A seleção brasileira empatou com a Austrália por 1 a 1 no dia 25 de setembro de 2026, no Queensland Country Bank Stadium, em Townsville — o primeiro compromisso da era Carlo Ancelotti no pós-Copa do Mundo, com oito estreantes absolutos entre os 26 convocados. Enquanto torcedores debatem escalação e resultado, advogados especializados em direito esportivo já levantam outra questão: se um jogador se machuca a mais de 17 mil quilômetros de casa, quem é o responsável legal pelos danos?
A pergunta que todo atleta deveria fazer antes de embarcar
Quando a CBF convoca um jogador para uma Data-FIFA, os clubes são obrigados a liberá-lo. É uma norma prevista no artigo 7 do Regulamento sobre o Estatuto e as Transferências de Jogadores da FIFA. Essa liberação obrigatória não é gratuita — ela vem acompanhada de obrigações legais que protegem tanto o clube quanto o atleta.
A regra geral é clara: o clube continua pagando o salário, e a federação nacional assume os custos com tratamento médico em caso de lesão ocorrida durante atividades convocadas. Isso inclui treinos, viagens e os próprios jogos — sejam eles amistosos ou oficiais, desde que reconhecidos pela FIFA.
O problema começa quando o atleta não sabe o que está coberto. A distância entre Brasil e Austrália é de aproximadamente 14 horas de voo direto. Uma cirurgia emergencial em hospital privado em Brisbane ou Townsville pode custar o equivalente a R$ 80.000 a R$ 130.000 em procedimentos e internação. Sem um advogado ao lado, muitos atletas aceitam acordos que não refletem seus direitos reais.
Como funciona a responsabilidade jurídica em amistosos internacionais
O artigo 7º do Regulamento da FIFA define que, durante convocações obrigatórias para seleções nacionais, a federação convocante é responsável por cobrir integralmente os custos médicos gerados por lesões sofridas durante o período. Isso vale para treinos, aquecimentos, deslocamentos e partidas.
Segundo informações públicas da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF mantém seguro coletivo para atletas convocados. Os detalhes da apólice não são divulgados abertamente — o que por si só já é um problema jurídico para os atletas que precisam saber o que está coberto antes de embarcar.
Para os oito estreantes desta convocação — entre eles Breno Bidon (Corinthians), Jair (Nottingham Forest) e Gabriel Bontempo (Santos) — é a primeira exposição a esse mecanismo. A maioria não tem agentes jurídicos especializados. E não é só por falta de dinheiro: é por falta de cultura de proteção legal no futebol brasileiro fora das grandes celebridades do esporte.
Na prática, a cadeia de responsabilidades funciona assim: clube libera o atleta, CBF assume a custódia jurídica durante o período convocado, e o atleta retorna ao clube ao término da Data-FIFA. Se o atleta retorna lesionado, o clube não pode suspender contrato ou salário. Se os custos médicos forem maiores do que a apólice da CBF cobre, o atleta pode buscar a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da CBF.
Caso concreto: estreante, lesão e R$ 180 mil em disputa
Considere a situação hipotética — mas juridicamente realista — de Breno Bidon, meio-campista do Corinthians convocado pela primeira vez para a seleção principal. Durante o treino do dia 24 de setembro de 2026, um dia antes do jogo em Townsville, ele sofre uma ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) em exercício de finalização.
O que acontece juridicamente a partir desse momento?
Salário: O Corinthians é obrigado a continuar pagando. A lesão ocorreu durante atividade convocada pela CBF, portanto o clube não pode suspender ou reduzir a remuneração. Com base nos referenciais salariais de jogadores do Corinthians em funções similares em 2026, a remuneração mensal de um atleta nessa posição pode ser de R$ 80.000 a R$ 120.000. Uma recuperação padrão de ruptura de LCA dura entre cinco e oito meses. Resultado: R$ 400.000 a R$ 960.000 apenas em salários pagos pelo clube durante o afastamento.
Tratamento médico: A CBF é responsável pelos custos de cirurgia e reabilitação ocorridos durante o período convocado. Uma artroscopia de LCA em hospital privado australiano sai entre AUD 15.000 e AUD 22.000 — aproximadamente R$ 55.000 a R$ 80.000 em câmbio de setembro de 2026. A fisioterapia especializada nos primeiros três meses pode adicionar mais R$ 40.000 a R$ 50.000. Total médico estimado: R$ 95.000 a R$ 130.000, podendo ultrapassar R$ 180.000 com complicações.
