Cinco dias antes do segundo turno das eleições de 2026, o Brasil vai se reunir em torno das telas para assistir ao debate da Band entre Flávio Bolsonaro e Lula, marcado para 18 de outubro às 20h. Para a maioria dos brasileiros, a noite será de tensão — não apenas política, mas também emocional. Pesquisas internacionais já confirmam o que psicólogos brasileiros observam nas clínicas: debates presidenciais de alta polarização elevam o cortisol, aumentam a irritabilidade e podem desencadear episódios de ansiedade, especialmente quando há divergência política dentro da própria família.
O confronto mais esperado do segundo turno
Com Flávio Bolsonaro somando 47,03% dos votos válidos no primeiro turno e Lula ficando com 45,16%, o segundo turno de 25 de outubro de 2026 é uma das disputas eleitorais mais acirradas da história recente do país. A diferença de menos de dois pontos percentuais garante que qualquer evento entre agora e o domingo do segundo turno seja capaz de mover o resultado — e o debate da Band, em parceria com o Estadão, será o primeiro confronto direto entre os dois finalistas.
A audiência estimada para a noite de 18 de outubro é de dezenas de milhões de brasileiros, seja pela televisão aberta ou pelas plataformas de streaming. Isso significa que, por pelo menos duas horas, uma parcela expressiva da população vai estar exposta a um estímulo de alta carga emocional — ataques, replicas, confrontos diretos, gestos, pausas e reações ao vivo.
Para a maioria das pessoas, assistir ao debate é um exercício de cidadania. Para um percentual crescente da população, porém, essa noite pode ser o pico de um processo que vem se acumulando desde o início da campanha: o estresse eleitoral crônico.
O que a ciência diz sobre o impacto psicológico dos debates
Um estudo publicado em 2025 na revista Psychiatry Research identificou que o estresse relacionado a notícias eleitorais está associado a maior risco de sintomas de depressão e ansiedade entre jovens adultos. Os pesquisadores destacaram que o mecanismo principal é a combinação entre exposição intensa a conteúdo político — especialmente nas redes sociais, em tempo real — e a sensação de impotência: o eleitor acompanha tudo, sente a tensão de tudo, mas percebe que o resultado está fora do seu controle direto.
Segundo dados da American Psychological Association, em 2024, 69% dos adultos americanos afirmaram que as eleições representavam uma fonte significativa de estresse — um salto em relação aos 52% registrados em 2016. Embora o contexto seja diferente, os mecanismos neurológicos são os mesmos: a polarização intensa ativa o sistema de resposta a ameaças do cérebro, independentemente do país.
Durante debates televisionados de alta polarização, o organismo pode reagir como se estivesse diante de uma ameaça real. Os efeitos observados clinicamente incluem aumento da frequência cardíaca, tensão muscular progressiva, dificuldade de concentração após o programa e dificuldade para dormir — especialmente quando o candidato preferido parece em desvantagem durante a transmissão.
Pessoas com histórico de transtorno de ansiedade generalizada, de síndrome do pânico ou com relacionamentos afetivos diretamente afetados pela polarização política — conflitos familiares recorrentes, divórcio por divergência política, distanciamento de filhos ou pais por razões eleitorais — formam o grupo mais vulnerável.
A exposição às redes sociais durante e depois do debate multiplica esse efeito. Um feed em tempo real com comentários acalorados, desinformação e ataques entre usuários funciona como um amplificador do estresse inicial: o cérebro continua em estado de alerta mesmo depois que a transmissão termina.
Família dividida no sofá: o que pode acontecer em 18 de outubro
Considere uma família de quatro pessoas em São Paulo, reunida para assistir ao debate da Band em 18 de outubro: dois adultos que votaram em candidatos diferentes no primeiro turno e dois filhos adolescentes. É um cenário comum — e, segundo especialistas em dinâmica familiar, potencialmente explosivo.
Pesquisas publicadas no Journal of Family Psychology indicam que confrontos verbais ligados a divergências políticas elevam o cortisol de todos os presentes em até 40% durante a discussão, com o pico de ativação ocorrendo exatamente nos momentos de ataque direto entre os candidatos. Para quem já chegou ao debate com sinais de estresse acumulado — insônia nas noites anteriores, irritabilidade, sensação de aperto no peito — o evento pode ser o gatilho de uma crise mais aguda.
O raciocínio if/then que os especialistas aplicam nesse cenário:
Se você identifica 3 ou mais dos seguintes sintomas na semana anterior ao debate — insônia ou sono fragmentado, irritabilidade fácil e desproporcional, dificuldade de se concentrar no trabalho ou nos estudos, sensação de aperto no peito ao ver notícias políticas, perda de apetite ou compulsão alimentar, afastamento de pessoas próximas por medo de conflito — então seu sistema nervoso já ultrapassou o limiar de resposta adaptativa ao estresse eleitoral.
Nesse caso, uma única noite de debate mal gerenciada pode ser suficiente para desencadear uma crise de ansiedade aguda ou um episódio de pânico.
