Desde março de 2026, o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC) registrou ao menos seis ocorrências envolvendo serpentes peçonhentas em residências da Grande Florianópolis. Em 29 de março, uma cobra coral verdadeira — considerada a mais venenosa do Brasil — foi capturada no Campeche, em Florianópolis. Em 17 de abril, outro exemplar da mesma espécie apareceu dentro de uma casa no bairro Bela Vista, em São José. O que parecia episódio isolado se tornou um padrão: as cobras estão chegando às cidades, e 2026 marca um aumento significativo desses encontros em ambientes urbanos.
Por que as cobras estão invadindo casas em 2026
A explicação está na combinação de fatores climáticos e ambientais. O major Sanino, supervisor da Central de Operações do CBMSC, resume bem: "É a época mais quente do ano. Entre a primavera e o verão, as cobras encontram alimento com mais facilidade, e é também o período reprodutivo delas." Com a chegada do outono, o padrão se repete: serpentes, escorpiões e aranhas buscam abrigo em ambientes mais quentes — e as casas oferecem condições ideais.
Há um fator mais estrutural em jogo. Estudos publicados na revista Scientific Reports, da Nature, confirmam que as mudanças climáticas estão alterando os padrões de distribuição de serpentes na Mata Atlântica. A urbanização crescente e a fragmentação de habitats naturais empurram as cobras para dentro dos bairros. Os roedores — principal fonte de alimento das serpentes — proliferam em áreas urbanas, atraindo predadores atrás deles.
Os dados nacionais confirmam a tendência: em 2023, o Brasil registrou mais de 32.000 acidentes com serpentes, segundo o Ministério da Saúde. Em 2024, foram 31.735 notificações e 127 mortes. Pesquisadores apontam crescimento de 16% nos casos entre 2022 e 2023.
As cobras mais perigosas encontradas em casas brasileiras
Nem toda cobra que entra em casa representa o mesmo risco. Conhecer as espécies mais comuns é o primeiro passo para reagir com calma e segurança.
Cobra coral verdadeira (Micrurus spp.): altamente venenosa, com efeito neurotóxico que pode causar paralisia muscular e parada respiratória. Identificá-la corretamente é difícil — cobras coral falsas têm padrão similar de anéis coloridos. A regra prática: trate toda cobra com anéis vermelho, preto e amarelo como perigosa.
Jararaca (Bothrops jararaca): responsável pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. Causa destruição tecidual localizada, distúrbios de coagulação e, sem tratamento, pode levar a complicações graves. Em 11 de março de 2026, uma jararaca foi capturada em residência no bairro Forquilhas, em São José.
Outras espécies: a caninana (não peçonhenta) também aparece frequentemente em casas e é facilmente confundida com espécies venenosas. Em caso de dúvida, nunca tente identificar sozinho — acione o 193 imediatamente.
O que fazer (e o que NÃO fazer) ao encontrar uma cobra
A reação correta nos primeiros minutos pode salvar vidas. As recomendações do CBMSC e dos toxicologistas são claras.
O que fazer:
- Mantenha distância segura e isole a área, fechando portas e janelas para conter o animal em um cômodo
- Afaste crianças, idosos e animais de estimação
- Ligue imediatamente para o 193 (Bombeiros) — equipes treinadas realocam as serpentes sem matá-las
- Se alguém for picado, mantenha a vítima imóvel e em repouso; transporte-a ao pronto-socorro mais próximo com urgência
O que NÃO fazer:
- Jamais tente capturar ou matar a cobra — a maioria dos acidentes acontece exatamente nessa tentativa
- Não aplique torniquete no membro picado
- Não faça cortes no local da picada
- Não tente sugar o veneno
- Não use remédios caseiros, ervas ou álcool na ferida — todas essas práticas pioram o quadro clínico
Em caso de picada, o Centro de Informações e Assistência Toxicológica atende 24 horas pelo 0800 643 5252. O antídoto (soro antiofídico) é distribuído gratuitamente pelo SUS em hospitais e UPAs de todo o Brasil — produzido pelo Instituto Butantan, em São Paulo, que fabrica mais de 420.000 frascos por ano.
Como prevenir a entrada de serpentes em casa
A prevenção é a estratégia mais eficaz. Pequenas mudanças no entorno da residência reduzem significativamente o risco de encontros indesejados.
Mantenha o gramado aparado e retire entulhos, madeiras empilhadas e materiais de construção do quintal — esses locais são abrigo perfeito para serpentes. Vede frestas em paredes, fundações e rodapés. Controle a população de roedores: ratos e camundongos são a principal atração para cobras em ambientes urbanos.
Para famílias com pets, atenção redobrada: cães e gatos são frequentemente picados antes de qualquer humano da casa. Se o animal apresentar inchaço, salivação excessiva, fraqueza ou dificuldade respiratória após uma exploração no quintal, acione um veterinário de urgência imediatamente.
Quando acionar um veterinário especializado
Nem todo encontro resulta em picada — mas o susto e a dúvida sobre o estado do animal de estimação são comuns. Um veterinário especializado em répteis ou em urgências animais pode:
- Identificar a espécie a partir de fotos ou descrição
- Avaliar sintomas de envenenamento em pets e indicar o tratamento correto com soro antiofídico
- Orientar sobre o comportamento das cobras locais e o risco real de cada espécie
- Ajudar a adaptar o ambiente doméstico para reduzir a presença de animais silvestres
O encontro com uma cobra em casa é assustador — mas é também uma oportunidade para agir com informação. Profissionais especializados estão disponíveis para tirar dúvidas e garantir a segurança da sua família e dos seus animais.
Este artigo tem caráter informativo. Em caso de picada, acione o 193 ou o 0800 643 5252 imediatamente e procure atendimento médico de emergência.

Fernanda Rodrigues