A morte do jornalista esportivo João Garcia — o "Gordo Bola Cheia", voz que marcou décadas no rádio gaúcho — na noite de 18 de agosto de 2026, aos 77 anos, comoveu o jornalismo do Rio Grande do Sul. Mas além do luto por um comunicador apaixonado, a trajetória de saúde de João Garcia coloca uma questão urgente sobre a mesa: quantos brasileiros convivem com a aterosclerose sem saber — e esperam tempo demais para buscar um especialista?
O que é a aterosclerose e por que ela é chamada de "doença silenciosa"?
A aterosclerose é o acúmulo progressivo de placas de gordura, cálcio e células inflamatórias nas paredes internas das artérias. Com o tempo, essas placas endurecem e estreitam os vasos, reduzindo o fluxo sanguíneo para órgãos vitais — coração, cérebro, rins e membros inferiores.
O problema central: ela não dói. Nas primeiras décadas, o organismo compensa o estreitamento arterial sem produzir sintomas perceptíveis. O paciente se sente "normal" enquanto o dano avança silenciosamente. Segundo o Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares são responsáveis por mais de 380 mil mortes por ano no Brasil — a principal causa de óbito no país — e a aterosclerose está na base da maioria desses casos.
Os fatores de risco são conhecidos, mas raramente levados a sério na prática: hipertensão arterial não controlada, diabetes, tabagismo por mais de dez anos, sedentarismo, obesidade abdominal e histórico familiar de infarto ou AVC antes dos 60 anos. Basta acumular dois ou três desses fatores para que o risco cardiovascular em 10 anos salte de 5% para acima de 20%.
A trajetória de João Garcia: o que acontece quando os sinais são ignorados
João Garcia reunia, ao longo de décadas de trabalho intenso, vários dos fatores de risco clássicos. Sua trajetória médica incluiu dois infartos do miocárdio e três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) — cada um deixando sequelas que se somaram. Por fim, a aterosclerose comprometeu a circulação nas pernas e provocou insuficiência renal grave, levando à necessidade de hemodiálise três vezes por semana. Meses antes de morrer, o jornalista chegou a pedir apoio público para custear o tratamento — momento em que muitos brasileiros souberam da extensão do que ele enfrentava.
Esse encadeamento não é incomum. A aterosclerose age como um incêndio que se alastra: primeiro atinge as coronárias (infarto), depois o cérebro (AVC), depois os rins (insuficiência renal crônica) e as artérias dos membros inferiores (isquemia periférica). Cada episódio deixa dano permanente. A soma dos danos, ao longo dos anos, torna o organismo progressivamente incapaz de compensar.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estima que cerca de 70% dos infartos e AVCs poderiam ser evitados ou postergados com identificação precoce dos fatores de risco e tratamento adequado. O desafio não é diagnóstico — é a janela de tempo em que o paciente demora para chegar ao consultório.
Quais sintomas da aterosclerose indicam que é hora de consultar um especialista?
Esta é a pergunta central que a história de João Garcia coloca para qualquer brasileiro acima dos 45 anos. Veja os sinais que não devem ser ignorados ou atribuídos ao "envelhecimento normal":
Claudicação intermitente: dor, queimação ou cãibra nas panturrilhas ao caminhar — que passa quando você para. É o sinal clássico de aterosclerose das artérias dos membros inferiores. Muitos pacientes caminham menos para evitar a dor, sem perceber que estão apenas adiando o diagnóstico.
Dor ou aperto no peito ao esforço: subir escadas, carregar sacolas ou caminhar em subida provoca desconforto torácico? Pode ser angina pectoris — estreitamento das coronárias. Não é "falta de forma física". É um alerta.
Cansaço desproporcional: exaustão ao realizar tarefas que antes eram fáceis, especialmente associada a falta de ar, pode indicar comprometimento cardíaco.
