O Programa Estadual de Integração na Segurança (PROEIS) vive em 2026 seu maior ciclo de expansão no Rio de Janeiro, com novos convênios municipais incorporando centenas de policiais militares da ativa em escalas extras remuneradas. Segundo notícia de julho de 2026 publicada pelo NC News, o PROEIS "se expande e muda a rotina da segurança no RJ", alcançando cidades como Angra dos Reis, Belford Roxo e Rio das Ostras. Para os PMs, a renda extra é atrativa — mas o quadro jurídico em torno da participação no programa é repleto de armadilhas que podem comprometer direitos conquistados ao longo de toda uma carreira.
O PROEIS em 2026: mais municípios, mais PMs e mais dúvidas jurídicas
O PROEIS permite que policiais militares da ativa prestem serviço voluntário remunerado em municípios conveniados ao governo estadual do Rio de Janeiro. O pagamento é feito diretamente pelo município, com valores que variam entre R$ 1.200 e R$ 2.500 mensais por policial, conforme a jornada contratada e a localidade.
A expansão do programa em 2026 ocorre em um contexto legislativo importante: a Câmara dos Deputados aprovou projeto que, pela primeira vez, regulamenta a jornada de trabalho de policiais e bombeiros militares em todo o país, estabelecendo teto de 40 horas semanais para o serviço ordinário e limite de 144 horas mensais no total. O PROEIS, porém, opera em uma zona cinzenta: por ser remunerado pelo município e não pelo estado, a relação jurídica entre o PM, a PMERJ e o ente municipal ainda gera controvérsias sérias na hora de definir responsabilidades.
A zona cinzenta: quem responde quando o policial se machuca?
A pergunta mais frequente nos escritórios especializados em direito militar fluminense em 2026 é direta: se um acidente acontece durante o serviço PROEIS, quem é o responsável — o Estado do Rio de Janeiro ou o município que pagou a escala?
A resposta legal não é simples. O PM permanece vinculado à PMERJ mesmo durante o PROEIS. Portanto, em tese, o Estado é o responsável primário por sua integridade física. Mas, como o serviço foi contratado e remunerado pelo município, há situações em que o ente municipal pode ser acionado solidariamente — especialmente quando as condições fornecidas foram inadequadas: viatura sem manutenção, equipamento insuficiente ou escala superior ao limite contratual.
Nos tribunais militares do Rio de Janeiro já há precedentes de responsabilidade compartilhada em acidentes ocorridos durante o PROEIS. O ponto mais sensível é a classificação do evento: para ter acesso às proteções máximas da legislação militar, o acidente precisa ser reconhecido como "acidente em serviço" pela PMERJ. Se o estado enquadrar o evento como ocorrido fora do serviço regular — argumento que aparece com frequência quando o PM estava em escala PROEIS e não em serviço ordinário — o policial perde proteções importantes.
Segundo advogados especializados em direito militar, a batalha judicial para reverter essa classificação dura em média 18 a 24 meses nos tribunais estaduais.
Se o PM se machuca no PROEIS: um cenário concreto com números
Considere a seguinte situação, que representa casos reais vividos por policiais fluminenses em 2026:
Um PM da ativa, com 12 anos de corporação e soldo base de R$ 5.233,88 mensais, adere ao PROEIS em um município da Baixada Fluminense. Em março de 2026, durante uma abordagem na terceira hora de um turno extra, ele sofre uma fratura no ombro após cair de uma viatura sem colete traseiro de fixação. Fica afastado por 90 dias.
O desfecho depende inteiramente de como o acidente será classificado juridicamente:
Se o Estado reconhece o acidente como "em serviço": o PM recebe licença médica remunerada integral, cobertura total de tratamento pelo plano da PMERJ e, se houver sequela permanente, reforma com promoção ao posto imediatamente superior. Para um Soldado de 1ª Classe que passaria a Cabo, a diferença no contracheque definitivo é de aproximadamente R$ 1.200 mensais — ao longo de uma aposentadoria de 20 anos, isso representa R$ 288.000 acumulados.
Se o Estado nega o vínculo com o serviço: o PM é tratado como incapacidade comum. Reforma no posto atual, sem promoção, sem o adicional de acidente em serviço. O PM perde os R$ 288.000 de diferença projetada e ainda arca com parte dos custos de tratamento que excedam o plano padrão.
