No dia 3 de julho de 2026, Juan Fernando Quintero entrou no Kansas City Children's Mercy Park para ajudar a Colômbia a eliminar Gana por 1 a 0 nos 16 avos de final da Copa do Mundo. Sua terceira participação em uma Copa — após 2014 e 2018 — carrega um significado especial: Quintero é um dos jogadores de elite que competem com histórico documentado de arritmia cardíaca, condição que já colocou em dúvida o encerramento de sua carreira profissional.
Arritmia quase encerrou a carreira de Quintero
Em 2023, durante exames médicos obrigatórios para uma transferência ao Racing Club da Argentina, foram identificados sinais de arritmia cardíaca em Juan Fernando Quintero. A descoberta atrasou e quase inviabilizou a negociação, gerando dúvidas sobre se o meia colombiano poderia continuar atuando em alto nível. Com acompanhamento médico especializado e laudo favorável de cardiologistas do esporte, Quintero seguiu jogando, retornou ao River Plate e foi convocado para a Copa do Mundo 2026, no qual atuou como substituto na vitória sobre Gana.
A arritmia cardíaca é qualquer alteração no ritmo normal dos batimentos do coração — seja muito rápido (taquicardia), muito lento (bradicardia) ou irregular. Em atletas de alto rendimento, a incidência é mais comum do que se imagina: estudos publicados na Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício mostram que entre 2% e 5% dos esportistas de elite apresentam algum tipo de arritmia clinicamente relevante, resultado das adaptações cardíacas ao esforço intenso e repetitivo.
O caso Izquierdo: quando o coração para em campo
Em 22 de agosto de 2024, o zagueiro uruguaio Juan Izquierdo entrou como titular pelo Club Nacional no estádio do Morumbi, em São Paulo, durante uma partida da Copa Libertadores. Aos 39 minutos do segundo tempo, sem qualquer contato físico, ele desabou inconsciente sobre o gramado. Cinco dias depois, em 27 de agosto de 2024, Izquierdo morreu com apenas 27 anos — vítima de morte encefálica decorrente de parada cardiorrespiratória associada à arritmia, segundo laudo divulgado pela Agência Brasil.
O caso chocou o futebol brasileiro e internacional. Uma das questões mais dolorosas virou debate público: Izquierdo tinha ou não tinha arritmia previamente detectada? O então presidente do Nacional declarou que todos os exames eram normais. Porém, o diretor da Secretaria Nacional do Esporte do Uruguai afirmou que a condição havia sido identificada anteriormente, mas não havia impedido o jogador de atuar. Qualquer que seja a versão completa, a tragédia reacendeu uma pergunta urgente: quando é seguro liberar um atleta com arritmia para competir?
O modelo Eriksen e a ciência da liberação médica
Dois anos antes do caso Izquierdo, o mundo testemunhou o colapso do dinamarquês Christian Eriksen na Eurocopa de 2020. Eriksen sobreviveu após reanimação em campo, recebeu um desfibrilador cardioversor implantável (CDI) e voltou a atuar em alto nível na Premier League e pela Seleção Dinamarquesa. Seu caso tornou-se referência internacional sobre o que a medicina moderna pode oferecer a atletas com condições cardíacas.
A diferença entre os casos não está necessariamente no grau de risco inicial, mas na qualidade do diagnóstico e no rigor do protocolo de acompanhamento. Um cardiologista esportivo realiza o que se chama de estratificação de risco, uma avaliação que inclui eletrocardiograma de repouso, ecocardiograma, teste ergométrico (esforço máximo), monitoramento Holter de 24 horas e, em casos complexos, ressonância magnética cardíaca. Com base nesses resultados, o especialista determina se a arritmia é benigna ou potencialmente fatal durante o esforço intenso.
Segundo as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a avaliação pré-participação esportiva é obrigatória para atletas profissionais e deve incluir anamnese completa, exame físico e eletrocardiograma de 12 derivações. Para atletas com arritmias detectadas, o protocolo é mais rigoroso: o cardiologista precisa classificar o tipo e a gravidade da arritmia antes de emitir qualquer laudo de aptidão. Extrassístoles isoladas, por exemplo, são muito comuns em atletas e geralmente benignas. Já taquicardias ventriculares ou certas formas de síndrome de Wolff-Parkinson-White podem exigir tratamento antes de qualquer liberação para a competição.
Não é só o futebol profissional
A discussão não se limita aos gramados da Copa. Qualquer pessoa que pratica atividade física intensa — do corredor de fim de semana ao jogador de futsal amador — pode apresentar arritmia não diagnosticada. Os sintomas que exigem avaliação médica incluem: palpitações durante ou após o exercício, sensação de "coração saindo pela boca", tontura desproporcional ao esforço, falta de ar além do esperado e, principalmente, síncope (desmaio) durante ou logo após atividade física.
Nesses casos, a recomendação é buscar um cardiologista sem demora. O diagnóstico precoce transforma completamente o prognóstico: uma arritmia identificada e tratada corretamente permite que atletas profissionais e amadores continuem praticando esportes com segurança. Como explicamos em nosso artigo sobre Ochoa e a longevidade médica dos goleiros de elite na Copa 2026, o monitoramento contínuo é o que separa carreiras longas de episódios trágicos.
Outros fatores de risco merecem atenção: histórico familiar de morte súbita cardíaca antes dos 50 anos, uso de estimulantes ou suplementos sem orientação médica, e doenças como hipertireoidismo ou diabetes não controlados aumentam a probabilidade de arritmias clinicamente relevantes. Atletas veteranos, como Quintero, que aos 33 anos ainda compete no mais alto nível, passam por avaliações cardiológicas mais frequentes justamente por conta desses fatores acumulados.
Coração em forma exige monitoramento, não apenas treino
A Copa do Mundo de 2026 está revelando histórias como a de Quintero: atletas que, graças ao avanço da cardiologia esportiva, continuam competindo mesmo com condições que, décadas atrás, encerrariam qualquer carreira. Mas esse avanço tem uma condição: depende de exames regulares, de cardiologistas bem treinados e da disposição dos clubes, federações e dos próprios atletas de levarem a sério cada laudo e cada sintoma.
Para quem sente algo suspeito durante ou após a prática de esportes, a mensagem é clara: não espere um episódio grave para descobrir o estado do seu coração. O futebol brasileiro aprendeu da pior forma com o caso Izquierdo, em agosto de 2024, que aconteceu exatamente aqui, no Morumbi, em São Paulo.
Na Expert Zoom, você encontra cardiologistas especializados em medicina do esporte disponíveis para consulta online ou presencial. Um especialista pode avaliar seu perfil de risco, indicar os exames adequados e, se necessário, emitir — ou não — seu laudo de aptidão antes que os sintomas se agravem.
Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica. Sintomas cardíacos durante ou após exercícios físicos exigem avaliação presencial de um profissional de saúde qualificado.

Gabriel Alves