Em agosto de 2026, enquanto o Cruzeiro de Pedro Lourenço bate à porta das semifinais da Copa Libertadores, uma pergunta paralela ronda os corredores do mercado financeiro: o que exatamente o dono da Supermercados BH — com fortuna estimada em R$ 7,5 bilhões pela Forbes — sabe sobre investimento em futebol que o brasileiro médio ainda não aprendeu? A resposta está nos números. E eles não são nada simples.
Os dados por trás da maior aquisição do futebol mineiro
Em abril de 2024, Pedro Lourenço pagou R$ 600 milhões por 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol do Cruzeiro, comprando a participação de Ronaldo Nazário. Do total, R$ 100 milhões foram convertidos em 20% das ações como compensação pelas obras no centro de treinamento que Pedrinho já havia financiado. Os R$ 500 milhões restantes foram divididos em R$ 150 milhões pagos à vista e R$ 350 milhões parcelados ao longo de dez anos.
Dois anos depois, os números justificam o investimento. Nos primeiros oito meses de 2026, o clube alocou mais de R$ 90 milhões em reforços — incluindo o meia Gerson, contratado do Flamengo, e o lateral Gabriel Rojas. Pela primeira vez em décadas, o Cruzeiro recusou propostas abaixo do valor que considera adequado por seus atletas. Isso representa uma mudança estrutural: o clube parou de ser refém da urgência financeira.
A base desse modelo é a solidez patrimonial do controlador. A rede Supermercados BH, fundada por Pedro Lourenço, faturou R$ 17,3 bilhões em 2023, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), e é hoje a quinta maior rede de supermercados do país. Não é um empresário que precisa do futebol para sobreviver — o que muda completamente a dinâmica de gestão esportiva.
O que a Lei SAF estabelece sobre investimento e governança
A Lei nº 14.193/21 criou formalmente o modelo de Sociedade Anônima do Futebol no Brasil, permitindo que clubes se transformem em empresas com fins lucrativos, com governança corporativa obrigatória e possibilidade de captar recursos no mercado de capitais — via debêntures, fundos de investimento ou ações em bolsa.
Mais de 60 clubes brasileiros adotaram o modelo SAF até 2026. Botafogo é o caso mais conhecido: conquistou a Copa Libertadores de 2024 com aportes do grupo americano 777 Partners — mas o mesmo investidor depois enfrentou crise de liquidez e saiu de forma turbulenta, lembrando que o futebol não é imune à dinâmica do private equity.
Sob a lei SAF, investidores individuais podem adquirir cotas de fundos que detêm participação em clubes, comprar debêntures emitidas por SAFs ou, quando o clube estiver listado na B3, adquirir ações diretamente. Mas a mesma lei que abre essas portas delimita com precisão quem pode entrar. E é exatamente aí que muitos torcedores-investidores se perdem.
Por que os riscos de uma SAF diferem de qualquer outra empresa listada
Uma SAF não é uma empresa convencional. Seus resultados dependem de variáveis que nenhuma planilha de valuation captura com segurança: desempenho em campo, lesões de atletas-chave, rebaixamento de divisão e oscilações no mercado internacional de passes.
De acordo com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que financiou parte das operações de SAFs no país, o setor enfrenta desafios estruturais: alta dependência de receitas de transmissão televisiva — que despencam se o clube for eliminado cedo —, volatilidade nos direitos de imagem e exposição cambial nas contratações internacionais.
Há ainda o risco de iliquidez. Ao contrário de ações de empresas listadas com alto volume de negociações diárias, cotas em fundos de SAF de clubes menores podem ser extremamente difíceis de vender antes do prazo de vencimento. O investidor pode ficar preso a um ativo por cinco ou mais anos, assistindo ao valor cair conforme o clube oscila na tabela.
Por essas razões, a Comissão de Valores Mobiliários classifica os fundos de participação em SAFs como investimentos de alto risco, destinados exclusivamente a investidores qualificados — aqueles com mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras ou com certificações técnicas específicas do mercado.
