Matteo Berrettini chegou às quartas de final de Roland Garros 2026 classificado como o número 105 do mundo — o tenista mais baixo no ranking a atingir esta fase do torneio parisiense desde 2007. Nesta quarta-feira, 3 de junho de 2026, ele enfrenta o compatriota Matteo Arnaldi na Quadra Philippe-Chatrier, em Paris, em um confronto histórico entre dois italianos que garante ao menos um representante da Itália nas semifinais. A trajetória de Berrettini em Roland Garros 2026, porém, vai muito além do tênis: ela é um estudo de caso raro sobre o que acontece ao corpo de um atleta depois de múltiplas cirurgias — e sobre o papel decisivo da medicina esportiva nesse processo.
Quatro Anos de Lesões e Quatro Edições Perdidas
Berrettini não disputava Roland Garros desde 2021, quando chegou às quartas de final pela primeira vez. Nos quatro anos seguintes, uma sequência brutal de problemas físicos o afastou do circuito em momentos decisivos:
Em 2022, sofreu uma ruptura abdominal logo após a final de Wimbledon — seu maior título — e foi operado. No mesmo ano, foi diagnosticado com uma arritmia cardíaca que exigiu procedimento especializado. Em 2023, passou por uma cirurgia no ombro. Em 2024, uma lesão no pulso voltou a interrompê-lo no meio da temporada.
"Depois de todas essas dificuldades, voltei mais uma vez", disse Berrettini após sua vitória sobre Juan Manuel Cerundolo, que garantiu sua vaga nas quartas. A frase simples resume o que especialistas em medicina esportiva reconhecem como um dos processos de reabilitação mais complexos que um atleta profissional pode enfrentar: recuperar o rendimento de elite após cirurgias em diferentes estruturas do corpo, em curtos espaços de tempo.
Por Que Múltiplas Cirurgias São um Desafio Diferente
Uma única cirurgia esportiva já exige de seis meses a mais de um ano de reabilitação estruturada, dependendo da região afetada. Quando há intervenções em estruturas distintas — abdômen, coração, ombro e pulso, como no caso de Berrettini —, o desafio muda de natureza.
Cada cirurgia altera o padrão de movimento do atleta. Para compensar uma dor no ombro, por exemplo, o tenista inconscientemente muda o gesto do saque — o que pode sobrecarregar o pulso, o cotovelo ou a coluna. Esse fenômeno, chamado de "compensação biomecânica", é uma das principais causas de lesões secundárias em atletas com histórico cirúrgico extenso.
Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), a reabilitação de atletas com múltiplas lesões exige equipe multidisciplinar: ortopedista, fisiatra, fisioterapeuta, preparador físico e, nos casos com complicações cardíacas, cardiologista. A presença de um médico do esporte que coordene esse conjunto é o que diferencia uma recuperação bem-sucedida de uma que resulta em novas lesões.
O Que Atletas Amadores Brasileiros Podem Aprender com Berrettini
O futebol de fim de semana, a corrida de rua, o crossfit e o tênis recreativo movimentam milhões de brasileiros. E junto com eles, vêm as lesões que, tratadas de forma errada ou incompleta, se acumulam — criando um histórico semelhante, em escala menor, ao de Berrettini.
Os erros mais comuns que médicos esportivos identificam em praticantes amadores:
Retorno precoce à atividade. Voltar ao treino antes da liberação médica porque "a dor passou" é uma das causas mais frequentes de recidiva. A ausência de dor não significa que a estrutura está cicatrizada.
Fisioterapia incompleta. Interromper o tratamento fisioterápico quando os sintomas diminuem, sem concluir o protocolo de fortalecimento e reequilíbrio muscular, deixa a região vulnerável.
Ignorar a compensação biomecânica. Sem avaliação funcional após uma lesão, o atleta amador volta a treinar com padrões de movimento alterados — acumulando sobrecarga em outros pontos do corpo.
Não investigar a causa raiz. Uma lesão que se repete no mesmo local normalmente tem uma causa biomecânica, postural ou de fraqueza muscular específica. Sem investigar, o ciclo de lesão e recuperação nunca termina.
Como já observado em casos como o de Arthur Rinderknech, que precisou administrar sua preparação para Roland Garros com cuidado redobrado após lesões recentes, atletas de alto rendimento enfrentam pressão constante para acelerar o retorno — e esse erro também afeta os amadores que subestimam o tempo real de recuperação.
Quando Procurar um Especialista em Medicina Esportiva?
Não é necessário ter o nível de Berrettini para precisar de um médico do esporte. A consulta com especialista é indicada quando:
- A dor persiste por mais de duas semanas após um esforço físico ou trauma
- Há histórico de mais de duas lesões no mesmo grupo muscular ou articulação
- O atleta retornou de uma cirurgia e apresenta limitação funcional após seis meses
- Há inchaço, instabilidade ou estalos recorrentes em uma articulação
A medicina esportiva não é exclusiva de profissionais. O acompanhamento especializado pode reduzir drasticamente o tempo de inatividade e o risco de lesões acumuladas — que, no longo prazo, comprometem a capacidade de praticar qualquer esporte.
Aviso: este artigo tem caráter informativo e jornalístico. Para avaliação de lesões esportivas, consulte um médico do esporte ou ortopedista. Não utilize este conteúdo como substituto de consulta médica.
Berrettini e a Mensagem Para Quem Não Desiste
Roland Garros 2026 pode ser lembrado como o torneio em que Matteo Berrettini, com 30 anos e um corpo que passou por quatro cirurgias em quatro anos, lembrou ao mundo que a volta é possível — quando conduzida com paciência, equipe adequada e respeito ao tempo do corpo.
Para os milhões de brasileiros que praticam esportes amadores e enfrentam lesões recorrentes, a lição de Berrettini vai além da quadra: recuperação esportiva eficiente não é luxo de atleta profissional. É uma decisão de saúde que qualquer praticante pode tomar — começando por consultar o especialista certo.
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Gabriel Alves