Um apostador de São Bernardo do Campo (SP) virou milionário na noite de sexta-feira, 25 de setembro de 2026. A aposta simples de 15 números registrada na lotérica Estrada de Ouro acertou em cheio os dezenas do concurso 3789 da Lotofácil — e o único ganhador da faixa principal levou R$ 8.055.220,68. Enquanto o Brasil comemora mais um grande prêmio, especialistas em gestão de patrimônio fazem a pergunta que mais importa: e agora, o que fazer com esse dinheiro?
O resultado do concurso 3789
Os dezenas sorteadas na sexta-feira foram 06, 07, 08, 09, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 23 e 25. Além do ganhador principal, outras 526 apostas acertaram 14 números e levaram R$ 2.259,58 cada uma, segundo os dados da Caixa Econômica Federal. A arrecadação total do concurso foi de R$ 44.013.987,50 — o prêmio estimado era de R$ 9 milhões.
O sorteio foi transmitido ao vivo e rapidamente dominou as buscas no Google: "lotofacil 3789", "resultado lotofacil hoje" e "ganhador lotofacil SP" apareceram entre os termos mais pesquisados do país na madrugada de sábado. Por trás dos números, porém, há uma história que começa — não termina — no momento do acerto.
Por que os primeiros 90 dias definem tudo
Profissionais de gestão de patrimônio são enfáticos: os três primeiros meses após o recebimento de um prêmio milionário são os mais críticos para o futuro financeiro do ganhador. Estudos divulgados por plataformas especializadas como BNL Data documentam que cerca de 70% dos vencedores de grandes prêmios no Brasil gastam todo o valor em menos de cinco anos — não por falta de dinheiro, mas por ausência de estrutura.
Os cinco erros mais comuns são bem conhecidos entre os consultores: gastos impulsivos imediatos, empréstimos informais a familiares, investimentos em negócios sem análise, desconhecimento das obrigações fiscais e ausência de diversificação de ativos. Cada um desses erros pode, isoladamente, comprometer parcela significativa do patrimônio.
Antes de qualquer movimentação, o ganhador do concurso 3789 já teve R$ 2.416.566,20 retidos na fonte pela Caixa, correspondente à alíquota de 30% de IRRF que incide sobre prêmios de loteria federal, conforme determina o artigo 14 da Lei nº 9.532/1997. O valor líquido a ser depositado é de aproximadamente R$ 5.638.654,48 — um montante que, sem planejamento, pode derreter em velocidade surpreendente.
O que a lei exige do ganhador
Muita gente não sabe: mesmo com o imposto já retido na fonte, o ganhador ainda tem obrigações fiscais a cumprir. A Receita Federal exige que o prêmio recebido seja informado na declaração anual do IRPF, na ficha "Rendimentos Sujeitos à Tributação Exclusiva/Definitiva". Não declarar corretamente pode gerar malha fina nos anos seguintes — especialmente se houver compra de imóveis, veículos ou qualquer movimentação patrimonial expressiva.
Advogados especializados em direito tributário recomendam também avaliar a conveniência de constituir uma holding familiar. Para quem passa a ter um patrimônio acima de R$ 1 milhão, a estrutura de holding pode facilitar a gestão de bens, reduzir a carga tributária em transmissões e proteger o patrimônio em casos de divórcio ou demandas judiciais futuras. Essa decisão, porém, exige análise individualizada por um advogado e um contador.
Caso concreto: dois caminhos para os R$ 5,6 milhões
Imagine dois ganhadores fictícios do concurso 3789 — vamos chamá-los de Carlos e Marcos. Ambos receberam os mesmos R$ 5.638.654,48 líquidos. A diferença está no que cada um fez nos primeiros 30 dias.
Carlos colocou tudo na poupança e começou a receber pedidos de familiares. Em seis meses, havia emprestado R$ 180.000 para parentes (sem contrato), comprado um carro de R$ 120.000, reformado a casa por R$ 95.000 e feito uma viagem internacional de R$ 40.000. Total gasto: R$ 435.000 — apenas em despesas não planejadas. O restante na poupança rende 0,5% ao mês, ou seja, R$ 26.000 mensais — mas as demandas continuam crescendo.
