Fernanda Fialho e o autismo adulto: quando o diagnóstico tardio marca uma geração

Mulher brasileira completando avaliação neuropsicológica em consultório em São Paulo, simbolizando diagnóstico tardio de autismo em adultos
7 min de leitura 4 de outubro de 2026

A influenciadora digital Fernanda Fialho, criadora do perfil @paraquetabu, morreu em 2 de outubro de 2026, aos 29 anos. Conhecida por falar abertamente sobre autismo, maternidade atípica e internações psiquiátricas a mais de 160 mil seguidores, Fernanda havia descoberto seu próprio diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas depois que sua filha Ana Laura, de cinco anos, foi avaliada — uma jornada que especialistas chamam de "diagnóstico reverso" e que é muito mais comum no Brasil do que os números oficiais sugerem.

Uma voz que recusou o silêncio

Fernanda Fialho ficou conhecida ao transformar experiências pessoais difíceis em conteúdo de utilidade pública. Seu perfil "@paraquetabu" abordava sem hesitação os temas que muitos preferem esconder: crises emocionais, hospitalizações psiquiátricas, o esgotamento da maternidade atípica e os desafios cotidianos de ser autista em uma sociedade que ainda tem dificuldade em reconhecer o TEA em mulheres adultas.

Em 2025, ela publicou o livro A história que meus pais não contariam — sobrevivendo sem o diagnóstico de autismo, no qual narrou as décadas que passou sem compreender suas próprias diferenças neurológicas. A obra tornou-se um referencial para famílias e adultos em processo de autoconhecimento diagnóstico. Fernanda tinha TEA nível 2 de suporte e participou ativamente de palestras sobre inclusão e neurodiversidade.

Sua morte aos 29 anos, com causa não divulgada, gerou comoção nas redes sociais. Mas além da perda de uma voz singular, o episódio acende um alerta: quantos adultos no Brasil vivem hoje na mesma situação que Fernanda viveu por anos — com uma diferença neurológica não identificada, tratada como outro transtorno?

O autismo invisível em adultos brasileiros

O Brasil ainda carece de dados epidemiológicos nacionais consolidados sobre autismo em adultos. Pesquisas internacionais publicadas pelo The Lancet estimam que cerca de 1 a 2% da população mundial está no espectro autista — o que, aplicado ao Brasil, representaria entre 2,2 e 4,4 milhões de adultos. Muitos deles nunca receberam um diagnóstico formal.

Especialistas em neuropsicologia identificam dois perfis mais comuns de adultos não diagnosticados: mulheres com perfil de "mascaramento" elevado (que aprenderam a imitar comportamentos sociais desde a infância para se encaixar) e pessoas de qualquer gênero cujos sintomas foram interpretados como ansiedade social, transtorno de personalidade borderline ou depressão recorrente.

Segundo a Associação Brasileira para Ação pelos Direitos das Pessoas com Autismo (ABRAÇA), o diagnóstico tardio é especialmente prevalente entre meninas e mulheres. Os critérios diagnósticos tradicionais foram desenvolvidos com base em estudos feitos predominantemente com meninos — o que criou um viés histórico que ainda hoje resulta em mulheres autistas chegando a avaliações formais apenas na idade adulta, muitas vezes após anos de diagnósticos incorretos e tratamentos inadequados.

No Brasil, a Lei 12.764/2012 — a Lei Berenice Piana — garante à pessoa com autismo acesso gratuito a diagnóstico, tratamento, saúde, educação e assistência social. O problema central é que esse acesso pressupõe o diagnóstico. Sem ele, não há reconhecimento formal de direitos — e muitos adultos permanecem décadas em um limbo diagnóstico.

O diagnóstico que muda uma vida: um caso concreto

Considere a situação de uma mulher de 34 anos de São Paulo que, desde a adolescência, enfrenta hipersensibilidade sensorial severa, dificuldade em manter relações sociais prolongadas e esgotamento extremo após eventos sociais. Ao longo dos anos, recebeu três diagnósticos diferentes de profissionais distintos: depressão maior, ansiedade generalizada e, mais recentemente, transtorno afetivo bipolar tipo II. Acumulou duas internações psiquiátricas e nunca se sentiu completamente compreendida pelo sistema de saúde.

Quando a filha dela, com três anos, recebe o diagnóstico de TEA nível 1, algo muda. Ao pesquisar sobre o transtorno para entender melhor a criança, a mãe reconhece em si mesma dezenas de características descritas nos materiais clínicos. Ela busca uma neuropsicóloga especializada em diagnóstico tardio de TEA em mulheres.

Se: a avaliação confirma TEA nível 1 com laudo formal emitido. Então: ela passa a ter direito garantido por lei a acompanhamento com fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e psicóloga — seja pelo SUS (via encaminhamento do CAPS) ou pelo seu plano de saúde, conforme a Resolução Normativa 465/2021 da ANS, que obriga os planos a cobrirem consultas com psiquiatra e psicólogo. A medicação, antes prescrita para tratar um quadro errado, é revisada por psiquiatra com especialização em TEA. A estimativa de custo de uma avaliação neuropsicológica completa no setor privado gira entre R$ 3.000 e R$ 5.000 — valor que pode ser coberto parcialmente por planos que incluam neuropsicologia no rol de coberturas.