Se após o debate de 18 de outubro você perceber que os sintomas persistem por mais de 72 horas — dificuldade para dormir, ruminação excessiva sobre o resultado, conflitos familiares que continuam nos dias seguintes, incapacidade de trabalhar normalmente — então esse não é mais o estresse normal de uma eleição acirrada: é um sinal de que o apoio profissional se tornou necessário.
O Conselho Federal de Psicologia registrou crescimento expressivo na procura por atendimento psicológico durante os segundos turnos das últimas eleições brasileiras, com clínicas populares e serviços de saúde mental relatando aumento de até 30% nas consultas nos 10 dias anteriores a cada turno.
Os três estágios do estresse eleitoral: onde você está?
Os profissionais de saúde mental que trabalham com ansiedade política descrevem três estágios distintos de resposta ao estresse eleitoral:
Estágio 1 – Reativo (esperado): tensão durante e imediatamente após o debate, sensação intensa de alívio ou decepção de acordo com o desempenho do candidato preferido, normalização completa em 24 a 48 horas. Esse estágio é saudável e faz parte do engajamento cívico.
Estágio 2 – Acumulativo (requer atenção): sintomas que persistem além de 48 horas, comprometendo sono, alimentação ou relações pessoais de forma recorrente ao longo da campanha. Esse estágio ainda pode ser gerenciado com estratégias de autocuidado estruturadas — limitar o consumo de notícias a janelas definidas do dia, preservar espaços de lazer completamente desvinculados da política e estabelecer acordos claros sobre conversas políticas em família.
Estágio 3 – Crise (consulta necessária): episódios de pânico, pensamentos intrusivos e persistentes sobre o resultado eleitoral, isolamento social progressivo, conflitos familiares com rupturas reais ou comprometimento funcional no trabalho e nos estudos. Esse estágio exige avaliação e acompanhamento profissional. A orientação do Conselho Federal de Psicologia é buscar atendimento especializado sem esperar os sintomas se agravarem.
Muitas pessoas subestimam esse processo porque naturalizam o estresse de campanha. "Todo mundo está nervoso por causa das eleições" é uma das frases que profissionais de saúde mental mais ouvem na sala de espera — e que frequentemente mascara um quadro que já precisaria de intervenção.
Estratégias práticas antes, durante e depois do debate de 18 de outubro
Antes (até 18 de outubro):
- Defina com antecedência com quem você vai assistir ao debate. Reunir pessoas com opiniões muito divergentes em ambientes domésticos pequenos tende a transformar o debate televisivo em um conflito familiar.
- Combine previamente quanto tempo vão dedicar a discussões políticas após o programa — 30 minutos é um limite razoável que permite o processamento sem a escalada emocional noturna.
- Se você tem histórico de transtorno de ansiedade, avalie com seu psicólogo ou psiquiatra a conveniência de uma sessão antes ou logo depois do debate.
Durante:
- Intervalos breves — 5 minutos a cada 45 minutos de transmissão — reduzem a resposta de estresse agudo sem comprometer o acompanhamento do conteúdo.
- Desative as notificações de redes sociais durante o debate. O feed em tempo real amplifica o estresse sem acrescentar informação que não esteja disponível no próprio programa.
- Se a discussão familiar começar a escalar, é legítimo sair do ambiente por alguns minutos. Regular o próprio estado emocional não é sinal de fuga — é uma competência de saúde mental.
Depois:
- Limite o consumo de análises e comentários pós-debate a, no máximo, uma hora após o término da transmissão. A análise noturna é o principal gatilho de escalada emocional que impede o sono.
- Dê ao seu organismo o tempo que ele precisa para sair do estado de ativação. Uma caminhada, uma conversa sobre outro assunto ou simplesmente uma boa noite de sono faz mais pelo seu julgamento político do que mais 3 horas de Twitter.
- Se os sintomas persistirem por mais de 72 horas, consulte um especialista.
Assim como a ansiedade do mata-mata da Copa do Mundo pode comprometer o desempenho e a saúde de torcedores, a tensão de um segundo turno polarizado pode ter consequências reais sobre o bem-estar de quem acompanha a disputa com alta intensidade emocional.
O debate vai acabar, mas sua saúde não
O debate da Band em 18 de outubro será intenso. A disputa mais acirrada das últimas décadas vai continuar testando os limites emocionais dos eleitores até as 17h do dia 25. A democracia precisa de cidadãos engajados — mas precisa, acima de tudo, de cidadãos saudáveis o suficiente para exercerem seu papel de forma plena.
Se você percebe que o calendário eleitoral está afetando seu sono, suas relações ou sua capacidade de trabalhar, não é preciso esperar o segundo turno passar para buscar apoio. Expert Zoom conecta você a psicólogos, psiquiatras e terapeutas especializados em ansiedade — por videochamada, na sua agenda, sem deslocamento.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica ou psicológica. Se você está enfrentando sintomas graves de ansiedade, depressão ou crise de pânico, procure imediatamente um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida): 188.

Gabriel Alves