Se / então: Se a lesão ocorreu durante atividade diretamente convocada pela CBF, então:
- O clube não pode descontar os custos do salário do atleta.
- A CBF é responsável pelo tratamento até o fim do período de Data-FIFA.
- Se a apólice da CBF não cobrir o total das despesas, o atleta pode acionar o CNRD para ressarcimento da diferença.
- Se o clube tentar impedir o retorno do atleta após a recuperação com justificativa na lesão, configura rescisão indireta — e o atleta tem direito à indenização prevista no artigo 31 da Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998).
Sem um advogado especializado, Breno Bidon — hipotético, mas representativo de centenas de jogadores jovens — pode não saber que esses direitos existem. Ele assina o que clube e CBF apresentam, e aceita.
O que muda para atletas amadores e semiprofissionais
A discussão sobre a seleção parece distante de quem disputa o campeonato municipal de futebol ou o torneio da empresa. Mas as obrigações legais se aplicam em cascata — e a Lei Pelé é clara.
O artigo 45 da Lei nº 9.615/1998 determina que entidades de prática esportiva que promovem competições com atletas profissionais são obrigadas a contratar seguro de acidentes de trabalho. Para atletas amadores vinculados a entidades registradas em federações estaduais, a responsabilidade também existe quando há organização formal da atividade.
Isso significa, na prática:
Se você disputa uma competição organizada por uma liga afiliada à federação estadual e se machuca, a entidade organizadora pode ser responsabilizada pelos custos médicos — mesmo que você não receba salário.
Se o clube não mantiver apólice de seguro válida, responde judicialmente pela integralidade das despesas médicas do atleta lesionado.
Se você treina regularmente em instalações de um clube sem contrato formal, mas há indícios de relação de trabalho — regularidade, subordinação, remuneração indireta —, um advogado pode caracterizar vínculo empregatício de fato. Isso abre direito a FGTS, INSS, cobertura por afastamento e indenização por lesão.
A maioria dos atletas semiprofissionais e jogadores de categorias de base no Brasil não tem contrato assinado. Jogam em acordos verbais. E quando vêm as lesões — joelho, tornozelo, coluna — ficam sem amparo. A orientação jurídica especializada pode mudar completamente o desfecho dessas situações.
Cinco direitos que todo atleta deve conhecer antes de entrar em campo
1. Direito ao seguro acidentário: qualquer clube ou entidade que convoca atletas para competições oficiais tem obrigação de garantir cobertura médica para lesões ocorridas durante as atividades.
2. Direito à manutenção do salário: atletas profissionais lesionados em atividades convocadas por federações não podem ter o contrato suspenso ou o salário reduzido pelo clube durante o período de recuperação.
3. Direito à rescisão indireta: se o clube descumprir obrigações contratuais após uma lesão — atraso no pagamento, recusa de assistência médica, afastamento discriminatório —, o atleta pode solicitar rescisão com pagamento integral das verbas rescisórias.
4. Direito à arbitragem esportiva: disputas entre atleta e clube podem ser submetidas ao CNRD (CBF) ou ao TJD estadual antes de chegar à Justiça comum. Esse caminho costuma ser mais rápido e já começa com profissionais especializados no contexto esportivo.
5. Direito à cópia do contrato e da apólice: você tem o direito de receber, antes de qualquer atividade esportiva oficial, cópia do seu contrato e do documento que comprova a apólice de seguro que te cobre. Se o clube não fornecer, já é sinal de alerta jurídico.
Quando buscar orientação jurídica especializada
O empate entre Brasil e Austrália por 1 a 1 gerou debate sobre o novo ciclo da seleção. Para os atletas em campo — e para todos que praticam esporte de forma organizada no Brasil — as obrigações legais existem independentemente do placar.
Se você sofreu uma lesão em atividade esportiva e não sabe a quem recorrer, se é jogador sem contrato formal que se machucou durante um treino, ou se é gestor de clube querendo entender suas responsabilidades antes de organizar uma competição, uma consulta com um advogado especializado em direito esportivo pode evitar disputas longas e custos inesperados.
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Aviso legal: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo. As situações descritas são hipotéticas e baseadas na legislação vigente. Para orientação sobre seu caso específico, consulte um advogado habilitado.

Joao Souza