Pela primeira vez em mais de um século de futebol organizado, Brasil e Índia se enfrentam em campo. O amistoso marcado para 3 de outubro de 2026, no Estádio Vivekananda Yuba Bharati Krirangan, em Calcutá — com capacidade para 63 mil torcedores —, não é apenas uma curiosidade histórica: é um marco que traz à tona questões jurídicas pouco discutidas no futebol brasileiro, especialmente os direitos e obrigações dos atletas nacionais quando atuam em solo estrangeiro.
O Brasil chega ao duelo na 5ª posição do ranking da FIFA e com o desfalque de Raphinha, cortado por edema muscular na coxa direita. No gol, Carlo Ancelotti aposta na estreia do goleiro Pedro Morisco, do Coritiba — um nome ainda pouco conhecido do grande público, mas que pode emergir deste confronto histórico com novos horizontes profissionais.
Um jogo inédito que vai além das quatro linhas
O amistoso em Calcutá tem um significado diplomático e esportivo que extrapola o placar final. É a primeira vez que a Seleção Brasileira, pentacampeã mundial, pisa em solo indiano para uma partida oficial de futebol. O estádio, um dos mais tradicionais da Índia, será palco de um encontro entre a 5ª e a 100ª posições do ranking FIFA — um duelo que simboliza a crescente internacionalização do futebol e o esforço da Índia para entrar no mapa mundial da modalidade.
Para além da dimensão esportiva, o jogo representa uma janela diplomática entre dois dos maiores países do mundo, ambos membros do BRICS. As relações bilaterais entre Brasil e Índia, que movimentaram mais de US$ 12 bilhões em comércio em 2025, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, ganham um novo capítulo com este encontro esportivo. E onde há diplomacia e negócios, há inevitavelmente questões jurídicas que precisam ser compreendidas.
A lei do futebol: o que muda quando um atleta cruza fronteiras
Quando uma seleção nacional viaja para uma partida em outro país, os atletas estão sujeitos a um duplo ordenamento jurídico: o do país de origem e o do país onde atuam. Na prática, isso significa que salário, direitos de imagem, obrigações fiscais e proteções trabalhistas podem variar significativamente de uma nação para outra.
No Brasil, a legislação que rege os contratos de atletas profissionais é a Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), que estabelece normas sobre vínculo empregatício, rescisão contratual, direito de arena — a parcela das receitas de transmissão destinada aos atletas — e direitos de imagem. Mas quando um jogador brasileiro passa a atuar regularmente em outro país, seja por transferência definitiva ou empréstimo, essa proteção doméstica pode ser insuficiente.
A Índia tem seu próprio marco regulatório para o futebol profissional, administrado pela All India Football Federation (AIFF), e não há tratado bilateral específico entre os dois países que regulamente o trânsito de atletas. Isso cria um terreno jurídico instável — e a necessidade urgente de orientação especializada para quem pretende atuar nesse mercado.
Caso concreto: o que pode acontecer após Calcutá
Considere o seguinte cenário: Pedro Morisco faz uma excelente partida contra a Índia, defende um pênalti no estádio lotado de Calcutá e atrai o interesse de um clube da Indian Super League (ISL). O clube oferece um contrato de 18 meses, com salário de R$ 120.000 por mês — mais do que o dobro do que ele recebe atualmente no Coritiba — e direitos de imagem negociados à parte.
Parece uma grande oportunidade. Mas se Morisco assinar esse contrato sem assessoria jurídica especializada, pode se deparar com riscos concretos que nenhum torcedor costuma imaginar:
- Tributação dupla: sem planejamento tributário adequado, o atleta pode ser tributado tanto no Brasil (onde mantém domicílio fiscal) quanto na Índia. O resultado combinado pode chegar a até 45% do salário bruto retido em impostos. Como Brasil e Índia não possuem um acordo de bitributação consolidado para atletas, a responsabilidade de evitar esse cenário recai inteiramente sobre o atleta e seu representante legal.
- Direito de arena não reconhecido: a legislação indiana não reconhece automaticamente o direito de arena previsto na Lei Pelé, que no Brasil garante ao atleta 5% das receitas de transmissão das partidas em que participa. Um contrato sem cláusula expressa sobre esse ponto deixa o jogador sem essa receita.
- Rescisão sem multa adequada: se o clube exercer uma cláusula de rescisão antecipada sem indenização equivalente, o atleta pode ficar sem rendimentos por até 6 meses antes de encontrar um novo clube, sem que a legislação indiana preveja automaticamente uma compensação.
