Maria da Paz Ribeiro da Costa tinha 26 anos, um filho de 6 anos com autismo não verbal e nenhuma rede de apoio consistente. Em 6 de agosto de 2026, ela faleceu. A causa atribuída pelos médicos: exaustão extrema acumulada ao longo de anos de cuidado solitário. O caso provocou comoção nacional e reacendeu um debate que não pode mais ser adiado — o Brasil precisa reconhecer o burnout materno como uma emergência de saúde pública, não como sinal de fraqueza individual.
A exaustão materna como emergência de saúde pública
O termo "burnout materno" passou a ter definição legal no Brasil quando a Câmara dos Deputados aprovou, em setembro de 2025, a criação da Política Nacional de Apoio e Prevenção do Esgotamento Mental ou Burnout Relacionado à Maternidade, pelo PL 5063/23. A lei prevê que o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça acompanhamento multidisciplinar, treinamento de profissionais de saúde para identificação precoce do esgotamento e suporte integrado entre saúde, assistência social e educação.
Mas a tragédia de Maria da Paz mostra que a realidade das mães brasileiras não pode esperar pela implementação gradual de políticas. Os números são alarmantes: segundo levantamento da Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy, 9 em cada 10 mães no Brasil relatam sintomas de burnout parental. Desse total, 44% apresentam sinais moderados de esgotamento físico e emocional, e 9,37% chegam a graus severos — números que, na prática, representam milhões de mulheres na linha limítrofe entre o cansaço tolerável e o colapso.
O contexto estrutural do país agrava o problema de forma sistemática. Dados do IBGE mostram que a proporção de mulheres responsáveis pelos domicílios brasileiros passou de 38,7% em 2010 para 49,1% em 2022 — o equivalente a 36 milhões de lares chefiados por mulheres. Grande parte dessas mulheres concilia trabalho formal, cuidado de filhos e ausência de suporte do parceiro ou da família estendida. Para mães de crianças com necessidades especiais — como autismo, paralisia cerebral ou outras condições de alta demanda —, a sobrecarga é multiplicada: estima-se que essas mães dediquem, em média, o dobro de horas semanais ao cuidado comparado a mães de crianças sem deficiência, frequentemente sem remuneração, sem reconhecimento e sem pausas adequadas.
O que o esgotamento materno faz ao organismo
O burnout materno não é cansaço comum. É uma condição clínica com consequências físicas mensuráveis, que médicos e psicólogos descrevem como um esgotamento profundo das reservas energéticas do organismo. O quadro evolui em três dimensões principais.
A primeira é a exaustão emocional: sensação constante de vazio, irritabilidade exacerbada e choro frequente sem motivo aparente. A mãe sente que não tem mais nada a dar — nem para o filho, nem para si mesma. A segunda dimensão é o distanciamento do papel materno: sentimento de desconexão em relação ao filho, culpa intensa por não conseguir exercer a maternidade como imaginava e pensamentos invasivos de que "não aguentam mais". A terceira é a perda de eficácia: sensação de que, independentemente do esforço, nada funciona — as rotinas de cuidado perdem sentido e as decisões cotidianas tornam-se paralisantes.
No plano físico, o esgotamento crônico eleva os níveis de cortisol (hormônio do estresse), compromete o sistema imunológico, altera o ciclo do sono e pode levar a quadros de arritmia, hipertensão e colapso orgânico em casos extremos — o mesmo mecanismo que os médicos atribuem à morte de Maria da Paz. Profissionais de saúde são enfáticos: o burnout materno severo não se resolve com "um fim de semana de descanso". Requer intervenção especializada — psicológica, médica e, frequentemente, social.
Assim como acontece com crises de pânico na gestação e na menopausa, o esgotamento materno tem sintomas que frequentemente são confundidos com "frescura" ou "fraqueza", mas têm origem fisiológica mensurável e resposta terapêutica comprovada — desde que tratados a tempo.
Mãe solo e filho autista: quando os sinais viram emergência
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica profissional. Se você ou alguém próximo apresentar os sintomas descritos, procure atendimento especializado.
Considere o caso de Renata, 33 anos, mãe solo de Théo, 5 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) grau 2. Renata trabalha em home office durante o dia. Nos intervalos, aplica a rotina de terapias do filho: ABA, fonoaudiologia e terapia ocupacional. À noite, prepara o material do dia seguinte e lida com as crises de sono — comuns em crianças com TEA.