A diferença entre os dois desfechos não está nos fatos do acidente — está na classificação jurídica do vínculo entre o turno PROEIS e o serviço regular da PMERJ. E é exatamente nessa fronteira que um advogado especializado pode determinar o resultado.
Vale destacar que a situação se complica ainda mais quando o PM havia ultrapassado o limite de horas mensais ao se acidentar. Nesse cenário, a defesa pode argumentar responsabilidade agravada do Estado, que deveria ter controlado a adesão do policial ao PROEIS e verificado se a carga horária total era compatível com os limites regulamentares. A soma de horas ordinárias mais PROEIS acima de 144 horas mensais é argumento sólido para pleitear indenização adicional além da simples reforma.
O que a nova regulamentação da jornada muda para quem participa do PROEIS
O projeto aprovado pela Câmara em 2026 traz mudanças que afetam indiretamente o PROEIS:
- Teto de 40 horas semanais para o serviço ordinário estabelece parâmetro claro sobre o que é regular
- Máximo de 144 horas mensais no total, incluindo extras, cria referência para calcular se o PM estava em jornada excessiva ao se acidentar
- Banco de horas e pagamento obrigatório de horas extras tornam mais difícil ao estado argumentar que o PM aderia ao PROEIS "voluntariamente" sem ônus patronal
Se um PM já completou as 144 horas mensais e trabalhou uma escala PROEIS adicional, qualquer acidente nessa jornada excedente tem respaldo jurídico reforçado para ser reivindicado como responsabilidade estatal — dado que o estado sabia (ou deveria saber) que o policial operava além do limite regulamentado.
Para saber mais sobre os direitos de militares em situações de serviço ativo e inatividade, confira: Dia do Exército 2026: Direitos dos Militares e da Reserva.
Como proteger seus direitos antes que qualquer incidente ocorra
Policiais militares que participam ou pretendem aderir ao PROEIS em 2026 podem tomar medidas preventivas concretas para fortalecer sua posição jurídica. A boa notícia é que a maioria delas não exige nenhum custo imediato — apenas organização e consciência dos próprios direitos.
1. Guarde todos os comprovantes de escala PROEIS. Os registros de entrada, saída e comprovante de pagamento do município são a primeira prova de que o acidente ocorreu em serviço remunerado ativo. Sem esses documentos, o estado pode argumentar que a presença do PM no local era "extraoficial".
2. Registre imediatamente qualquer acidente no Boletim de Ocorrência Interno (BOI) da PMERJ. Mesmo que o evento pareça leve, o registro imediato é a âncora jurídica da linha do tempo. Uma fratura tratada informalmente, sem BOI, pode ser contestada anos depois quando uma sequela se manifesta — e sem o registro, não há prova do vínculo com o serviço.
3. Não assine termos de encerramento de licença sem consulta jurídica. É comum que PMs assinem documentos de "conclusão de tratamento" sem perceber que contêm cláusulas que encerram o vínculo jurídico com o acidente. Esses termos podem inviabilizar qualquer reivindicação futura sobre sequelas ou promoção por invalidez.
4. Solicite ao município uma cópia do convênio PROEIS assinado. O contrato entre o estado e o município define as responsabilidades de cada parte — e é um documento que pode ser determinante para definir qual ente responde em caso de acidente. O PM tem direito de acesso a esse documento via Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011), com prazo de resposta de até 20 dias úteis. Ter esse documento em mãos antes de qualquer incidente pode encurtar em meses o processo de reconhecimento de direitos.
Um advogado especializado em direito militar pode mapear o enquadramento jurídico do seu caso antes que qualquer incidente ocorra, acionar o ente responsável (Estado, município ou ambos) quando necessário e garantir que a classificação do acidente seja a que mais protege seus interesses de longo prazo.
Aviso legal: Este artigo tem caráter informativo e não constitui assessoria jurídica. Cada situação é única e recomenda-se consultar um advogado especializado em direito militar para análise do caso concreto.
Consultar um especialista via Expert Zoom pode ser o primeiro passo para garantir que seus anos de serviço sejam protegidos com o rigor jurídico que merecem.

Joao Souza