Playoffs Sul-Americana 2026: 11% dos apostadores brasileiros já têm vício, aponta SUS

Taça da Copa Sul-Americana exposta com fundo escuro

Photo : Renansp93 / Wikimedia

4 min de leitura 29 de maio de 2026

Os playoffs da Copa Sul-Americana 2026 começam após o sorteio desta sexta-feira (29/05), com Bragantino, Grêmio, Santos e Vasco em campo contra times eliminados da Libertadores. Para milhões de brasileiros, porém, o gatilho não é apenas torcer — é apostar. E os números do próprio Sistema Único de Saúde mostram que o entusiasmo virou um problema clínico para uma parcela significativa da população.

Segundo levantamento da Anbima divulgado em 2026, a fatia de brasileiros que apostam em plataformas online subiu de 14% em 2023 para 17% em 2025. Desse universo, 11% já são classificados como "apostadores com problema" pela escala internacional PGSI, e outros 28% estão em risco moderado. As bets autorizadas movimentaram R$ 37 bilhões em receita bruta no ano passado, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).

O custo invisível dos playoffs

O Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões o custo social anual gerado pela fragilidade financeira de apostadores frequentes no Brasil. Cerca de 80% desse valor está ligado a problemas de saúde mental, incluindo depressão, perda de qualidade de vida e mortes adicionais por suicídio. Em maio de 2026, a pasta divulgou que 574 mil pessoas já aderiram à plataforma de autoexclusão de bets e que 41% delas justificam a decisão por impactos diretos na saúde mental.

Eventos esportivos de grande visibilidade, como os playoffs da Sul-Americana, funcionam como um amplificador. Com sete clubes brasileiros no torneio — Atlético-MG, Botafogo, São Paulo já garantidos nas oitavas; Bragantino, Grêmio, Santos e Vasco nos playoffs —, o volume de palpites tende a explodir nas próximas semanas. O perfil de risco também é jovem, segundo a Anbima: 82% dos apostadores com problema pertencem à Geração Z (16-29 anos) ou aos Millennials (30-44 anos).

Quando deixa de ser hobby e vira doença

A Classificação Internacional de Doenças (CID-11) reconhece o jogo patológico como um transtorno mental específico. Profissionais de saúde brasileiros listam sinais clínicos que distinguem o apostador casual do dependente:

  • Necessidade de aumentar os valores apostados para sentir o mesmo prazer.
  • Irritabilidade quando tenta reduzir ou parar.
  • Tentativas frustradas de controlar o hábito.
  • Mentir para familiares sobre o tempo ou dinheiro envolvidos.
  • Pedir empréstimos ou usar o limite do cheque especial para apostar.
  • Comprometer trabalho, estudos ou relações afetivas em função do jogo.

A psiquiatra Hermano Tavares, da USP, já apontou em entrevistas que o intervalo entre a primeira aposta e o desenvolvimento do quadro clínico pleno tem encurtado drasticamente com as bets digitais — antes mediam-se anos, hoje, em alguns casos, poucos meses.

O que mudou no SUS em 2026

Em março de 2026, o Ministério da Saúde lançou um teleatendimento gratuito específico para quem enfrenta problemas com jogos e apostas, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês (leia o anúncio oficial). A capacidade inicial é de 600 atendimentos por mês, com investimento de R$ 2,5 milhões via Proadi-SUS.

O acesso é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, disponível para Android, iOS e versão web. Após o login com conta gov.br, o usuário entra em "Miniapps" e seleciona "Problemas com jogos de apostas?". Há um autoteste validado cientificamente que mede o nível de risco. Resultados de risco moderado ou alto encaminham automaticamente para o teleatendimento; quadros leves são direcionados à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui CAPS e Unidades Básicas de Saúde.

Maiores de 18 anos podem usar o serviço, assim como familiares e redes de apoio. O Brasil também coordena, desde maio, um debate na Organização Mundial da Saúde por uma regulação global das apostas eletrônicas.

Quando procurar um médico ou psicólogo particular

Nem todo apostador em risco se sente confortável com o teleatendimento público, e o SUS pode demorar a abrir vaga nas regiões com mais demanda. Nesses casos, um psiquiatra ou psicólogo particular pode iniciar o tratamento de forma mais rápida e oferecer abordagens combinadas — psicoterapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio e, quando indicado, medicação para comorbidades como ansiedade e depressão.

Especialistas alertam para procurar ajuda imediatamente quando há:

  • Pensamento recorrente em apostar como forma de "recuperar prejuízo".
  • Uso de cartão de crédito, empréstimo consignado ou venda de bens para apostar.
  • Ideação suicida ou crises de pânico após perdas.
  • Conflito conjugal ou familiar diretamente atribuível ao volume de apostas.

A Federação Brasileira de Psiquiatria orienta que o primeiro atendimento idealmente envolva uma avaliação clínica completa, descartando quadros associados de bipolaridade e impulsividade.

O que a família pode fazer durante os playoffs

Para parentes preocupados, o Ministério da Saúde sugere quatro passos práticos: 1) abordar a pessoa sem julgamento moral, tratando o problema como doença; 2) ajudar a aderir à plataforma de autoexclusão, que bloqueia o acesso a todas as bets autorizadas pela SPA; 3) propor o autoteste do Meu SUS Digital como ponto de partida; 4) procurar apoio em grupos como Jogadores Anônimos para si próprio, já que conviver com o quadro também adoece.

Se você pretende acompanhar os playoffs da Sul-Americana e identifica algum desses sinais em si ou em alguém próximo, falar com um profissional de saúde mental antes da próxima rodada pode evitar um prejuízo muito maior do que um chute para fora no fim do segundo tempo.

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