O que R$ 50 mil investidos em uma SAF podem revelar: dois caminhos opostos
Para entender o que está em jogo, considere este cenário concreto, baseado em situações reais de investidores de varejo atraídos pela popularidade do modelo SAF em 2026.
João, 40 anos, contador de Uberlândia e torcedor fanático do Cruzeiro. Em agosto de 2026, animado com o desempenho do clube nas competições internacionais, ele descobre um produto financeiro anunciado em redes sociais: um fundo de investimento que detém 2% das ações do Cruzeiro SAF e promete "participar da valorização do futebol brasileiro". O produto custa R$ 50.000 de investimento mínimo.
Cenário A — João consulta um especialista em gestão de patrimônio antes de assinar: O consultor identifica três pontos críticos imediatamente: (1) João não é investidor qualificado segundo a regulação CVM — o produto é juridicamente inapropriado para seu perfil; (2) o fundo cobra taxa de administração de 2,5% ao ano, consumindo R$ 1.250 no primeiro ano antes de qualquer rendimento; (3) a janela de resgate só abre em 2029 — três anos sem acesso ao capital. O consultor redesenha a alocação: R$ 30.000 em ações do Botafogo listadas na B3 (liquidez diária), R$ 15.000 em CDB com vencimento de 12 meses e R$ 5.000 preservados em caixa. Custo da consulta: entre R$ 500 e R$ 1.500. Prejuízo potencial evitado: R$ 20.000 a R$ 50.000 em ativos ilíquidos e inadequados ao perfil.
Cenário B — João investe sem orientação: Três meses depois, o Cruzeiro registra eliminação inesperada na Copa Libertadores. O fundo anuncia queda de 18% no valor das cotas. João tenta resgatar. Descobre que a próxima janela de saída é em 2029. Seus R$ 50.000 valem agora R$ 41.000 no papel — e permanecem inacessíveis por mais 30 meses. A diferença entre os dois cenários não é a sorte. É a presença de orientação técnica qualificada antes da decisão.
As perguntas que um gestor de patrimônio fará antes de qualquer aporte em SAF
O caso de Pedro Lourenço é fascinante como estudo de gestão esportiva — mas investidores individuais com patrimônio de R$ 50 mil, R$ 200 mil ou mesmo R$ 1 milhão estão operando em um universo completamente diferente do de um empresário com R$ 7,5 bilhões em ativos.
Antes de qualquer aplicação ligada a clubes de futebol, um consultor de gestão de patrimônio levantará questões que a maioria dos torcedores nunca considerou:
- Você se enquadra formalmente na categoria de investidor qualificado exigida pela CVM para esse produto?
- Qual percentual do seu patrimônio total você pode imobilizar por cinco a dez anos sem comprometer aposentadoria, emergências ou outros objetivos financeiros?
- O fundo ou produto está devidamente registrado e autorizado pela CVM, com documentação disponível para consulta?
- Qual é o histórico de governança e transparência do clube ou veículo de investimento em questão — e o que aconteceu com investidores de SAFs que entraram em crise?
- Existe distribuição de dividendos prevista, ou o retorno depende exclusivamente da valorização do ativo?
Essas perguntas não têm respostas ruins — têm respostas honestas. E é exatamente esse o valor de contar com um especialista antes de deixar a paixão pelo time guiar uma decisão financeira de médio ou longo prazo.
Aviso: este artigo tem caráter exclusivamente informativo e jornalístico. Não constitui recomendação de investimento. Consulte sempre um profissional habilitado e registrado na CVM antes de tomar decisões financeiras.
Se você quer entender como investimentos alternativos — incluindo SAFs — se encaixam (ou não) na sua estratégia de patrimônio em 2026, um especialista em gestão de investimentos pode ajudar a mapear riscos e oportunidades com base no seu perfil real.

Jose Santos