40 anos de Chernobyl: o que o maior desastre nuclear da história ainda revela sobre os riscos da radiação para a sua saúde

Usina nuclear de Chernobyl com o reator 4 e a cúpula de contenção construída em 2013, Ucrânia

Photo : Paweł 'pbm' Szubert / Wikimedia

4 min de leitura 27 de abril de 2026

Em 26 de abril de 2026, o mundo marcou os 40 anos do acidente nuclear de Chernobyl — o maior desastre desta natureza na história da humanidade. Enquanto cerimônias de memória foram realizadas na Ucrânia, cientistas e médicos reafirmaram: os efeitos da radiação sobre a saúde humana continuam sendo estudados e, em algumas regiões, sentidos até hoje.

O que aconteceu em Chernobyl — e o que restou

Na madrugada de 26 de abril de 1986, uma explosão no reator 4 da usina nuclear de Chernobyl, próxima à cidade de Pripyat, liberou uma nuvem radioativa. Em questão de dias, a contaminação se espalhou pela Europa inteira. Trinta e um trabalhadores e bombeiros morreram nas semanas seguintes à explosão por exposição direta à radiação.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estima que aproximadamente 4.000 pessoas morreram prematuramente em decorrência da exposição à radiação — uma cifra contestada por organizações ambientais que sugerem números maiores. Em 2025, um ataque com drone danificou o escudo protetor instalado sobre o reator 4. Embora medições externas tenham indicado níveis de radiação dentro da normalidade, a AIEA apontou comprometimento da capacidade de contenção.

A zona de exclusão ao redor da usina, com raio de 30 quilômetros, não poderá ser habitada com segurança pelos próximos 24.000 anos, segundo estimativas baseadas na meia-vida dos materiais radioativos liberados.

Césio-137, javalis e a contaminação que não desapareceu

Quarenta anos depois, o principal elemento radioativo de preocupação é o césio-137, com meia-vida de aproximadamente 30 anos. Ele ainda é detectável no solo e na cadeia alimentar de regiões da Europa Central e Oriental — especialmente em cogumelos silvestres e animais que se alimentam de vegetação contaminada.

Na Alemanha, em 2025, foram abatidos 2.927 javalis com contaminação radioativa acima do limite permitido, sendo 2.308 apenas na Baviera, segundo dados do governo alemão. Na Saxônia, em 2024, 109 javalis ultrapassaram os índices de segurança. Esses animais acumulam césio porque escavam e se alimentam de raízes e fungos do solo florestal, onde o elemento persiste.

A União Europeia, que hoje classifica a energia nuclear como "sustentável" em seu sistema de taxonomia verde, reconhece ao mesmo tempo que a gestão de resíduos radioativos de longa duração permanece sem solução definitiva — uma contradição que cientistas e ambientalistas apontam com frequência.

Câncer de tireoide: a herança invisível da radiação

O legado médico mais documentado de Chernobyl é o aumento nos casos de câncer de tireoide, especialmente em crianças que viviam nas regiões mais afetadas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 6.000 casos de câncer de tireoide foram diagnosticados em crianças e adolescentes que eram jovens no momento do acidente. Quinze dessas crianças morreram por câncer de tireoide até 2005. A maioria, porém, foi tratada com sucesso quando o diagnóstico ocorreu precocemente.

O iodo radioativo (iodo-131) liberado em Chernobyl foi o principal responsável. A tireoide absorve iodo naturalmente para produzir hormônios — e não diferencia entre o iodo estável e o radioativo. Em crianças, cuja tireoide é proporcionalmente mais ativa, o dano foi especialmente severo. O iodo-131 tem meia-vida de apenas 8 dias, o que significa que hoje ele não representa mais risco direto. Mas o caso Chernobyl é o maior estudo natural sobre os efeitos do iodo radioativo no organismo humano.

O que a radiação ionizante faz com o organismo

A radiação ionizante — aquela com energia suficiente para remover elétrons de átomos — causa danos ao DNA celular. Em doses elevadas e agudas, como as sofridas pelos bombeiros de Chernobyl, provoca a chamada "síndrome de radiação aguda": náuseas, queda de cabelo, queimaduras internas, falência de órgãos e morte. Em doses baixas e crônicas, o principal risco é o desenvolvimento de cânceres ao longo de anos ou décadas.

Os órgãos mais sensíveis à radiação são a medula óssea (risco de leucemia), a tireoide (especialmente em crianças), o pulmão (por inalação de partículas) e a pele (por exposição direta). Trabalhadores de saúde que realizam procedimentos como radiografias ou tomografias frequentes devem usar equipamentos de proteção adequados.

No Brasil, o risco de exposição radioativa em contexto doméstico é baixo. O gás radônio — radioativo e incolor — pode acumular-se em ambientes fechados com pouca ventilação, especialmente em regiões com solos graníticos como partes de Minas Gerais e São Paulo.

Quando buscar avaliação médica

Na maioria dos casos, o cidadão brasileiro não está em risco de exposição radioativa acima dos limites seguros. Porém, algumas situações justificam uma consulta médica para avaliação especializada:

  • Trabalhadores da área de radiologia, radioterapia ou medicina nuclear que realizam exames frequentes e não têm certeza se seus equipamentos de proteção são adequados
  • Moradores de regiões com alto índice de radônio no solo que notam acúmulo do gás em ambientes fechados
  • Pacientes submetidos a radioterapia que desenvolvem sintomas inexplicáveis após o tratamento
  • Pessoas com histórico familiar de câncer de tireoide que querem fazer um rastreamento preventivo

Um médico clínico geral ou endocrinologista pode indicar os exames mais adequados — como ultrassonografia da tireoide ou dosagem de TSH — e avaliar se há indicação de acompanhamento especializado.

Quarenta anos após Chernobyl, o maior legado científico do acidente é o conhecimento aprofundado sobre como a radiação afeta o corpo humano. Esse conhecimento hoje salva vidas — e está à disposição de qualquer pessoa que busque orientação profissional.

No Expert Zoom, você encontra médicos especialistas em endocrinologia, clínica médica e medicina do trabalho disponíveis para consultas sobre exposição à radiação e saúde preventiva.

Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual. Sintomas ou preocupações com exposição à radiação devem ser discutidos com um profissional de saúde qualificado.

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