Se Renata dorme menos de 5 horas por noite há mais de 6 semanas consecutivas, esse é um marcador clínico de risco para esgotamento severo. Pesquisas indicam que privação de sono acumulada nesse nível reduz em até 40% a capacidade cognitiva e eleva em 3 vezes o risco de colapso emocional. Em termos práticos: a Renata que funciona com privação crônica de sono toma decisões piores, reage com menos paciência às crises do filho e entra mais rapidamente em espiral de culpa — um ciclo que retroalimenta o esgotamento.
Se ela apresenta 3 ou mais dos seguintes sinais ao mesmo tempo, a recomendação clínica é de busca imediata por avaliação psicológica:
- Dificuldade em sentir prazer em qualquer atividade (anedonia) por mais de 2 semanas
- Irritabilidade intensa e desproporcional com o filho
- Pensamentos recorrentes de fuga ou de que "não aguentam mais"
- Sintomas físicos inexplicáveis: taquicardia, falta de ar, tremores frequentes
- Isolamento completo de amigos e familiares há mais de 3 meses
Para mães em situação similar à de Renata, os especialistas recomendam que a avaliação não seja adiada além de 2 semanas após a percepção dos primeiros sinais persistentes. O atraso no tratamento pode transformar um quadro tratável em emergência psiquiátrica.
E o custo? Uma consulta com psicólogo particular no Brasil varia entre R$ 150 e R$ 350 por sessão. Um pacote inicial de 10 sessões — suficiente para estabilização de quadros leves a moderados — representa entre R$ 1.500 e R$ 3.500. Para mães sem cobertura adequada, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) oferece atendimento pelo SUS sem fila de espera em situações classificadas como urgência. O diagnóstico precoce é, invariavelmente, mais barato — em todos os sentidos — do que o tratamento do colapso.
Agosto Dourado e a invisibilidade da saúde materna
Agosto é, oficialmente no Brasil, o mês dedicado ao aleitamento materno — o chamado Agosto Dourado. Campanhas nacionais celebram o ato de amamentar e os benefícios para o bebê. Mas a saúde mental da própria mãe continua, na maioria dessas campanhas, em segundo plano.
O paradoxo é cruel: enquanto se incentiva que a mãe doe o seu corpo ao filho nos primeiros meses de vida, há pouca estrutura de apoio para garantir que esse corpo — e essa mente — sobrevivam ao longo prazo. A morte de Maria da Paz ocorreu exatamente neste mês. Neste agosto de 2026, no qual o Brasil celebra mães que amamentam e perde uma mãe para o esgotamento de cuidar.
A Política Nacional aprovada pela Câmara em 2025 é um passo necessário. Mas a burocracia legislativa não acelera no ritmo do colapso. Enquanto o texto percorre o Senado, outras Marias vivem o mesmo isolamento, a mesma privação de sono, a mesma ausência de suporte.
O que fazer se você está no limite
Se você é mãe e se reconheceu em algum dos sinais descritos neste texto, o primeiro passo é não esperar o quadro piorar. Algumas ações concretas para começar ainda esta semana:
Avalie sua situação objetivamente: a Escala de Parental Burnout Assessment (PBA), validada para a população brasileira, está disponível gratuitamente e oferece uma pontuação objetiva do nível de esgotamento — útil para apresentar a um médico ou psicólogo.
Não subestime os sinais físicos: palpitações, pressão no peito e tremores em mãe exausta merecem avaliação médica imediata, não apenas psicológica. O colapso orgânico tem sinais precursores que podem ser detectados e tratados antes do ponto de não retorno.
Busque suporte especializado em saúde materna: psicólogos com foco em maternidade oferecem abordagens específicas para o burnout materno. Práticas complementares como yoga pós-natal também são apontadas como auxiliares ao tratamento clínico para reequilíbrio físico e emocional, especialmente nas fases de estabilização.
Ative redes de cuidado entre pares: grupos de apoio a mães de crianças com TEA, como os vinculados à Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (ABRA), oferecem suporte que reduz o isolamento — um dos fatores de risco mais diretamente associados ao agravamento do burnout.
A morte de Maria da Paz não pode ser mais uma história esquecida no ciclo das notícias. Ela precisa ser o momento em que o Brasil decide, de forma concreta, que cuidar de quem cuida não é questão opcional — é urgência de saúde pública, individual e coletiva.

Gabriel Alves