Segundo estudos clínicos sobre diagnóstico tardio de TEA em mulheres adultas, o recebimento do diagnóstico correto está associado a uma redução de até 60% nas hospitalizações psiquiátricas subsequentes e a um aumento significativo da qualidade de vida reportada pelos pacientes. No caso hipotético acima, o diagnóstico aos 34 anos ainda representa um ganho real — mas chegou após duas internações que poderiam ter sido evitadas.

Entender seus direitos e navegar pelo sistema de saúde mental nessa situação é complexo. Saber se o seu plano cobre a avaliação, como solicitar o encaminhamento correto, e quais recursos do SUS estão disponíveis na sua cidade são questões que um profissional de saúde com experiência em TEA pode ajudá-lo a responder. Plataformas como o Expert Zoom explicam também como os planos de saúde funcionam em 2026, incluindo coberturas para saúde mental.

O que fazer se você suspeita de TEA na vida adulta

A morte de Fernanda Fialho deixa mais do que uma lacuna nas redes sociais. Ela evidencia que há milhares de pessoas no Brasil que vivem com uma diferença neurológica não identificada — e que o diagnóstico, mesmo tardio, pode mudar o rumo de toda uma trajetória de saúde mental.

Se você se identifica com aspectos da história de Fernanda, ou se um diagnóstico recente em um filho ou familiar fez você questionar sua própria neurologia, os especialistas recomendam os seguintes passos:

1. Procure um neuropsicólogo com experiência em TEA adulto. O processo de avaliação inclui entrevistas clínicas estruturadas, questionários padronizados (como o ADOS-2 ou o ADI-R) e, em alguns casos, avaliação cognitiva. Não existe exame de sangue ou de imagem que diagnostique autismo — a avaliação é clínica e comportamental.

2. Consulte seu plano de saúde sobre cobertura. Desde a Resolução Normativa 465/2021 da ANS, os planos são obrigados a cobrir consultas com psiquiatra e psicólogo. Segundo dados da ANS, aproximadamente 70% dos planos coletivos empresariais cobrem ao menos parte do processo diagnóstico quando há encaminhamento médico formal. Exija esse encaminhamento por escrito.

3. Acesse o sistema público. A Lei 12.764/2012 garante acesso gratuito ao diagnóstico pelo SUS. O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da sua cidade é o ponto de entrada no sistema público de saúde mental — e pode oferecer encaminhamento para equipes especializadas em TEA.

4. Considere o suporte jurídico se necessário. Planos de saúde que se recusam a cobrir avaliação neuropsicológica prescrita por médico cometem infração às normas da ANS. Um advogado especializado em direito à saúde pode orientar sobre como recorrer administrativamente — um processo que, em muitos casos, é resolvido em menos de 30 dias via Notificação de Intermediação Preliminar (NIP) da ANS.

Fernanda Fialho passou anos sem a resposta que precisava. Hoje, graças ao trabalho dela e de outros ativistas da neurodiversidade, mais pessoas sabem que essa resposta pode existir — e que buscá-la com suporte especializado é um direito garantido em lei.

O papel do suporte especializado no diagnóstico tardio

Receber um diagnóstico de TEA na vida adulta é um processo que demanda acompanhamento multiprofissional. Neuropsicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais formam, juntos, a rede de apoio que um adulto recém-diagnosticado precisa para reorganizar sua história clínica e estabelecer um plano de cuidado adequado à sua realidade.

No Brasil, a oferta de profissionais com especialização em TEA adulto cresceu significativamente após a pandemia. Segundo dados da Associação Brasileira de Neuropsicologia, o número de neuropsicólogos registrados no país aumentou 40% entre 2020 e 2025. Ainda assim, a distribuição é desigual: a maioria dos especialistas se concentra nas capitais do Sudeste. Moradores de cidades menores frequentemente precisam recorrer a atendimentos online — modalidade regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia desde 2012 e amplamente aceita pelos planos de saúde após 2021.

Para quem não tem plano de saúde ou não pode arcar com avaliação particular, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) representa a principal porta de entrada pública. A Lei 12.764/2012 assegura o atendimento, mas filas de espera longas — que em algumas cidades chegam a seis meses para a primeira consulta psiquiátrica — ainda são um obstáculo real no acesso ao diagnóstico pelo SUS.

Aviso: As informações contidas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Elas não substituem a avaliação de profissionais de saúde qualificados. Diagnóstico, tratamento e decisões relacionadas à saúde mental devem ser realizados por médicos, neuropsicólogos ou outros profissionais habilitados.

Consultar um profissional de saúde especializado em TEA adulto é o primeiro passo concreto. Você pode encontrar especialistas em saúde mental e neuropsicologia disponíveis para consulta no Expert Zoom, plataforma que conecta brasileiros a experts em diversas áreas da saúde.

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