescente com IMC de 50 mas sem avaliação psicológica completa ou sem suporte familiar adequado pode ter a cirurgia legalmente negada.

O que fazer se você ou alguém da família está nessa situação

O caso de Samantha Mason é extremo, mas a realidade de famílias lidando com obesidade grave em adolescentes não é rara no Brasil. O caminho começa por uma consulta especializada — não com o médico de família, mas com um profissional com experiência comprovada em obesidade e cirurgia bariátrica em jovens.

Um especialista em saúde pode mapear o diagnóstico completo, confirmar se os critérios do CFM estão sendo cumpridos, orientar a família sobre as etapas do processo no sistema público ou privado e — mais importante — ajudar a determinar se a cirurgia é de fato o caminho mais adequado para aquele paciente específico. Em muitos casos, o tratamento clínico intensivo e o acompanhamento multidisciplinar sem cirurgia produtem resultados significativos — especialmente quando iniciado cedo.

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Decisões relacionadas à cirurgia bariátrica devem ser tomadas exclusivamente em conjunto com equipe médica especializada.

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