Se o contrato incluir uma cláusula expressa de domicílio fiscal com isenção de dupla tributação, o reconhecimento do direito de arena adaptado ao contexto local e uma multa rescisória equivalente a pelo menos 3 salários mensais, o atleta estaria protegido em qualquer um desses cenários. A diferença entre um contrato bem assessorado e um mal redigido pode representar, neste caso concreto, mais de R$ 500.000 ao longo dos 18 meses de contrato.
O que as regras da FIFA garantem — e o que não garantem
Segundo o Regulamento sobre o Status e Transferência de Jogadores, publicado oficialmente pela FIFA, os atletas convocados para a seleção nacional têm obrigação de se apresentar ao chamado, e os clubes que os retiverem indevidamente podem ser punidos. Em contrapartida, os atletas que sofrerem lesões durante jogos da seleção têm direito a seguro específico pago pela FIFA ao clube de origem.
No caso de Pedro Morisco: se ele sofrer uma lesão muscular no jogo de 3 de outubro, o Coritiba tem direito a receber uma compensação financeira pela FIFA, coberta pelo seguro internacional da entidade. Mas esse direito só é ativado se o clube comunicar formalmente o incidente ao departamento jurídico da CBF e esta, por sua vez, registrar a ocorrência junto à FIFA dentro de 10 dias úteis após a dispensa médica do atleta. Um atraso nessa comunicação pode custar ao clube até R$ 300.000 em indenizações não recebidas — um valor que passaria despercebido sem o acompanhamento jurídico adequado.
Patrocinadores e agentes também estão expostos
Não é apenas o jogador que precisa de orientação jurídica. Agentes esportivos, familiares que dependem do salário do atleta e empresários que administram contratos de patrocínio também carregam riscos nessa equação.
Do ponto de vista do patrocinador, o mercado indiano exige atenção especial ao registro de marcas. A Índia tem regras próprias de propriedade intelectual, e uma marca brasileira que não registre sua identidade visual no escritório indiano (Indian Trade Marks Registry) pode ter seu logo copiado sem que a lei local ofereça proteção. Além disso, campanhas publicitárias que utilizem a imagem de atletas e sejam veiculadas na Índia podem exigir autorizações específicas, distintas das que constam nos contratos padrão usados no Brasil.
Saiba mais sobre os direitos dos brasileiros que viajam ao exterior para acompanhar a seleção
O futebol brasileiro vai para o mundo — e a proteção jurídica precisa acompanhar
Historicamente, os destinos de exportação do futebol brasileiro eram concentrados: Portugal, Espanha, Alemanha, Arábia Saudita, Japão e Coreia do Sul. O amistoso contra a Índia sinaliza que essa rota está se expandindo para novos mercados — e com isso surgem desafios legais que a grande maioria dos atletas, agentes e clubes brasileiros ainda não está preparada para enfrentar.
A Indian Super League já conta com 12 clubes, e o mercado esportivo indiano movimentou mais de R$ 700 milhões em contratos com transmissoras e patrocinadores somente em 2025. Com 1,4 bilhão de habitantes e uma classe média em crescimento acelerado, a Índia pode se tornar um dos maiores destinos para atletas sul-americanos na próxima década.
Para jogadores que estejam considerando oportunidades no exterior — seja na Índia, em qualquer outro país asiático ou em mercados emergentes —, e para as famílias, agentes e clubes que os apoiam, a orientação preventiva de um advogado especializado em direito esportivo internacional não é um luxo: é uma proteção essencial antes que os contratos sejam assinados.
Quando buscar assessoria jurídica especializada
Situações como as descritas acima evidenciam que o futebol moderno é um negócio jurídico complexo que vai muito além das quatro linhas. Se você é um atleta com interesse em contratos no exterior, um agente que negocia transferências internacionais, um patrocinador ampliando sua presença em novos mercados ou um familiar que depende da carreira de um jogador, contar com um advogado especializado em direito esportivo é fundamental.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para situações específicas, consulte um advogado especializado.
Na plataforma Expert Zoom, você encontra advogados com experiência em contratos desportivos, direito internacional do trabalho e planejamento tributário para atletas. Em uma consulta online, sem sair de casa, é possível entender seus direitos antes que qualquer documento seja assinado — e evitar perdas que podem chegar a centenas de milhares de reais.

Joao Souza