O dia 10 de junho de 2026 é data de pagamento do Gás do Povo. Nesta quarta-feira, famílias de 2 a 3 pessoas recebem a terceira parcela anual do programa — e têm até 9 de julho para resgatar o voucher em uma das mais de 20.000 revendas credenciadas no Brasil. O problema: com o preço do GLP (gás de cozinha) acumulando alta de 117% desde o leilão da Petrobras em março de 2026, revendedores estão recusando vouchers ou, em alguns casos, cobrando diferença de preço. Você sabe quais são seus direitos?
O que é o Gás do Povo e quem tem direito
O Programa Gás do Povo se tornou lei permanente por meio da Lei 15.348, sancionada em 13 de fevereiro de 2026 pelo presidente Lula. São beneficiadas famílias cadastradas no CadÚnico com renda per capita de até meio salário mínimo, com CPF regularizado na Receita Federal e pelo menos dois membros no núcleo familiar.
Atualmente, o programa atende aproximadamente 15,5 milhões de famílias — cerca de 50 milhões de brasileiros. Os beneficiários recebem recargas gratuitas de botijão de 13 kg, com frequência que varia conforme o tamanho da família:
- Famílias de 2 ou 3 pessoas: 4 recargas por ano (uma a cada 3 meses)
- Famílias de 4 ou mais pessoas: 6 recargas por ano (uma a cada 2 meses)
O voucher pode ser resgatado pelo aplicativo Meu Social – Gás do Povo, pelo cartão Bolsa Família com chip ou por cartão de débito Caixa com CPF mais código enviado por SMS.
A crise de junho e o risco para os beneficiários
O preço do GLP disparou após o leilão da Petrobras em março de 2026, quando o custo do cilindro subiu de R$ 33,37 para R$ 72,77 — um aumento de 117%. O impacto extra aos distribuidores é estimado em R$ 200 milhões por mês.
Embora o governo federal tenha reajustado o valor do voucher em R$ 10 para 22 estados, quatro unidades da federação — Acre, Espírito Santo, Mato Grosso e Rio de Janeiro — não receberam o reajuste. Revendedores afirmam que o ajuste ainda está aquém do necessário e alertam que podem sair do programa.
Esse cenário cria um risco real para os beneficiários: ao chegar à revenda, a família pode ouvir que o estabelecimento "não aceita mais" o voucher do Gás do Povo. Mas isso é ilegal — e você tem direitos garantidos por lei.
Para entender como defender seus direitos quando um serviço essencial é interrompido, veja o caso da indenização por geladeiras danificadas durante o apagão CPFL — que explora como consumidores podem agir quando fornecedores descumprem obrigações.
Os 5 direitos do beneficiário do Gás do Povo
1. Direito à cobertura integral sem cobrança adicional
O revendedor credenciado não pode cobrar nenhuma diferença de preço ao beneficiário. O voucher cobre 100% do custo do botijão de 13 kg. Qualquer cobrança adicional é uma infração ao contrato de credenciamento com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e ao Código de Defesa do Consumidor (CDC).
2. Direito à lista de revendas credenciadas
Se a revenda habitual não estiver mais aceitando o voucher, o beneficiário tem direito a saber quais outros estabelecimentos estão credenciados na sua região. Essa informação está disponível no aplicativo Meu Social, no Portal gasdopovo.mds.gov.br ou pelo telefone 121.
3. Direito ao prazo integral de resgate
O voucher liberado no dia 10 de junho tem validade até o dia 9 de julho de 2026. Nenhum revendedor pode impor prazo menor. Se o voucher não for resgatado nesse período por falta de revenda disponível na região, o beneficiário pode registrar reclamação junto ao MDS solicitando nova janela de resgate.
4. Direito à denúncia e reparação
Se uma revenda credenciada recusar o voucher, cobrar valor adicional ou praticar qualquer irregularidade, o beneficiário pode registrar denúncia:
- Pelo aplicativo Meu Social – Gás do Povo (aba "Denúncia")
- No Procon do seu município (pessoalmente ou pelo site)
- Pelo número 151 (Ouvidoria do MDS)
- Na plataforma consumidor.gov.br
5. Direito à continuidade do programa por lei permanente
Ao contrário de programas criados por medida provisória, o Gás do Povo agora é uma política pública permanente garantida por lei — a Lei 15.348/2026. Isso significa que ele não pode ser extinto por portaria ministerial ou decreto. Qualquer interrupção exige aprovação do Congresso Nacional.
O que fazer se a revenda recusar o voucher
Se você chegar à revenda e o atendente informar que o estabelecimento "não aceita mais" o Gás do Povo, siga estes passos:
- Anote o nome e o endereço da revenda, a data e o nome do atendente
- Solicite a recusa por escrito (muitos se recusarão, mas tente)
- Acesse o app Meu Social e registre a denúncia com os dados da revenda
- Procure outra revenda credenciada na sua região
- Se não encontrar nenhuma revenda disponível, registre reclamação no Procon municipal
Um advogado especializado em direito do consumidor pode orientar sobre ações coletivas ou individuais em casos de negativa sistemática, especialmente se o beneficiário ficar sem acesso ao gás por período prolongado.
Quando procurar um advogado?
A maioria das irregularidades do Gás do Povo pode ser resolvida via canais administrativos. Mas há situações em que a orientação jurídica é essencial:
- Quando o beneficiário foi indevidamente excluído do programa sem justificativa
- Quando houve fraude no uso do voucher por terceiros
- Quando a negativa da revenda causou dano material (família ficou sem gás por período prolongado)
- Quando há suspeita de irregularidade no cadastro ou bloqueio indevido do CPF
Segundo a Lei 15.348/2026, o portal oficial do Gás do Povo disponibiliza informações sobre credenciamento, pagamentos e canais de denúncia. O Ministério do Desenvolvimento Social é responsável pelo monitoramento do programa e pode ser responsabilizado por omissão em casos de falha sistêmica no acesso ao benefício. Um advogado especializado em direito do consumidor ou direito previdenciário pode avaliar se o caso justifica ação judicial.
A situação política e o futuro do Gás do Povo
O presidente Lula chamou o leilão da Petrobras de "estupidez e banditismo" e ameaçou anulá-lo. O governo também exigiu que a estatal recompre a refinaria Mataripe, vendida à empresa emiradense Mubadala em 2021 — uma das causas da concentração do mercado de GLP, hoje dominado por apenas quatro empresas.
O cenário eleitoral de outubro de 2026 aumenta a pressão política para manter o programa funcionando. Mas, até que a crise de preços seja resolvida, são os beneficiários que ficam na linha de frente — chegando às revendas sem saber se o voucher será aceito.
Conhecer seus direitos é o primeiro passo para garantir que o benefício chegue de fato à sua mesa.

Joao Souza