Marcos contratou um gestor de patrimônio independente na primeira semana. Com uma estratégia simples de alocação em três camadas:
- Renda fixa (CDB CDI+): R$ 2,8 milhões investidos em CDBs de grandes bancos com taxa de 110% do CDI (10,75% ao ano): retorno anual de R$ 329.050, ou R$ 27.420 mensais.
- Fundos Imobiliários (FIIs): R$ 1,5 milhão distribuído em FIIs com dividend yield médio de 8% ao ano: R$ 120.000 anuais em rendimento isento de IR para pessoa física.
- Reserva de liquidez (Tesouro Selic): R$ 600.000 em Tesouro Selic para emergências, rendendo 10,5% ao ano com resgate em D+1.
- Consumo consciente: R$ 738.654 destinados a gastos pessoais, presentes para família e projetos de vida.
Resultado para Marcos: renda passiva mensal de R$ 37.420 — para sempre — sem tocar nos R$ 4,9 milhões investidos. Em cinco anos, enquanto Carlos terá gasto quase todo o prêmio, Marcos terá acumulado adicionalmente mais de R$ 2 milhões em juros e dividendos. A diferença de patrimônio entre os dois perfis, ao fim de dez anos, ultrapassa R$ 5 milhões — ou seja, mais do que o prêmio original.
Quem pode ajudar — e quanto custa
Para prêmios acima de R$ 1 milhão, consultar um profissional certificado CFP (Certified Financial Planner) ou um gestor independente registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é a recomendação unânime entre os especialistas. Esses profissionais têm obrigação fiduciária com o cliente — ao contrário de gerentes bancários, que têm metas de venda de produtos financeiros.
O custo de uma consultoria de gestão patrimonial varia entre R$ 500 e R$ 3.000 por hora para honorários avulsos, ou entre 0,5% e 1,5% do patrimônio ao ano em modelos de gestão contínua. Para um prêmio de R$ 5,6 milhões, isso representa entre R$ 28.000 e R$ 84.000 anuais — menos de 1,5% do capital, com potencial de preservar e multiplicar os outros 98,5%.
Além do gestor financeiro, um advogado tributarista e um contador são igualmente essenciais para estruturar a declaração fiscal, avaliar a conveniência da holding e garantir que todas as movimentações estejam documentadas corretamente perante a Receita Federal.
O que fazer nos próximos dias
A sequência que especialistas de gestão de patrimônio recomendam para novos milionários segue uma lógica simples:
Primeiro, silêncio: não anunciar o prêmio para amigos e familiares por pelo menos duas semanas. A pressão social sobre ganhadores de loteria é documentada e leva a decisões precipitadas.
Segundo, proteção fiscal: consultar um advogado tributarista ainda na primeira semana para entender as obrigações do IRPF e avaliar a estrutura jurídica mais adequada.
Terceiro, estratégia patrimonial: contratar um gestor de patrimônio independente nas primeiras duas semanas, antes de qualquer investimento relevante.
Quarto, separação de contas: abrir uma conta em um banco de investimentos exclusiva para o prêmio, separada da conta corrente do dia a dia.
Quinto, orçamento de liberdade: definir um percentual do prêmio para gastos pessoais e presentear a família — com teto claro, para que o "custo emocional" da vitória não comprometa a base patrimonial.
O concurso 3789 da Lotofácil distribuiu R$ 8 milhões em São Bernardo do Campo. Se bem gerido, esse valor pode gerar mais de R$ 450.000 por ano em renda passiva pelo resto da vida do ganhador. Para que isso aconteça, o próximo passo é mais importante do que os 15 números acertados.
Este conteúdo tem caráter informativo. Decisões de investimento e planejamento tributário devem ser tomadas com orientação de profissionais habilitados. Consulte um gestor de patrimônio certificado ou um advogado tributarista antes de qualquer movimentação financeira relevante.

Jose Santos