Pressão arterial acima de 140/90 mmHg repetidamente: a hipertensão não controlada é simultaneamente causa e consequência da aterosclerose — ela acelera a progressão das placas. Se seus números estão consistentemente elevados e você não tem acompanhamento regular, esse é o momento de agir.
Formigamento, palidez ou frialdade nos pés: extremidades frias e pele pálida nos pés, especialmente após esforço, indicam redução do fluxo arterial periférico.
A SBC recomenda avaliação cardiovascular de rotina para homens acima de 45 anos e mulheres acima de 55 — mesmo sem sintomas — quando dois ou mais fatores de risco estiverem presentes.
Ricardo, 57 anos, Porto Alegre: o que uma consulta precoce pode mudar?
Considere este cenário concreto: Ricardo trabalha como editor de radiojornalismo há 30 anos. Fumante por 20 anos, parou há cinco, mas mantém sedentarismo e hipertensão sem adesão regular ao tratamento. Nos últimos quatro meses, sente uma dor em queimação na panturrilha esquerda ao caminhar mais de dois quarteirões — dor que desaparece completamente quando para. Atribui ao "sedentarismo" e adia a consulta há três meses.
Se Ricardo consultar um angiologista agora (agosto de 2026): O exame de Doppler vascular arterial dos membros inferiores — custo de R$ 250 a R$ 500 em consultório particular, coberto pela maioria dos planos de saúde — pode revelar estenose arterial moderada de 50–70%. Com esse diagnóstico em mãos, o tratamento inclui estatinas de alta intensidade (R$ 40–100/mês), antiagregantes plaquetários como o AAS (R$ 10–25/mês), controle rigoroso da pressão e programa supervisionado de reabilitação vascular. Resultado esperado: estabilização da doença em 75–80% dos casos, sem cirurgia, sem internação.
Se Ricardo esperar mais dois ou três anos: A estenose pode evoluir para oclusão arterial completa — isquemia aguda de membro, emergência cirúrgica. O procedimento de revascularização ou angioplastia periférica custa entre R$ 15.000 e R$ 45.000 em planos de saúde com cobertura parcial; casos mais complexos podem exceder R$ 80.000. O risco de amputação do membro em isquemia crítica não tratada a tempo é de 15 a 25%. Se os rins forem comprometidos — como aconteceu com João Garcia — a hemodiálise crônica em clínica privada custa R$ 3.000 a R$ 6.000 por mês, indefinidamente.
A diferença entre os dois cenários de Ricardo não é sorte. É uma consulta com um especialista que ele ainda não marcou.
O que fazer a partir de hoje?
A aterosclerose é uma doença tratável quando identificada cedo. Os instrumentos diagnósticos são acessíveis. O que falta, na maioria dos casos, é a decisão de agir antes que os sintomas se tornem incapacitantes.
Avalie seus fatores de risco agora. Hipertensão, tabagismo, diabetes, histórico familiar, sedentarismo ou obesidade abdominal? Dois ou mais desses fatores, após os 45 anos, já justificam avaliação cardiológica preventiva.
Não normalize sintomas. Cansaço ao subir escadas, dor nas pernas ao caminhar, falta de ar ao esforço — esses não são inevitáveis com o passar dos anos. São sinais que precisam ser investigados.
Marque a consulta. O SUS cobre consultas e exames básicos de risco cardiovascular — mas as filas podem ser longas. Uma consulta particular com cardiologista ou angiologista permite diagnóstico rápido e plano de tratamento personalizado. Plataformas como a ExpertZoom conectam você a especialistas em saúde cardiovascular disponíveis online, para orientação imediata sobre seus exames e próximos passos.
João Garcia dedicou mais de cinco décadas ao jornalismo gaúcho, deixando uma geração de comunicadores marcada por sua voz e por seu amor ao esporte. Que sua história sirva também de alerta: a aterosclerose não espera — e a consulta médica não deveria esperar também.
Aviso: Este artigo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica. Se você apresenta os sintomas descritos, procure um profissional de saúde.

Gabriel Alves